A inflação está a subir a todo o vapor e a atingir máximos mês após mês. E não é só nos produtos energéticos e no supermercado que se está a fazer sentir, atingindo bens e serviços, que têm preços historicamente mais estáveis, como “alguns serviços de educação e saúde, as rendas e os restaurantes e cafés”. E, por isso, Mário Centeno, presidente do regulador português, deixa um alerta às famílias: “Temos de refletir a inflação nas nossas decisões de consumo", disse esta quinta-feira, dia 5 de maio de 2022, na apresentação do Boletim Económico de maio.
Como está a evoluir a inflação em Portugal? E lá fora?
Não há boas notícias quando o tema é a inflação em Portugal e no mundo. Na Zona Euro, a inflação aumentou para 7,5% em abril, de acordo com a estimativa rápida do Eurostat, ou seja, está 0,1 pontos percentuais (p.p) acima dos 7,4% registados em março. E há países onde a inflação está bem acima dos 10%, como é o caso da Estónia (19%).
Em Portugal, a inflação continua abaixo da média da Zona Euro, mas o país já não está na cauda da europa. Tendo em conta Índice Harmonizado de Preços no Consumidor (IHPC) que é utilizado pelo Banco Central Europeu (BCE) para comparar a inflação entre os diferentes países no velho continente, a inflação em Portugal subiu para 7,4% em abril, mais 1,9 p.p. do que em março (5,5%).
Lá fora a subida generalizada dos preços também se faz sentir, sobretudo depois de eclodir a guerra na Ucrânia. No conjunto de países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), a inflação subiu para 8,8% em março, mais 1 p.p. do que no mês anterior e o nível mais alto desde outubro de 1988. E este aumento é explicado pela subida dos preços da energia, que avançaram 33,7% nesse mês. Nos EUA, a inflação deu o salto para 8,5% (+0,6 pontos) e no Reino Unido para 6,2% (+0,7 pontos).
Um dos casos mais preocupantes observado nos países da OCDE é mesmo o da Turquia. De acordo com os dados publicados esta quinta-feira pelas autoridades estatísticas turcas, em abril a taxa de inflação homóloga neste país deverá ter subido bem mais do que o previsto, situando-se nos 69,97% e atingindo, assim, um novo máximo das últimas décadas, tal como noticia o Público.
Como é que a inflação se está a fazer sentir na economia?
A subida dos preços começou a sentir-se logo no arranque do ano. Mas começou a disparar a partir de dia 24 de fevereiro, o dia que marca o início do conflito armado entre a Rússia e a Ucrânia. Os produtos energéticos foram, desde logo, os mais afetados, até porque a Rússia é um dos maiores países exportadores de petróleo e de gás do mundo. E os preços dos alimentos foram também disparando, dado que a Ucrânia, que é hoje o palco da guerra, é vulgarmente conhecida como o celeiro da Europa.
Os dados estão à vista e provam isso mesmo. O Instituto Nacional de Estatística (INE), estima que, em abril, o índice relativo aos produtos energéticos aumentou 26,7% face ao período homólogo, sendo este o valor mais alto desde maio 1985. E o índice referente aos produtos alimentares não transformados terá apresentado uma variação de 9,5% em Portugal.
Mas de acordo com o Boletim Económico de maio publicado esta quinta-feira pelo BdP, não é só nos produtos energéticos e na alimentação que se faz sentir a inflação. Isto porque tudo indica que o aumento dos preços está transmitir-se também aos preços das componentes menos voláteis e mais estáveis.
“Uma análise complementar – que decompõe a inflação total observada nas variações de preços dos itens elementares classificados por grau de volatilidade histórica dos respetivos preços – aponta para que as pressões ascendentes estejam a transmitir-se aos preços das componentes tipicamente mais estáveis”, lê-se no documento. E neste grupo de componentes menos voláteis que sentiram um aumento de preços no final de 2021 e início de 2022 incluem-se, por exemplo, alguns serviços de:
- Educação;
- Saúde;
- Rendas;
- Restaurantes e cafés.
Nestes componentes – que correspondem ao 1º e 2º quartis menos voláteis –, “a variação homóloga dos preços no período 2016-2020 manteve-se próxima da média de 1,5% para o primeiro quartil de volatilidade e em 1,1% para o segundo quartil, mas aumentou para 2,9% e 5,2%, respetivamente, em março de 2022”, lê-se no documento. E no gráfico é visível como todas componentes da inflação estão a assumir um sentido ascendente em 2022.
Desta feita, o supervisor sublinha ainda que a reabertura gradual dos setores relacionados com o turismo na segunda metade do ano terá contribuindo para o aumento dos preços dos serviços.
Como podem as famílias e a economia enfrentar a inflação?
O governador do BdP Mário Centeno considera que a inflação é "um fenómeno muito complexo e difícil de avaliar", cita a imprensa. E tornou-se num “desafio para todos os bancos centrais”, como é o caso do BCE que planeia aumentar a taxa de juro diretora já este ano para pôr um travão na subida generalizada de preços. Tudo isto já está a ter efeitos nas taxas Euribor, pelo que é hora de acautelar o pagamento de prestações da casa mais altas.
No caso da recuperação económica, o regulador europeu acredita que o turismo vai continuar a ser o motor da retoma, impulsionado pelo aumento da procura de serviços. E no caso das famílias, as suas poupanças podem ajudar a atravessar esta crise, aliando-as a uma maior consciencialização dos gastos. “Temos de a refletir nas nossas decisões de consumo e produção”, alertou Mário Centeno na ocasião.
Num momento em que o poder de compra está comprometido, as poupanças são vistas como um balão de oxigénio. E tudo indica que os portugueses foram engordando as suas poupanças e depósitos durante a pandemia. Embora a taxa de poupança das famílias tenha diminuído de 12,7% em 2020 para 10,9% em 2021, manteve-se acima da calculada antes da pandemia (7,2%), revela o relatório. E isso reflete-se no dinheiro que os portugueses têm nos cofres dos bancos: “Os depósitos dos particulares mantiveram um crescimento forte de 6,6%”, lê-se ainda no documento.
Mais dinheiro disponível também convida a gastar e a investir, por exemplo, na compra de uma casa. “As famílias tiveram um aumento do rendimento disponível”, o que “sustentou a recuperação do consumo, mais marcada nos bens de consumo corrente não alimentar e nos bens duradouros”, como é o caso do imobiliário. “ No caso das famílias, os novos empréstimos à habitação registaram um crescimento elevado [de 32,8% em 2021], refletindo o aumento do número de devedores num contexto de menor incerteza decorrente da pandemia”, refere o boletim económico.
Note-se que em 2021, as taxas Euribor continuavam em terreno negativo, convidando as famílias a contratar um crédito habitação. Mas, hoje, com a incerteza que se faz sentir, o cenário está a mudar a olhos vistos com todas as taxas a crescer a ritmo elevado, sendo que a Euribor a 12 meses já está mesmo positiva. E as prestações da casa, assim que forem atualizadas, vão refletir esse aumento.








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