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Marvila, perto do rio e do centro, e com alma: assim é o novo bairro 'trendy' da capital

Photo credit: Antónia Lobato on Visual Hunt
Photo credit: Antónia Lobato on Visual Hunt
Autor: carla celestino (colaborador do idealista news)

Depois dos empreendimentos de luxo junto à zona ribeirinha de Lisboa, há agora em Marvila um novo tipo de oferta para um novo tipo de procura, dominada pelos chamados 'young professional' e famílias. Há também a promessa da autarquia de Lisboa de mais e melhor habitação social e para a classe média. O idealista/news falou com especialistas, autarcas e população local e constatou que este bairro da capital tem um enorme potencial, mas também há quem fale já em casos de “bullying imobiliário”.

Boom imobiliário chega a Marvila

Neste momento encontra-se em comercialização ativa os projetos Prateato (em pré-vendas) e, mais próximo da zona do Parque das Nações, o Prata Living Concept. E o Quarteirão do Poço do Bispo com 16 mil metros quadrados (m2) de construção, vocacionado para o segmento médio-alto com projeto do atelier de Frederico Valsassina. foi vendido no final de 2018.

Estes são apenas alguns exemplos de projetos conhecidos que estão revitalizar a zona de Marvila. Ao que tudo indica, o renascimento desta zona da capital não vai parar por aqui. E por que razão este bairro tornou-se tão apetecível?

maislisboa.fcsh.unl.pt
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Para Patrícia Barão, diretora de Residencial da JLL Portugal, “Marvila tem um enorme potencial.” E explica porquê: “Está a 10 minutos do centro, perto do rio, tem muitos edifícios para reabilitar e oportunidades para novas construções. É cada vez mais um bairro trendy onde se estão a desenvolver projetos alternativos que atraem a comunidade ligada às artes e profissões liberais”. Mais…, diz que vai ter “uma grande mudança nos próximos 2/3 anos”.

Quem quer viver neste bairro?

O perfil da procura já começou a mudar. Segundo esta especialista, abarca “desde os mais jovens (young professionals) e investidores que irão querer arrendar a longo prazo às pessoas cujos trabalhos ali se vão instalar” e “teremos também, certamente, as famílias que procuram imóveis de maiores dimensões (do que as tipicamente disponíveis no centro de Lisboa) em condomínio fechado. Teremos diversas tipologias de oferta, desde Lofts, T1 a apartamentos T4 e os valores médios deverão rondar os 4.000 euros por m2 com estacionamento”. 

Photo credit: Cenas a Pedal on Visual Hunt
Photo credit: Cenas a Pedal on Visual Hunt

Um projeto que está na calha localiza-se na rua Capitão Leitão 62-72, outrora conhecida pelas suas tanoarias, onde o promotor Cosmikanchor vai desenvolver o projeto da Vila Marvila de autoria do atelier ARX Portugal, Arquitetos. No ano passado foi solicitada alteração ao alvará de loteamento que prevê agora o uso misto do edifício, dos quais 2494,99 m2 são habitação (loft) e 406,00m2 são para comércio e serviços (coworking), com 25 lugares para estacionamento e espaços para arrumação para cada uma das fracções. Está previsto ainda um jardim de autoria do atelier Baldios.

A mediadora AFinest Luxury Real Estate encontra-se a comercializar um prédio em ruínas que vai dar origem a um novo projeto urbanístico. O representante desta mediadora, André Abreu, declarou ao idealista/news que “o projeto inicial não foi aprovado pela Câmara Municipal de Lisboa (CML) e, neste momento, encontra-se a decorrer o processo do pedido de alterações junto da autarquia”. O edifício vai ser constituído por 4 pisos vai ter 14 novas frações nas tipologias de T1 a T4, arrecadação e estacionamento. O valor de venda é de 700.000 euros.

Patrícia Barão acrescenta ainda que “já há alguns projetos (de habitação) em pipeline com lançamento previsto em 2019, mas que ainda não podem ser nomeados”.

Já no Hub Criativo do Beato, na Travessa do Grilo, de acordo com o diretor executivo da Startup Lisboa, Miguel Fontes, “as antigas residências dos militares serão um espaço de coliving, mas ainda não existe operador, pois vai a concurso até ao final do 1º semestre de 2019”. 

Startup Lisboa
Startup Lisboa

Pressões e 'bullying'

Um dos pontos em ebulição é exatamente a zona envolvente do Hub Criativo do Beato. Miguel Fontes contraria a ideia dos maus efeitos da gentrificação, dizendo que “os ecos que temos tido é que é uma pressão que todas as pessoas nos agradecem, sobretudo os comerciantes que começaram a vender mais, nomeadamente os restaurantes que têm mais clientes e aumentaram o valor das refeições”. Além disso, como salienta, “já existia um perfil de novos ocupantes antes do Hub Criativo do Beato ter sido anunciado, como existe em toda a cidade, mas que obviamente se acelerou com a movimentação deste projeto.”

Mas há quem defenda que nesta localização há mesmo casos que são considerados 'bullying imobiliário'. Por exemplo, a arquiteta e membro da nova direção da Associação Lisbonense dos Inquilinos (AIL), Joana Gouveia Braga, aponta o exemplo do edifício Santos Lima, no Poço do Bispo. Um caso que foi denunciado pela plataforma Stop Despejos e chegou até a ser notícia no jornal britânico The Guardian.

Do lado dos inquilinos, das 42 frações já só existem residentes em 17 e falam da não renovação dos contratos e de cartas de despejo com base no argumento da demolição do edifício. Joana Gouveia Braga fala que este é um “caso típico” de uma “zona que já começa a ter pressão imobiliária”, “onde existe uma população envelhecida que não tem capacidade de reivindicação e está desprotegida quanto ao cumprimento da lei”. Para a representante da AIL é claro que nesta área deveria haver “contrapartidas”, nomeadamente ao nível da “reabilitação das vilas e pátios operários onde as pessoas vivem hoje em condições precárias” e “criar medidas que pudessem evitar alguns desalojamentos”. 

Do lado dos proprietários, Buy2Sale e a Preciousgravity, dizem que não mandaram sair ninguém, que pagaram indeminizações e que o prédio está em perigo de derrocada causada pelas obras ilegais que os inquilinos foram realizando ao longo dos anos. O que é certo é que este edifício esteve à venda por 7,2 milhões de euros e o anúncio referia que o imóvel tem “potencial para condomínio privado habitacional, hotel ou escritórios.” 

Apesar das mudanças na lei do arrendamento, da possibilidade da autarquia tomar administrativamente o edifício e da Buy2Sale dizer que têm a “noção das necessidades e direitos dos inquilinos”, o desfecho continua incerto. 

Privados avançam com projetos de renda acessível

Em Marvila, à semelhança do que acontece um pouco por toda a Lisboa, muitos dos proprietários têm vindo a tentar aproveitar o bom momento que o imobiliário atravessa, subindo as rendas ou esvaziando os imóveis para vender. O equilíbrio, segundo os especialistas ouvidos, parece estar nos projetos habitacionais da autarquia.

Uma das soluções para esta zona apontadas pelo presidente da CML, Fernando Medina, passa por fazer construção de habitação para “a classe média e famílias” ao abrigo do programa Lisboa Renda Acessível. 

Visual Hunt, Jaime Silva
Visual Hunt, Jaime Silva

Para breve está o lançamento do concurso para a regeneração urbana de quatro edifícios na Quinta do Marquês de Abrantes com 363 fogos e 406 lugares de estacionamento, que conta com um valor total de investimento privado de 59 milhões de euros. 

No bairro da Flamenga, ao lado do Parque da Belavista, encontra-se em análise o projeto de loteamento para a construção nova de 185 fogos, que deverá incluir comércio e equipamentos e 212 lugares de estacionamento, perfazendo um investimento privado de 19,1 milhões de euros. 

Em preparação está também o projeto de cinco edifícios com 388 fogos e 325 lugares de estacionamento no bairro do Condado, com um investimento privado na ordem dos 35,3 milhões de euros.

Ao todo o investimento privado nestes três projetos ascende a 113,4 milhões de euros.

32 alojamentos vazios vão ser em breve ocupados

Ainda relativamente à habitação, o idealista/news questionou Fernando Medina sobre o fato de 66 dos 593 alojamentos existentes em Marvila estarem vazios (dados Censos 2011 - INE). O autarca garante que “estas casas estão neste momento em obras, e com intervenção em curso para que, até ao final do próximo ano, podermos entregar todas”, detalhando que a “Gebalis recebeu dinheiro para fazer isso tudo” e que “está agora a lançar as empreitadas”.

Gerbalis
Gerbalis

Contatada pelo idealista/news, a diretora de Direção de Intervenção Local, Marta Santos, explica que a Gebalis “gere 1077 fogos municipais nos bairros Alfinetes, Marquês de Abrantes e Marquês de Abrantes Cooperativas”. Deste total, “32 fogos encontram-se em diferentes situações: alguns em fase final de atribuição a novas famílias; outros com obras de reabilitação a iniciar, em curso ou a terminar; outros ainda destinados aos programas de arrendamento da CML ou afetos a operações urbanísticas em curso”.

A verdade é que os novos projetos equacionados para este bairro, sejam públicos ou privados, estão a mudar um espaço que durante muito tempo se encontrou num limbo imobiliário. Em 2019, Marvila celebra 60 anos, os próximos 60 serão, seguramente, muito diferentes. Para já, é o novo bairro 'trendy' da capital.

Time Out
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