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“Mais de 60% das transações imobiliárias são uma consequência de alterações da estrutura familiar”

Ricardo Sousa, CEO da Century 21 Portugal, diz ao idealista/news "que não é expectável” que os preços das casas desçam em 2021.

Ricardo Sousa, CEO da Century 21 Portugal, sobre os efeitos da pandemia no imobiliário
Ricardo Sousa, CEO da Century 21 Portugal 

Que ilações há a retirar da pandemia da Covid-19 para o setor da mediação imobiliária? Esta foi uma das questões que colocámos a Ricardo Sousa, CEO da Century 21 (C21) Portugal, autora do estudo “Impacto da Covid-19 nos critérios da habitação em Portugal”. “Mais de 60% das transações imobiliárias são uma consequência de alterações da estrutura familiar, como o casamento, divórcio, heranças ou a emancipação dos filhos. Por este motivo, muitos tiveram a necessidade urgente de troca de habitação, ou acesso à primeira casa, durante os confinamentos”, diz, em entrevista ao idealista/news, considerando “que não é expectável” que os preços das casas desçam em 2021.

Segundo Ricardo Sousa, “a pandemia obrigou os portugueses a repensarem a forma como habitam e o que valorizam nas suas casas, o que gerou novas necessidades na habitação”. Sobre a tão falada dinamização do mercado de arrendamento, diz que é preciso “gerar um choque em termos de oferta para criar mais soluções habitacionais, com opções mais ajustadas às necessidades e poder de compra das pessoas que querem e precisam de arrendar casa”. 

Impacto da pandemia no imobiliário residencial
Imagem de Please Don't sell My Artwork AS IS por Pixabay

O estudo conclui que quase nove em cada 10 famílias preferem ser proprietárias de uma casa (só 11% dos inquiridos optam por habitação arrendada). A pandemia está a contribuir ainda mais para o aumento da cultura de se ser proprietário em Portugal? Porquê?

Este reforço da cultura de proprietário é uma consequência da nova perspetiva que se ganhou da casa, após os confinamentos. A pandemia obrigou os portugueses a repensarem a forma como habitam e o que valorizam nas suas casas, o que gerou novas necessidades na habitação. 

Os portugueses são muito conservadores na aplicação das suas poupanças e nas suas decisões de investimento, e consideram o imobiliário uma opção para constituir poupança e gerar património. Segundo o estudo, as principais motivações para a preferência por casa em propriedade, indicada por 59% dos inquiridos, é porque constitui um investimento de futuro e 21% assumem que é um património que podem deixar aos filhos.

"A pandemia obrigou os portugueses a repensarem a forma como habitam e o que valorizam nas suas casas, o que gerou novas necessidades na habitação"

Para quando a tão falada/prometida dinamização do mercado de arrendamento? O que pode ser feito para aumentar/estimular o interesse pelo mercado de arrendamento?

Acredito que é necessário gerar um choque em termos de oferta para criar mais soluções habitacionais de arrendamento, com opções mais ajustadas às necessidades e poder de compra das pessoas que querem e precisam de arrendar casa. Neste momento há procura e há interesse, por parte de promotores imobiliários e de investidores, em apostar em soluções ‘Built to Rent’. Contudo, é necessário assegurar estabilidade legal e fiscal, bem como medidas de combate urgente à informalidade do mercado de arrendamento nacional, para se conseguir ter um mercado estruturado, transparente e para que se ganhe escala na oferta de arrendamento.

O estudo conclui que 65% dos inquiridos identificaram novas necessidades relativamente à sua habitação durante o confinamento e que após o confinamento 45% dos portugueses assumem que gostariam de mudar de casa. Que entraves encontram essas pessoas na hora de comprar casa? Os preços continuam a estar demasiado altos? Tenderão a descer nos próximos tempos?

O rendimento médio dos portugueses é muito baixo, situação que é particularmente evidente na Área Metropolitana de Lisboa, Área Metropolitana do Porto e no Algarve onde as taxas de esforço para adquirir ou arrendar uma casa estão bastante acima das médias nacionais. Neste enquadramento, o estudo conclui que entre os 45% dos portugueses que querem mudar de casa, 29% não o fazem porque não têm capacidade financeira. Verificamos que apenas 12% da amostra tem capacidade ou vontade para pagar mais de 600 euros por mês de hipoteca ou de renda de casa. 

A conjuntura atual é caraterizada por uma procura bastante dinâmica na compra/arrendamento, baixas taxas de juro e uma oferta muito limitada, pelo que não é expectável uma descida de preços em 2021.

"A conjuntura atual é caraterizada por uma procura bastante dinâmica na compra/arrendamento, baixas taxas de juro e uma oferta muito limitada, pelo que não é expectável uma descida de preços em 2021"

Há de facto uma tendência de procurar casa ou de mudar de casa para zonas menos centrais/para zonas mais afastadas dos centros urbanos, ou tratou-se de uma tendência mais passageira verificada em tempos de confinamento? Porquê?

As nossas transações de 2020 e do primeiro quadrimestre de 2021 revelam que não houve alterações significativas no perfil dos compradores ou inquilinos, nem nos imóveis selecionados. Ou seja, regista-se um ‘gap’ entre o aspiracional – a casa que realmente gostariam de ter – e a casa que efetivamente compram. Contudo, verificamos que, sobretudo na AML, há concelhos que estão a captar população, os concelhos com preços mais baixos, melhores infraestruturas de mobilidade e de transportes públicos – metro, comboio, barco, entre outros – estão com uma maior dinâmica de transações e de subidas de preços, o que reflete o movimento de deslocalização da população para fora de Lisboa e de outros concelhos, com preços mais altos.

Os bancos continuam a abrir a torneira do crédito à habitação, o que é bom para o negócio da mediação imobiliária. Seria de esperar que tivesse havido um abrandamento na concessão de crédito à habitação em tempos de pandemia? Porquê?

O acesso ao crédito à habitação segue, hoje, regras de taxas de esforço e LTV muito conservadoras e saudáveis. Neste contexto, o acesso ao crédito à habitação é um fator positivo para que as famílias possam aceder a soluções de habitação dignas e ajustadas às suas necessidades. 

"A mediação imobiliária foi determinante para que muitas famílias acedessem a uma habitação, neste período. Mais de 60% das transações imobiliárias são uma consequência de alterações da estrutura familiar como o casamento, divórcio, heranças ou a emancipação dos filhos"

Que ilações (positivas e negativas) há a retirar da pandemia para o setor da mediação imobiliária?

A mediação imobiliária foi determinante para que muitas famílias acedessem a uma habitação, neste período. Mais de 60% das transações imobiliárias são uma consequência de alterações da estrutura familiar como o casamento, divórcio, heranças ou a emancipação dos filhos. Por este motivo, muitos tiveram a necessidade urgente de troca de habitação, ou acesso à primeira casa, durante os confinamentos. 

A mediação imobiliária revelou uma capacidade de adaptação extraordinária às medidas de higiene e segurança implementadas, em termos de saúde pública, bem como na adoção de novos modelos de trabalho, numa lógica muito mais digital, mantendo sempre o seu lado humano para apoiar os clientes em todo o processo da transação imobiliária.

O risco de haver uma bolha imobiliária em Portugal está afastado a curto/médio prazo? Essa é uma situação que o preocupa? Porquê?

Há de facto um grande otimismo no mercado imobiliário residencial, contudo estamos a viver um momento sem precedentes, estamos em plena pandemia e é muito difícil compreender o real alcance e consequências na sociedade e na economia. Mas um cenário de bolha imobiliária, numa perspetiva macro no território nacional, pode ser afastado, porque não há um excesso de endividamento dos portugueses no crédito à habitação. Os critérios para a atribuição de financiamento bancário à habitação são muito mais restritos que no passado, não existe excesso de oferta no mercado (pelo contrário) e regista-se uma clara necessidade de soluções habitacionais.