É preciso aumentar a oferta de casas em Portugal para dar resposta à forte procura existente. Esta é a mensagem que tem sido passada pelo Governo e pelos players do setor imobiliário e da construção. E são várias as medidas que estão em cima da mesa que vão ao encontro dessa necessidade, como por exemplo a descida do IVA na construção para 6%. A verdade, no entanto, é que os preços da habitação continuam elevados e não há casas suficientes no mercado. A generalidade das imobiliárias, perante este cenário, respira confiança. Batem-se recordes de faturação e mais casas houvesse, mais se vendiam ou arrendavam.
Os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE), relativos ao primeiro trimestre do ano, indicam que apesar do número de casas vendidas ter recuado, os preços continuaram a aumentar a elevado ritmo, atingindo novos recordes. O que significa que estão a comprar-se menos casas, mas por valores cada vez mais altos, agravando o acesso à habitação. Eis os números oficiais:
- Depois de ter subido 19,8% no último ano, o preço mediano das casas vendidas foi de 2.337 euros por metro quadrado (euros/m2) no início de 2026. É o maior valor de sempre;
- Foram vendidas 35.953 casas entre janeiro e março, menos 10,5% face ao mesmo período do ano passado, sendo o segundo trimestre seguido em que se sente o número de casas vendidas a cair no país.
As contas semestrais confirmam que o negócio da mediação imobiliária continua de boa saúde em 2026, apesar de se estarem a transacionar menos imóveis e de haver desafios. Para ajudar a entender estes resultados, resumimos algumas das principais ideias – e números consolidados – que o idealista/news recebeu na caixa de correio eletrónico, via comunicado, das mediadoras imobiliárias Remax Portugal, Century 21 Portugal, ERA Portugal, Keller Williams (KW) Portugal e Grupo DS.
Faturação das mediadoras imobiliárias dispara em 2026
A Remax revela que encerrou o primeiro semestre do ano com um volume de preços transacionado na ordem dos 4,2 mil milhões de euros, o que representa um crescimento de 3,8% face ao período homólogo do ano anterior. E mais, adianta que junho foram batidos vários recordes: foi o melhor mês de junho de sempre da marca, o melhor segundo trimestre de sempre e o melhor primeiro semestre de sempre.
Já a ERA Portugal, referindo que vive um período que confirma a solidez da rede, indica que a sua faturação total ascendeu a 63,2 milhões de euros, traduzindo-se num crescimento de 6% face ao período homólogo. A rede informa, de resto, que o volume de negócios intermediado ultrapassou os 1,24 mil milhões de euros, um acréscimo de 5,8% face ao período homólogo. Relativamente ao preço médio de venda das casas transacionadas nos primeiros seis meses do ano, registou uma valorização de 4,2%, fixando-se acima dos 234.000 euros pela primeira vez na história da marca.
A Centrury 21 (C21) Portugal considera que o mercado residencial português entrou este ano numa fase de maior seletividade, marcada por um abrandamento da atividade, mas não por uma diminuição do interesse em comprar casa. Nos primeiros seis meses do ano, a mediadora imobiliária acompanhou cerca de 12 mil famílias na compra, venda e arrendamento de habitação, um resultado 5% inferior ao registado no período homólogo, “acompanhando a evolução do mercado nacional e refletindo a desaceleração da atividade”. Ainda assim, a rede registou um crescimento de 3% face ao primeiro semestre de 2025 do seu volume de negócio mediado.
No caso da Keller Williams (KW) Portugal, a faturação no primeiro semestre foi de 43 milhões de euros, o que representa um crescimento de 13,3% face aos primeiros seis meses do ano passado. Trata-se do melhor primeiro semestre de sempre em faturação, adianta a mediadora, sublinhando que o resultado acontece num contexto marcado pela desaceleração do mercado imobiliário residencial: a KW Portugal registou uma redução de cerca de 9% no número de transações, tendo realizado cerca de 7.300 operações, um ligeiro aumento face ao período homólogo.
Também o Grupo DS, que opera na área da intermediação de crédito, mediação de seguros e consultoria imobiliária, registou o melhor primeiro semestre da história, alcançando um volume de negócios de 1.710 milhões de euros e uma faturação conjunta das marcas e respetiva rede de lojas de 60 milhões de euros, o que representa um crescimento na faturação de 13%, face ao período homólogo. No caso concreto da atividade de mediação imobiliária, alcançou um crescimento de 12% na faturação, com imóveis transacionados num valor próximo dos 300 milhões de euros.
Portugueses Vs Estrangeiros: quem compra mais casas?
Quem será, afinal, que compra mais casas no país, portugueses ou estrangeiros? Os dados divulgados pela Remax concluem que os compradores e arrendatários nacionais continuaram a liderar a procura, sendo responsáveis por 77,9% das transações realizadas pela mediadora na primeira metade do ano.
Destaque para o facto rede ter realizado transações com clientes de 103 nacionalidades diferentes, mais oito que em 2025. Os brasileiros lideram o top cinco do ranking (7,6% do volume total), sendo seguidos por angolanos (1,8%), norte-americanos (1,4%), franceses e ucranianos (0,8% cada).
Um cenário que também se verifica no caso da ERA Portugal, com os portugueses a representar 85% dos registos de compra de casa analisados no primeiro semestre de 2026, um aumento de 5% face ao período homólogo. Entre os 15% de estrangeiros, clientes do Brasil (2% do total de clientes), Reino Unido, Angola, França e EUA ocupam os cinco primeiros lugares, por esta ordem.
Mais lojas e agentes na mediação imobiliária
Os dados divulgados pela Remax, que registou transações em 298 dos 308 concelhos do país, concluem que os apartamentos e as moradias mantiveram-se como os tipos de imóvel mais transacionados, representando 55,4% e 25,4% do total de negócios, respetivamente, ficando o pódio completo com os terrenos (8,4% nas transações realizadas).
Sobre a atratividade do segmento da mediação imobiliária, a rede revela que recrutou, nos primeiros seis meses do ano, perto de 2.300 novos consultores, um crescimento de 8,3% face ao período homólogo, tendo inaugurado sete novas agências em território nacional.
O Grupo DS revela também que a estratégia de expansão da rede manteve um ritmo acelerado durante no primeiro semestre, com a inauguração de 19 novas lojas em todo o país, a integração de 1.210 colaboradores nas diferentes marcas e a assinatura de 51 contratos para a abertura de novas lojas.
E agora, que esperar do resto do ano?
Manuel Alvarez, presidente da Remax Portugal, considera que os resultados obtidos no primeiro semestre de 2026 refletem a solidez e confiança que clientes, parceiros e consultores depositam diariamente na rede. “Continuamos a afirmar-nos pela capacidade de atrair os melhores profissionais, criar oportunidades de negócio e responder aos desafios de um mercado cada vez mais exigente. Estes recordes reforçam a nossa liderança e confirmam uma trajetória de crescimento sustentado, assente na inovação, na excelência e no compromisso de elevar continuamente os padrões da mediação imobiliária em Portugal”, comenta.
Do lado da ERA Portugal, o CEO frisa que os números, em conjunto, “traduzem uma mudança qualitativa no mercado”. Mas “não é o número de transações que se destaca, mas antes o valor médio de cada negócio, cada vez mais elevado, num sinal inequívoco de valorização do património imobiliário nacional”, explica Rui Torgal.
E remata: “Todos os indicadores demonstram que a estratégia de crescimento continua a ser executada com um nível de excelência, reforçando a nossa proposta de valor no mercado imobiliário nacional, tanto junto de clientes portugueses como internacionais. O volume de negócios e, sobretudo, o crescimento das angariações são indicadores que traduzem a confiança dos clientes na marca e nos seus profissionais”.
Mais cauteloso, Ricardo Sousa, CEO da C21 Portugal, afirma que “o mercado continua ativo, mas tornou-se claramente mais seletivo”. “Existe interesse por parte das famílias em comprar casa, mas esse interesse nem sempre consegue transformar-se em transações. O verdadeiro desafio já não é apenas a existência de procura; é a capacidade de transformar essa procura em acesso real à habitação”, avisa.
Na mesma nota, sustenta que o mercado não está a perder interesse por parte dos compradores, estando, sim, a converter menos procura em transações. E deixa um alerta: “Não basta construir mais. Precisamos de construir nos locais onde as pessoas vivem e trabalham, onde há transportes públicos e para os segmentos da população que realmente necessita. Habitação, mobilidade, emprego, saúde e educação têm de ser pensados de forma integrada”.
Em jeito de antecipação do que esperar do resto do ano, Ricardo Sousa estima que “o mercado deverá manter-se resiliente, mas mais seletivo”. “Poderá assistir-se a uma moderação da atividade, mas dificilmente haverá um alívio estrutural dos preços enquanto não existir um aumento significativo da oferta adequada às necessidades das famílias. O grande desafio continuará a ser transformar a procura existente em acesso efetivo à habitação, sobretudo para quem ainda procura comprar a sua primeira casa”, remata.
Do lado da KW Portugal, o co-fundador Nuno Ascensão fala numa mudança de ciclo no mercado imobiliário: “O número de transações está a diminuir, mas a procura continua estruturalmente elevada e a oferta permanece insuficiente. (…) Os resultados demonstram que investir na formação, na tecnologia e no acompanhamento dos consultores permite continuar a ganhar quota de mercado mesmo quando a atividade trava. O nosso foco continuará a ser crescer com qualidade e preparar a rede para responder a um mercado cada vez mais exigente".
De acordo com o mesmo responsável, o mercado “continua a adaptar-se aos choques de procura – entre os quais a atratividade de Portugal no contexto europeu, o aumento da população e a menor dimensão das famílias –, enquanto a oferta de nova habitação se mantém anémica e os salários em Portugal não estão adaptados à nova realidade do mercado".
Por fim, Paulo Abrantes, Diretor-Geral do Grupo DS, enaltece também os resultados alcançados pelo grupo no primeiro semestre do ano, mostrando-se focado “em consolidar o crescimento das diferentes áreas de negócio, reforçando a proximidade com os clientes e criando cada vez mais oportunidades” para os “empreendedores e colaboradores” da empresa.
E conclui: “Continuamos a investir no crescimento sustentado do Grupo a nível nacional, assente na diversificação das áreas de negócio, na expansão da rede e na inovação dos serviços que prestamos. Temos a ambição de ultrapassar as 800 lojas em funcionamento e passar dos atuais 6.000 para 12.000 colaboradores até 2028 e alcançar uma faturação anual superior a 250 milhões de euros, distribuída pelas várias marcas do Grupo DS e pela respetiva rede de lojas”.
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