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Especial LGBTI: quanto custa comprar ou arrendar casa no bairro onde podes ser tu mesmo

Autores: Leonor Santos, Luis Manzano

Londres tem o Soho, Lisboa tem o Príncipe Real. O bairro mais LGBTI da capital portuguesa atrai restaurantes, lojas, espaços de entretenimento, mas também moradores e investidores. Dos portugueses aos estrangeiros, ninguém fica indiferente às características únicas da zona arco-íris. Mas, afinal, quanto custa comprar ou arrendar casa no Príncipe Real? E que outras zonas podem ser alternativa? Os profissionais respondem ao idealista/news.

O preço do imobiliário tem vindo a subir ali, como de resto acontece em diferentes zonas da cidade. Neste momento, e de acordo com a Head of Residential da JLL, Patrícia Barão, os preços no bairro arco-íris rondam os “5.500 os 8.000 euros por metro quadrado (m2), embora se encontrem projetos específicos onde os preços podem chegar aos 10.000 euros”.

A especialista em imobiliário salienta que, desde há dois anos, tem vindo a sentir-se uma maior procura por toda aquela zona, um cenário que “tem tido uma grande influência nos preços”, explica.

The Stocks - GuillaumeMaciel
The Stocks - GuillaumeMaciel

"Cada vez que vamos ao Príncipe Real vemos uma loja nova"

O Príncipe Real, inserido na freguesia da Misericórdia, é um dos mais tradicionais e famosos bairros de Lisboa. É, aliás, uma paragem obrigatória para quem passa pela capital. Durante o dia, os restaurantes, lojas e esplanadas enchem-se de turistas e de quem faz vida por ali, mas à noite as luzes não se apagam: bares e discotecas dão vida ao bairro LGBTI. Ali, o arco-irís nunca desaparece. 

Hoje em dia é uma zona residencial de charme, que está cada vez mais “in” e esta dinâmica dourada é evidente. “Cada vez que vamos ao Príncipe Real vemos uma loja nova, um restaurante novo, um prédio requalificado. Isso mostra bem aquilo que está a ser bem feito em Lisboa a nível da reabilitação urbana”, acrescenta a especialista em imobiliário. Toda a oferta de imóveis que possa surgir, garante Patrícia Barão, "é facilmente absorvida".

Quanto custa arrendar uma casa?

De acordo com João Passos, responsável pelo projeto “Lisboa Pride – homes for everyone”, e consultor imobiliário na Remax desde há 10 anos, não é possível arrendar uma casa na zona por menos de 750/800 euros, “sendo que os preços depois podem ir até 1.500/2.000 euros se forem projetos novos”.

Assegura, ainda assim, “que temos mais oferta de compra e venda do que de arrendamento”. As casas para arrendar “ficam uma semana, se tanto, no mercado, porque há sempre muita gente interessada, nacionais e estrangeiros” e há pouca oferta - sobretudo desde o fenómeno exponencial do Alojamento Local.

Os estrangeiros continuam a ser um "peso pesado". E do que é que vêm à procura? De zonas que tenham vida, comércio, transportes, numa cidade que, apesar de ser "muito aberta e interessante" para esta comunidade, ainda vai pecando pela "falta de oferta específica".

O Lisboa Pride é consequência disso mesmo: o consultor identificou uma falha num mercado onde havia demanda e decidiu preenchê-la. "A aposta neste segmento surgiu, naturalmente, através de amigos que me foram passando referências de conhecidos, familiares e outras pessoas interessadas”, acrescenta.

O emblemático Jardim do Princípe Real é o coração do bairro "arco-íris"
O emblemático Jardim do Princípe Real é o coração do bairro "arco-íris"

Nacionais VS estrangeiros

O cliente português desta comunidade está, em regra, mais orientado para o arrendamento. Segundo João Passos "comprar casa está caro, e este é um cliente que gosta particularmente de viver no centro da cidade, nas zonas mais históricas, onde preços subiram muito”.

Revela que - por estas circunstâncias - nota-se bastante procura por tipologias maiores de clientes que pretendem partilhar o espaço com alguém, para dividir custos e continuar bem localizado, ainda que “em termos sociais a comunidade LGBT tenha tendência para viver sozinha com um companheiro ou uma companheira”.

Por isto, os estrangeiros vêm, sobretudo, comprar ou arrendar tipologias mais pequenas como T1 ou T2, “que tem muito a ver com o seu estilo de vida", conclui.

O memorial às vítimas de homofobia inaugurado em 2017, no jardim do Príncipe Real
O memorial às vítimas de homofobia inaugurado em 2017, no jardim do Príncipe Real

Bairros onde a febre dos preços ainda não chegou

O bairro arco-íris é um dos mais procurados para viver, mas também um dos mais caros da capital, tal como apontam os especialistas. Arrendar casa já pode ultrapassar os 2.000 euros mensais e o preço de venda por m2 ir além dos 10.000 euros. A freguesia de Santa Maria Maior – onde está Alfama - tornou-se entretanto outra das zonas de forte tendência, estando igualmente a ficar fora do alcance de muitos bolsos. Neste caso, o preço por m2 ronda os 5.643 euros. Quer isto dizer que adquirir uma casa de 50 m2 pode custar mais de 280.000 euros, segundo dados do idealista. Já o valor médio das rendas está em 22,44 euros por m2, ou seja, por um espaço do mesmo tamanho, naquela zona, já se poderá facilmente ter de desembolsar mais de 1.100 euros mensais.

Esta alta de preços está a levar a comunidade LGBTI para outras zonas da cidade, como Arroios ou Lumiar. Os preços nessas freguesias - de acordo com os anúncios publicados no idealista à data de publicação deste artigo - também subiram, é certo, mas ainda continuam inferiores. Em Arroios, comprar uma casa implicará pagar uma média de 4.162 euros por m2. No arrendamento, os preços médios situam-se nos 18,68 euros por m2, pelo que se pode arrendar uma casa de 50 m2 por cerca de 900 euros por mês. No Lumiar os preços são, de momento, mais acessíveis. O preço médio para a compra de casa situa-se nos 3.499 euros por m2 e o preço médio dos arrendamentos ronda os 12,57 euros por m2. Significa isto que, arrendar uma casa de 50 m2 no Lumiar pode custar 600 euros mensais e comprar à volta de 175.000 euros.