Como limpar as peças de decoração delicadas lá de casa? Ou escovar um bom casaco ou sapatos de qualidade? Pode parecer simples e que qualquer coisa vale, mas não... E a Escovaria Belomonte é a prova disso mesmo, dedicando-se à produção de escovas de luxo, unindo tradição, artesanato, design e alta qualidade. “Costumo dizer que as nossas escovas não têm preço, têm valor. O mercado de luxo necessita das nossas escovas”, diz em entrevista ao idealista/news Rui Rodrigues, que representa a terceira geração da Escovaria Belomonte, nascida no Porto há quase 100 anos.
Seja para limpar a casa, escovar a roupa e sapatos, ou para cuidados pessoais, as escovas produzidas na Escovaria Belomonte aliam a arte de saber-fazer à funcionalidade. “Uma escova de luxo é uma escova que é feita manualmente e com recurso a produtos naturais de qualidade superior”, resume Rui Rodrigues. E vai mais longe: “Quem tem um bom casaco ou um bom calçado, não vai usar escovas de nylon. Como fazemos escovas à mão, conseguimos produzir escovas de alta qualidade e com recurso a cerdas naturais, enquanto os produtores na indústria têm de obrigatoriamente usar nylon”, explica o artesão.
“Quem compra as nossas escovas são pessoas que realmente necessitam, que têm um estilo de vida um pouco mais sofisticado"
“Quem compra as nossas escovas são pessoas que realmente necessitam, que têm um estilo de vida um pouco mais sofisticado. Até porque não vendemos preço, mas sim qualidade e a qualidade paga-se”, detalha o empresário que pegou no negócio de família há quase 20 anos, sendo hoje o seu filho, Sérgio Rodrigues, que assume a direção criativa. São sobretudo os estrangeiros (alemães, ingleses e norte-americanos), bem como os turistas, quem mais compra estas escovas de luxo portuguesas, seja nas lojas físicas, seja nas lojas online, cujos preços variam desde os 3 euros até aos 360 euros.
Agora chegados ao mercado de luxo, a Escovaria Belomonte está a trabalhar para se posicionar e consolidar, “porque uma coisa é chegar ao mercado de luxo e outra é ficar. A nossa vontade é chegar ao topo das grandes marcas – de carteiras ou de calçado -, onde podemos realmente dar cartas, oferecendo escovas que vão ser boas para os produtos das marcas de luxo, acrescentando qualidade. Portanto, a estratégia é ficar lá com produtos cada vez melhores e diferenciados”, adianta Rui Rodrigues, a terceira geração da Escovaria Belomonte, em entrevista ao idealista/news.
A Escovaria Belomonte está quase a fazer 100 anos. Como foi o caminho até a chegar aqui?
Tudo começou em 1927, em Massarelos [concelho do Porto], com o senhor António da Silva, a primeira geração da escovaria. Depois, um dos filhos, Fernando Silva, continuou a atividade, mantendo-a até há 18 anos. Nessa altura, só se trabalhava para a indústria têxtil. Entretanto, ele ficou muito doente e estava para terminar com o negócio. E foi aí que senti que era uma oportunidade para mim para fazer algo que gostava, que era trabalhar a madeira. Então propus à família ficar com o negócio – sendo que o senhor António Silva era avô da minha mulher, Olinda Rodrigues – e falei com a Fatinha para continuar a trabalhar cá, que era quem tinha a arte do saber-fazer. Quando Fernando Silva faleceu, viemos para cá. No início foi muito complicado, porque só tínhamos um cliente, basicamente, e não tinha noção disso. Tivemos de começar tudo de novo. Entretanto, o Sérgio, o meu filho, começou a trabalhar por cá nas férias da escola e ficou à frente da escovaria, sendo a quarta geração.
"Como fazemos escovas à mão, conseguimos produzir escovas de alta qualidade e com recurso a cerdas naturais"
Qual foi a vossa principal estratégia para, com um negócio tradicional se destacarem no mercado atualmente, perante a alta competitividade e tecnologia?
Comecei a divulgar mais a escovaria, sobretudo na indústria, tendo também tentado trabalhar a vertente doméstica. Mas, depois, o Sérgio quando chegou, fez um trabalho extraordinário, o que me orgulha, trazendo ideias novas. Começou a trabalhar as redes sociais e também o design da Escovaria Belomonte. O que ele fez foi renovar e dar uma roupagem diferente às escovas que já existiam. E fê-lo de uma forma brilhante, sendo esse o impulso que ele veio dar.
Foi aí que posicionaram as vossas escovas no mercado de luxo?
Sim, foi gradual. Essa foi a meta do Sérgio. Costumo dizer que as nossas escovas não têm preço, têm valor. O mercado de luxo necessita das nossas escovas. Para chegar aí, o Sérgio teve de saber o que é que o mercado de luxo tem que necessite das nossas escovas. Quem tem um bom casaco ou um bom calçado não vai usar escovas de nylon. Como fazemos escovas à mão, conseguimos produzir escovas de alta qualidade e com recurso a cerdas naturais, enquanto os produtores na indústria têm de obrigatoriamente usar nylon, senão a escova acaba por traçar o pêlo em pouco tempo.
O que define uma escova de luxo?
Uma escova de luxo é uma escova que é feita manualmente e com recurso a produtos naturais de qualidade superior. Não utilizamos qualquer cerda, nem qualquer crina ou rabo de cavalo. Tem de ser tudo em consonância, utilizamos uma boa madeira ou uma boa conjugação de madeiras. As cerdas terão de ser as melhores. Portanto, o luxo é feito com o melhor possível dos produtos. Não conseguiria fazer uma escova de luxo a usar nylon ou plástico.
"Uma escova de luxo é uma escova que é feita manualmente e com recurso a produtos naturais de qualidade superior"
Fazem escovas personalizadas? Destaque alguma mais caricata.
Temos uma escova caricata, chamada “Coiso”. Um dia fomos desafiados por um designer espanhol a fazermos uma escova diferente de todas as outras que aparecem no mercado. É uma escova que não tem uma utilidade específica, podendo ser usada como bola de anti-stress ou para sacudir um casaco, para massagens, por exemplo. É uma escova caricata por não ter função nenhuma ou ter todas as funções que lhe quisermos dar. Também recebemos pedidos de escovas personalizadas, mas por norma pedem para colocar o nome ou alguma marca nos produtos que já existem.
Quais são os principais materiais que usam para produzir as vossas escovas? Têm origem portuguesa?
Ao nível das madeiras, temos várias, como pau-cetim, o panga-panga, o sicómoro, nogueira e muitas outras. Normalmente são madeiras brasileiras, moçambicanas e angolanas. Temos algumas madeiras nacionais que trabalhamos, por exemplo, a faia e o carvalho. A crina, a cerda, o pêlo de cabra até podem ser cortados no nosso país, mas depois são exportados para serem tratados noutro país. Acabamos por comprar o produto final no estrangeiro, à China.
Não utilizamos materiais que causem sofrimento animal: ou já seriam abatidos para consumo ou então corta-se o pêlo por uma questão de apresentação. Antigamente, fazia-se pincéis para a barba com crina de leão. Ora, não davam uma injeção ao leão para adormecer e ser possível retirar a crina, com certeza que era morto. Acho isso bárbaro, não fazia uma escova com esse material.
"Muitas vezes ser feito à mão dá a ideia de que ainda estamos no tempo das cavernas"
Como é que aliam o trabalho artesanal com a tecnologia dos tempos modernos? Explique-nos o processo de produção das escovas.
Muitas vezes ser feito à mão dá a ideia de que ainda estamos no tempo das cavernas. Fazemos o enchimento das escovas à mão, mas cortamos a madeira com máquinas de serrar, temos uma máquina de furar as escovas e usamos uma máquina para aplainar a madeira. Depois, o acabamento final será com goivas e formões, o que é feito à mão.
Portanto, compramos a madeira em bruto, uma prancha de madeira com X cêntimos de espessura, dependendo daquilo que vamos fazer com ela. Depois, temos uma serra de circular (ou uma serra de fita feita cá) para fatiar e colocá-la à espessura que queremos. A seguir, a madeira é aplainada numa máquina para ficar direita. A partir daí, é cortada a forma da escova e furada. Depois, é lixada à mão. Fazemos a nossa cera para dar às escovas. E por fim é feito o enchimento manual das escovas.
Quais são as vossas principais escovas destinadas à limpeza da casa, roupa etc? Fale-nos um pouco sobre estes produtos.
Para a limpeza da casa, temos o espanador de mão, os pincelinhos, a que chamamos de bruxinhas, também para limpar o pó aos objetos mais delicados. Temos também vassouras em PVC e vassouras em piaçava, um material natural do Brasil. Depois, temos escovas consoante o que os clientes queiram, por exemplo, mais macias com tampico ou fibra de coco para limpar as migalhas da mesa, um objeto à moda antiga. Ao nível de cuidado pessoal, temos as escovas de calçado, de cabelo e para a barba.
"Exportamos as nossas escovas para Inglaterra, Alemanha e Estados Unidos e outros países, mas nunca em grandes quantidades, porque focamos a qualidade"
Quem é que vos compra mais estas escovas de luxo? Qual o peso das exportações? E para que países mais exportam as vossas escovas?
Exportamos as nossas escovas para Inglaterra, Alemanha e Estados Unidos e outros países, mas nunca em grandes quantidades, porque focamos a qualidade. O mercado internacional representa 70% do negócio e o nacional cerca de 30%, contando também com vendas online.
Depois, temos o público que vai passando por cá porque nos conhece através das redes sociais ou até dos canais de televisão, nacionais e estrangeiros (alemães, franceses, brasileiros e ingleses). Temos muita gente a passar aqui e a comprar escovas. Por norma, quem compra as nossas escovas são pessoas que realmente necessitam, que têm um estilo de vida um pouco mais sofisticado. Até porque nós não vendemos preço, mas sim qualidade e a qualidade paga-se. Não podemos produzir escovas mais baratas senão temos de cortar na qualidade.
Qual é a importância das redes sociais e das vendas online para o vosso negócio?
Nos últimos anos, tem vindo a crescer. Não foi fácil no início, mas agora as redes sociais têm sido uma plataforma de divulgação bastante boa para nós. Quanto ao comércio online, temos vendido bem para sítios diferenciados. E temos pedidos de reparação de escovas antigas, algumas com 100 anos e em prata, que têm o pêlo estragado. Há muitos ingleses, franceses e também portugueses que nos pedem para reparar escovas antigas (reencher as escovas).
"Temos pedidos de reparação de escovas antigas, algumas com 100 anos e em prata, que têm o pêlo estragado"
Estão a desenhar novas escovas ou outros produtos com novas utilidades?
Sim, é ideia é ir terminando com umas escovas e produzir outras novas. Não podemos ter 150 tipos de escovas para fazer. Não quer dizer que terminem e que nunca mais se produzam, quer dizer que vão ser feitas menos vezes e não serão colocadas em montra. Temos escovas de edições limitadas, mas ficamos sempre com o molde para se poder produzir mais tarde, caso haja pedidos, com o mesmo preço.
Quantas pessoas trabalham na vossa empresa? Fale-nos da vossa loja.
Somos três pessoas a trabalhar aqui a tempo inteiro – eu, o Sérgio e a Fatinha. A minha mulher também trabalha connosco, sobretudo, na nossa loja no WOW, em Gaia, que está aberta 8 horas por dia, sábados, domingos e feriados. Inaugurámos esta loja há três anos e está a correr bem, sendo direcionada para turistas. Aqui também funciona muito para o turismo.
"A estratégia é continuar a trabalhar afincadamente para chegar e ficar no mercado de luxo, de nos posicionarmos"
Qual é a estratégia de futuro para a Escovaria Belomonte?
A estratégia é continuar a trabalhar afincadamente para chegar e ficar no mercado de luxo, de nos posicionarmos. Porque uma coisa é chegar ao mercado de luxo e outra é ficar. A nossa vontade é chegar ao topo das grandes marcas – de carteiras ou de calçado -, onde podemos realmente dar cartas, oferecendo escovas que vão ser boas para os produtos das marcas de luxo, acrescentando qualidade a essas marcas. Portanto, a estratégia é ficar lá com produtos cada vez melhores e diferenciados. Não temos tido concorrência, embora seja boa para continuarmos a crescer. Estou convencido que o Sérgio vai continuar com o negócio para durar mais 100 anos.
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