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BCE salvou o Euro em 2010 e “Portugal sabe bem disso”, diz Jean-Claude Trichet

Ex-líder do BCE participou em Lisboa na conferência “O euro 20 anos depois: a estreia, o presente e as aspirações para o futuro”.

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Autor: Redação

Jean-Claude Trichet, antigo presidente do Banco Central Europeu (BCE), considera que salvou, juntamente com a sua equipa, o euro em 2010, quando comprou títulos de dívida de Portugal, Grécia e Irlanda, na altura alvos de uma “especulação devastadora” nos mercados.

Salvei o euro [juntamente com a minha equipa], em 2010, e Portugal sabe bem disso, porque comprei títulos de dívida portuguesa na altura, quando houve uma especulação devastadora” contra Portugal, Grécia e Irlanda, referiu o responsável em declarações à Lusa e à margem da conferência “O euro 20 anos depois: a estreia, o presente e as aspirações para o futuro”, que se realizou no Museu do Dinheiro, em Lisboa, dia 15 de novembro de 2019.

Naquela altura, Portugal era um dos países da zona euro que estava na mira dos mercados financeiros, com os juros das obrigações portuguesas a registar máximos históricos, reflexo do risco percecionado em relação ao país, escreve a agência de notícias. 

Em novembro de 2010, os juros da dívida portuguesa a 10 anos superaram os 7% no mercado secundário, um máximo histórico, e o nível a partir do qual o então ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, tinha apontado, numa entrevista ao Expresso, como a barreira com a qual se começava a colocar a hipótese de recorrer ao resgate do fundo europeu e do Fundo Monetário Internacional (FMI). Algo que veio a acontecer em abril de 2011.

De acordo com Jean-Claude Trichet, na altura, “o mercado de Nova Iorque estava convencido de que o Euro iria desaparecer e que a zona euro seria desmantelada”. “Tivemos de lidar com a grande crise desencadeada pela falência do Lehman Brothers nos EUA e tomar uma série de decisões extraordinárias”, que passaram pela compra de obrigações do Tesouro de Portugal, da Grécia e da Irlanda, recordou o economista francês, adiantando que foram “decisões muito ousadas e criticadas”.

A herança de Draghi e os desafios de Lagarde

Quando questionado sobre os oito anos do mandato do seu sucessor, Mario Draghi – foi entratanto “substituído” por Christine Lagarde –, o antigo presidente do BCE disse que “vê uma grande continuidade nos esforços” empreendidos por si e por Draghi “para manter o empreendimento histórico do euro e da Europa no seu conjunto”. “Porque o euro está na vanguarda da construção europeia”, referiu.

E será que Draghi deixou uma herança pesada a Lagarde, perante as divergências no seio do BCE sobre as medidas de estímulo à economia da zona euro? Trichet considerou que “não”. “Na altura em que eu era presidente do BCE tive a demissão de dois colegas que não estavam satisfeitos com as decisões que tomámos. É normal nem todos os membros do Conselho de Governadores estarem de acordo. [É algo que acontece] em todos os bancos centrais”, frisou.

Jean-Claude Trichet foi o segundo presidente do BCE, entre 2003 e 2011, depois do holandês Wim Duisenberg, que foi o primeiro presidente da instituição, e é atualmente presidente do Conselho de Administração do Bruegel, um 'think tank' europeu especializado em economia.