Há quem o conheça apenas pelos números, cofundador da Quantico, Chairman da Quest Capital, antigo presidente executivo da Portugal Telecom, da VIVO no Brasil e da Dun & Bradstreet nos Estados Unidos, Carlos Vasconcellos passou mais de três décadas a estruturar fundos e a erguer projetos de larga escala em mais de vinte países. O Antas Atrium, no Porto, com perto de 240 milhões de euros investidos e mais de mil apartamentos na zona do antigo estádio, é uma das obras visíveis dessa carreira.
Mas Carlos Vasconcellos guarda outras obras. O gestor pinta há mais de trinta anos. Ou o artista é gestor há mais de trinta anos? O cenário para esta conversa foi a open house da última penthouse disponível na Infinity Tower, em Lisboa, promovida pela Corcoran Atlantic. Durante umas horas a arte de Carlos Vasconcellos enriqueceu o espaço. Mas é preciso "pensar em grande", por isso, a partir de 17 de setembro, a pintura ganha palco maior: uma exposição individual na sede do Automóvel Clube de Portugal, depois uma galeria em Londres e, em 2027, Dubai.
Numa conversa descontraída com o idealista/news falou sobre o que separa uma reunião de investidores de uma tela em branco, da estética e do belo tanto no imobiliário como na arte, e daquilo que a pintura lhe dá e os números nunca deram.
Pinta há mais de trinta anos, mas foi sobretudo nos últimos tempos que começou a assumir esta vertente de forma. O que mudou?
Eu pinto há mais de trinta anos, mas nos últimos cinco comecei a encontrar um pouco mais de tempo e de interesse para me dedicar a isto de uma forma profissional, com uma curadoria, e enfim, começar a dar a conhecer esta minha vertente de pintor.
E como é que isto passa desse lugar mais reservado para o público? Foi só uma questão de tempo ou também de se mostrar ao mundo?
Diria que as duas coisas. Há muitos pintores que, no início, quando começam a expor, têm sempre um medo da aceitação, o que é que as pessoas vão achar, vão pensar. Não é o meu caso de todo. Faço isto com imenso gosto, é um anti-stress enorme. Sou muito criativo, gosto imenso de criar, de pensar, de ver coisas novas e de fazer experiências novas. Foi o que fiz muitas vezes ao longo da minha vida na gestão, mas aqui também é uma experiência extraordinária: perante uma tela em branco, vou fazer algo, e o que é que vai sair daqui? Criar, descobrir, eu próprio descobrir algumas coisas que estão cá no fundo. Foi uma forma divertida de dar a conhecer uma coisa que para mim é importante, que é toda a parte de arte e de criatividade. Gosto muito da parte estética das coisas. No imobiliário também há uma parte estética de que procuro ocupar-me bastante. Enfim, é um complemento, mas de que gosto muito.
A propósito dessa novidade permanente: dirigiu empresas em mais de vinte países. O que é diferente quando se tomam decisões numa grande operadora de telecomunicações e na promoção imobiliária? E o que é parecido?
Diferentes são os setores em si; os negócios e os seus fundamentais são muito diferentes. Mas, para mim, há muito mais coisas parecidas do que diferenças. Desde que se procure, que foi o que sempre procurei como gestor profissional, o rigor, a criação de equipas e a lógica de otimização, que no fundo é o que está subjacente à gestão: tirar o máximo partido dos ativos a todos os níveis, físicos e humanos. Depois não é muito diferente gerir uma empresa A, B, C ou D, indistintamente, em setores que eu não dominava, e não domino muitos deles. É encontrar alguém, os chamados especialistas, de quem sempre me rodeei. Sempre tive braços-direitos muito ligados a cada setor, neste caso à tecnologia, nas telecomunicações, e ao real estate, na parte imobiliária. Mas os objetivos de gestão - procurar sempre o máximo de rentabilização dos ativos que temos à disposição, humanos e físicos, têm a mesma lógica.
E essa lógica também se aplica a uma área como a agricultura sustentável?
Também. É uma área distinta, mas tem a ver com os critérios de sustentabilidade que hoje estão muito ligados a todos os negócios. É impossível pensar qualquer negócio sem introduzir uma lógica de longo, longo prazo, em que a palavra-chave é sustentabilidade. Isso estende-se a tudo.
Já falámos desta passagem dos números para a criatividade. O que é que acha que a criatividade lhe permite? Uma reunião de investimento com os seus investidores é um mundo; a arte é outro?
Nas relações com os investidores temos de puxar pela parte séria, que é aquilo que nos une. Estamos a falar de milhares, não de opiniões mas de factos; não de interpretações mas de coisas objetivas. A arte, além do belo que procuro ver e criar em cada peça, tem o fator subjetivo. Há uma peça que, para mim, acho extraordinária e que me toca muito, e para outra pessoa é provavelmente uma coisa banal e vice-versa. A arte permite descobrir em cada peça uma história, despertar um sentimento; foge da razão, que é exatamente o que sempre procurei que não acontecesse na gestão. A gestão tem de ser liderada pela razão e pelos critérios de rentabilidade, enquanto a arte permite imensa liberdade.
A arte, além do belo que procuro ver e criar em cada peça, tem o fator subjetivo.
Aqui parece preferir a tela grande, a grande escala. Tem a ver com o espaço?
Numa casa vazia, como é o caso, as telas grandes são apropriadas. Mas devo dizer que a ideia de que a arte se mede aos palmos não faz muito sentido. Gosto de telas grandes e tenho pintado telas grandes, mas também tenho quadros de menor dimensão que têm imensa profundidade e significado. Cada obra deve adequar-se ao espaço onde é exposta; não é pela dimensão que atribuo maior ou menor valor aos quadros.
E num espaço, ou seja, num ativo imobiliário, é a mesma coisa, não é? Pode ser muito grande e ter pouco valor; é o que está lá dentro, o que se vive lá dentro, que faz o resto.
Sim. Estamos aqui perante um imóvel muito especial, o último andar desta fantástica torre, o Infinity. Diria que é um andar único em Lisboa, com uma vista absolutamente deslumbrante, verdadeiramente um exemplo do que de luxo se faz em Portugal. Não há muitos, mas dentro do segmento de luxo é um magnífico exemplar. A Corcoran, que tem este imóvel na sua carteira, vai fazer hoje um open day para mostrar aos clientes e potenciais clientes. E achámos interessante, em vez de salas vazias, dar alguma vida através dos meus quadros. É esta colaboração, com muito gosto, que estamos a fazer com a Corcoran Atlantic.
Para o futuro, há mais objetivos, tanto na tela como nos números?
Os números continuam. Mantenho-me muito ligado à atividade imobiliária, tanto como investidor como na Quest, e aí a minha vida profissional continua muito ativa. Mas a parte da arte também está muito ativa. A 17 de setembro vou inaugurar uma exposição individual na sede do Automóvel Clube de Portugal, em Lisboa. Ainda em setembro vou ter obras numa galeria em Londres. E estou a pensar noutras coisas, tenho trabalhado muito na internacionalização, que é um bocadinho a minha escola. Não há que ter medo: Portugal é pequeno, e porque não pensar em grande? Estamos a preparar também uma exposição no Dubai. Portanto, vamos continuar a ter notícias, não só no imobiliário, onde há muita coisa a desenvolver, mas também na pintura.
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