O conceito de casa está a transformar-se. A importância de cada espaço da casa – do interior ao exterior – saiu reforçado da pandemia. O conforto, a segurança e a eficiência energética passaram para o topo das prioridades, impulsionando a procura por soluções de domótica nos últimos dois anos. Mas, ainda assim, há apenas cerca de 1% de casas inteligentes em Portugal. São vários os desafios que o setor da domótica enfrenta no país. E o idealista/news foi descobrir quais são junto de profissionais do setor.
No que diz respeito à automatização do lar, “quase nada está feito” em Portugal, segundo Alfredo Valente, CEO e diretor geral da iad Portugal. E Luís Pinto avança que hoje só há 1-2% de casas inteligentes em Portugal. “E se formos a filtrar as casas minimamente automáticas estaremos a falar de menos de 1%”, refere o proprietário da IOLine, a fabricante da tecnologia de domótica Mordomus, que está há cerca de 20 anos no mercado.
Hoje, há “a necessidade de as pessoas tornarem as casas mais eficientes e mais confortáveis, isto é, aliar o máximo de conforto ao mínimo de consumo e gasto. E toda o espetro de possibilidades que o 5G nos traz acho que vai pôr o assunto da automatização, da robotização e da domótica em cima da mesa nos próximos tempos”, explica Alfredo Valente.
O interesse das famílias pelas soluções da domótica tem estado a aumentar nos últimos anos. Até porque hoje as soluções de domótica mais simples podem começar abaixo dos 2.000 euros e trazem várias vantagens a começar pelas poupanças dos consumos energéticos, tal como explicam os especialistas do mercado neste artigo. Mas é preciso fazer mais. O segmento da domótica enfrenta hoje vários desafios, que o estão a impedir de crescer de forma galopante.
“A integração da tecnologia nos equipamentos que usamos no dia a dia está a crescer de acordo com os interesses, mas na casa também tem de ser assim. E está a crescer muito lentamente neste aspeto”. Luís Pinto, da Mordomus
Os desafios atuais do setor da domótica em Portugal
Domótica não se soube posicionar quando chegou ao mercado
Há um fantasma do passado que ainda assombra os negócios do presente. E resume-se no seguinte, segundo Luís Pinto: “A domótica chegou ao mercado e não se soube posicionar”. “Os primeiros produtos que chegaram a Portugal, à Europa e ao mundo, chamados de domótica, eram produtos que tinham tudo errado e tinham tudo para dar errado”, explica o proprietário da Mordomus:
Eram caros demais: na ordem dos 20, 30 ou 40 mil euros;
Filosofia errada do produto: dependência do fornecedor do produto;
- Custo-benefício da domótica não era percecionado.
E agora o desafio passa precisamente por saber reposicionar-se, uma estratégia que passa, desde logo, por colocar no mercado soluções de domótica a preços competitivos e que as famílias possam pagar. Hoje em dia, “a domótica não pode ser nem é cara”, adverte Luís Pinto, revelando que uma solução de domótica deverá estar entre 1-2% do preço da casa, ou seja, numa casa de 100 mil euros deverá custar cerca de entre 1.000 e 2.000 euros.
“Uma solução mais básica de domótica pode começar nos 1.800 euros e não tem limite máximo”, explica Hatto Fehst, CEO da Enancer Electrónica, empresa sediada em Braga que criou a tecnologia de domótica Only-Smart Buildings em 2008.
Além disso, o posicionamento passa também pela oferta de soluções automatizadas que está hoje muito mais abrangente e não é apenas dedicada à iluminação. “Com domótica tenho de chegar a casa e mandar em tudo: tenho de ser dono da televisão, da rega, de absolutamente tudo o que está na casa”, reforça o proprietário da Mordomus, com sede em Gouveia.
Baixa procura de domótica por promotores imobiliários
A forma como a domótica se posicionou no mercado inicialmente ainda se faz sentir entre vários players do imobiliário. E, atualmente, são ainda poucos os promotores imobiliários que procuram incorporar estas soluções nas casas que promovem, mas já há exemplos como nestas casas inteligentes no norte do país.
“Procura existe, mas não é assim tão alta quanto isso. Nós temos muito mais procura por parte do cliente final do que por parte das imobiliárias”, avança Filigério Pantaleão, Sales Department & Field Applications Engineer na Enancer Electrónica. Também Luís Pinto, da Mordomus, revela que “são pouquíssimos” os promotores que procuram estas soluções.
Ambos consideram que o facto destas soluções somarem uma camada ao preço final da casa é um dos principais entraves ao investimento. “O promotor imobiliário tenta ter um preço da casa o mais competitivo possível, portanto se entrarmos com tecnologia o preço não vai descer, vai subir. Na verdade, estamos a pôr uma mais-valia num apartamento, mas também depende do segmento, sendo que o segmento médio-alto está mais aberto a estas soluções”, explica Filigério Pantaleão. Mas a questão é que as promotoras imobiliárias ainda não veem as casas inteligentes como uma mais-valia, crescenta o representante da Only.
E há ainda outro fator apontado por Luís Pinto: os promotores imobiliários ainda consideram que ter domótica em casa é “só mais um problema”. Isto porque “não querem um serviço pós-venda”, o que na visão do responsável pela Mordomus “está errado". "É um problema conjuntural e tem mesmo de ser tratado este problema”, sublinha ainda.
Falta de construção nova: parque imobiliário envelhecido
Por outro lado, a domótica também não está a chegar às famílias porque “há uma escassez tremenda de construção nova”, o que para Alfredo Valente pode atrasar ainda mais a penetração de novidades tecnológicas no mercado.
Isto porque na “reabitação de imobiliário antigo é muito difícil levar a experiência da robotização e domótica até ao limite”, explica ainda o diretor geral da iad em entrevista ao idealista/news. Mas é possível. Numa habitação existente, a introdução de domótica passa por colocar a cabelagem de comunicação nas tubagens já existentes, ou colocar soluções sem fios.
Além disso, num contexto em que os preços das casas estão em alta e têm evoluído muito mais que os rendimentos das famílias, o próprio preço também poderá ser um travão para as famílias introduzirem estas soluções nas suas casas novas. “Tenho também algum medo de que as pressões sobre os preços levem as pessoas a ter de deixar alguma coisa de lado e aí o que poderá ficar de parte seja mesmo a inovação e a tecnologia”, conclui Alfredo Valente.
Curta evolução do negócio da casa
“A casa não é uma área de negócio avançada” do ponto de vista tecnológico, como é o setor dos automóveis que se destaca pela tecnologia de ponta, começa por explicar Luís Pinto. Porquê? “Os vendedores das casas não evoluíram. Acho que os arquitetos não percebem nada de casas. Acho que os construtores quase nada percebem de casas. Acho que toda a indústria da casa não tem noção nenhuma do que é um negócio bem gerido, como acontece nos automóveis. Não há absolutamente nenhum cuidado com este aspeto [tecnologia] no que tem que ver com as casas”, refere o responsável pela Mordomus.
Isto acontece, no seu entender, porque não há um verdadeiro trabalho de equipa na construção da casa, tal como há, por exemplo, no segmento dos automóveis. No desenvolvimento de uma habitação “temos um indivíduo absolutamente isolado preocupado com a eletrotecnia que é o eletricista; temos um indivíduo preocupado única e exclusivamente com o aspeto das coisas que é o arquiteto; temos outro preocupado com o facto da casa vir a cair ou não que é o construtor civil (nem que não cumpra à risca as instruções do arquiteto); temos um indivíduo que vai fazer furos para colocar um tubo que é o canalizador (que não quer saber dos fios do eletricista); ou seja, enquanto no ramo automóvel há uma equipa coesa, na construção da casa há várias equipas isoladas que quase se parecem inimigos uns dos outros – e muitas vezes são”, explica.
Para resolver a questão, o ideal seria haver uma figura responsável por fazer a ponte entre as diferentes especialidades na construção de uma casa ou reabilitação. “E há que é o gestor de obra e muitas vezes essa pessoa é encabeçada pelo arquiteto ou é engenheiro civil, logo tem uma visão insuficiente da casa. A questão é que o arquiteto já está envenenado por uma doença chamada arquitetura, que é muito necessária, mas não é completa na casa”, refere ainda Luís Pinto, destacando que muitas vezes que a ergonomia da casa não é tida em conta e que é importante para ter uma casa funcional e adaptada às necessidades das famílias.
Vantagens da domótica não chegam às famílias
As famílias não sentem falta do que não conhecem. “As pessoas não estão a pensar em fazer atualizações da técnica e do controlo da casa porque estão habituadas a lidar com a casa assim”, explica Hatto Fehst, da Only, que sublinha que “a tecnologia dos interruptores já tem mais de 100 anos e isso é inaceitável”.
No lado da mediação imobiliária, Alfredo Valente assume que se sente “sobretudo que as pessoas procuram mais conforto, mas não sentimos que as pessoas estejam ainda suficientemente informadas sobre o potencial da domótica”, diz em entrevista. “Somos um país pobre, onde as pessoas estão ainda a procura de soluções um bocadinho mais básicas com conforto. Mas é muito importante que haja a democratização de soluções, sobretudo, que as pessoas possam pagar, essa é a principal preocupação. E é o meu receio, é de facto que as pessoas nos próximos tempos possam não conseguir pagar, aquilo que nos lhes precisamos de lhes dar em casa”, explica ainda o responsável pela iad.
Falta o Governo dar o exemplo
O futuro passa, portanto, pela consciencialização da domótica. E isto deverá acontecer tanto no seio familiar como também na formação dos próprios especialistas que estão envolvidos na construção da casa, acredita Luís Pinto. E, além disso, passa também pelo exemplo do próprio Governo.
“Enquanto isto não for mais massificado, enquanto não tivermos casas automatizadas feitas pelo próprio Estado - o que as torna “automaticamente” mais eficientes -, as casas medianas onde quase todos nós vivemos não serão. Temos que começar a olhar sempre por baixo”, explica o responsável pela Mordomus.
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