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Desemprego, doença e divórcio, “os três D da pobreza” – 1/3 das pessoas pobres tem emprego

Esta é uma das conclusões do estudo “Pobreza em Portugal - Trajetos e Quotidianos”, promovido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Imagem de Leroy Skalstad por Pixabay
Imagem de Leroy Skalstad por Pixabay
Autor: Redação

O desemprego, a doença e o divórcio são fatores que contribuem para a entrada numa situação de pobreza em Portugal ou que impedem que se saia dessa condição, segundo o estudo “Pobreza em Portugal - Trajetos e Quotidianos”. O documento, que foi divulgado esta segunda-feira (12 de abril de 2021) e é promovido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, chama a esses três processos de produção, reprodução ou intensificação dessa situação “os três D da pobreza”. Uma das conclusões a retirar é que um terço das pessoas pobres (32,9%) tem emprego.

“Se nos debruçamos sobre os fatores que levam as pessoas entrar na pobreza, são os mesmos que impedem que elas saiam”, disse o coordenador do estudo, Fernando Diogo, professor de Sociologia na Universidade dos Açores, citado pela Lusa. Esses três motivos individuais, que “afetam fortemente a vida” das pessoas “e constrangem as suas escolhas”, devem ser entendidos também “a nível contextual”, referiu. 

O académico enfatizou a articulação com a organização do mercado de trabalho, “onde se incluem as questões da precariedade, da informalidade, dos baixos salários e da zona intermédia entre emprego e desemprego”; dos apoios estatais, como são os casos dos apoios na doença e no desemprego, e das questões mais conjunturais, como períodos de crise.

“Claro que há sempre casos que saem disto, mas a esmagadora maioria dos casos são explicáveis com a conjugação destes fatores, em geometria variável e no respeito pela singularidade de cada perfil e de cada percurso individual”, vincou.

Os quatro perfis de pobreza em Portugal

Segundo o responsável, o estudo identificou “quatro perfis de pobreza em Portugal” entre quem tem mais de 18 anos: os reformados (27,5%), os precários (26,6%), os desempregados (13%) e os trabalhadores (32,9%)”.

A equipa que desenvolveu o estudo, salientou o autor, ficou surpreendida “com o peso da doença”, mencionado por muitos dos 91 entrevistados, “para ajudar a explicar a situação de pobreza delas ao longo do seu trajeto”, especialmente entre os reformados, mas também os desempregados.

Fernando Diogo sublinhou referir-se a doenças crónicas ou incapacitantes, como deficiência. “Os relatos vão no sentido de mostrar como a incidência da doença afetou as suas vidas ao longo de toda a sua vida. A doença ajuda a explicar porque é que estão na situação difícil em que estão", salientou o coordenador, que se refere maioritariamente ao perfil dos reformados, mas também aos desempregados, em particular de longa duração.

Tal como a doença, dos próprios ou de familiares, é referida a morte de pessoas do agregado como fator que dificultou a trajetória dos entrevistados no âmbito do estudo ou que precipitou a entrada num contexto de pobreza.

A doença ou a morte, realçou o investigador, não é um problema individual, mas com impacto no círculo familiar, tal como acontece com o desemprego.

A ligação entre o divórcio e a pobreza

De acordo com o estudo, também o divórcio, ou a separação dos casais, “em situações que já de si são de grande fragilidade, leva facilmente os indivíduos para a pobreza, considerando a redução de rendimentos causada pela separação e os seus efeitos em cascata, incluindo na atividade laboral”.

“Estes elementos estão presentes na trajetória de vida dos entrevistados, agravando situações já de si difíceis ou condicionando fortemente a vida dos indivíduos, reduzindo a sua margem de manobra e tornando as suas possibilidades de saírem da situação de pobreza mais remotas", acentuou o estudo hoje apresentado.

Há muitos pobres com emprego estável e contrato de trabalho

Entretanto, e segundo escreve o Expresso, a maioria da população ativa que integra o perfil de pobreza trabalhadores, os já referidos 32,9%, tem um emprego estável e contrato de trabalho, além de, em alguns casos, vínculo efetivo há mais de uma década. O “problema” é que auferem salários baixos e, em muitos casos, é desse rendimento que dependem as suas famílias. 

“Os trabalhadores têm uma ligação mais próxima ao mercado de trabalho, mas os precários também trabalham, incluindo situações de biscates e atividades informais”, indica Fernando Diogo, citado pela publicação, salientando que a maior parte das pessoas em situação de pobreza tem uma ligação, estável ou instável, ao mercado de trabalho.

Na prática, os trabalhadores em situação de pobreza têm uma ligação mais direta e estável com o mercado de trabalho, na sua grande maioria, sendo que a razão da sua pobreza está nos baixos salários e em terem as suas famílias dependentes desse rendimento.

No caso dos precários, há uma relação incerta e instável com o mercado de trabalho, pelo que tendem a ser mais novos, mais escolarizados e muito dependentes dos seus familiares. São, segundo o estudo, os que poderão ser mais afetados pelo impacto da pandemia, uma vez que “muitos não serão, sequer, despedidos”, visto não terem vínculo. Ou seja, “não terão, sequer, direito ao subsídio de desemprego ou ao subsídio social de desemprego”.

No caso dos reformados, muitos têm rendimentos baixos porque tiveram trabalhos com baixos salários e frequência irregular, vínculo laboral informal e uma “transição para o emprego feita, quase sem exceção, na situação de trabalho infantil (na conceção atualmente em vigor)”.

Já os desempregados caracterizam-se por serem tendencialmente menos escolarizados, “mais dependentes dos apoios sociais do Estado e de outras instituições”. E mais: muitos estão sem emprego desde a crise de 2009-2014 e veem agora ainda mais reduzidas as suas possibilidades de arranjarem trabalho. 

*Com Lusa