
O mundo voltou a falar de guerra, deslocações forçadas e instabilidade global, levando o conceito de refúgio a ganhar uma nova atualidade. O termo, muitas vezes associado a campos humanitários e estruturas provisórias, ressurge agora também na arquitetura como resposta emocional a um tempo de sobrecarga nos espaços residenciais e sociais.
A ideia de casa como abrigo não é nova. Desde as primeiras grutas até às construções do pós-guerra, o ser humano sempre procurou criar um espaço que o protegesse das ameaças do exterior. Atualmente, há milhões de refugiados forçados a sobreviver longe de casa, e também quem se mova para outros destinos devido às alterações climáticas ou à procura de uma vida melhor e diferente.
Em paralelo, neste mesmo mundo, marcado pelo excesso de estímulos, pela velocidade da vida moderna e pela escassez de tempo para parar, há quem escolha isolar-se para reencontrar o sentido da vida. Nesse contexto, o refúgio torna-se também um lugar mental, emocional e espiritual.
Seja por razões de segurança ou por necessidade de introspeção, o refúgio contemporâneo assume múltiplas formas — da cabana isolada na montanha à casa urbana desenhada para acolher e proteger. É nesse cruzamento que se posiciona o trabalho de vários arquitetos que procuram criar espaços capazes de responder à necessidade humana mais básica: sentir-se seguro e em paz.

Sónia Aguiar: “Refúgio é um sentimento antes de ser um espaço”
Para a arquiteta Sónia Aguiar, a noção de refúgio não se limita à arquitetura física. “O conceito de cabana ou refúgio é, acima de tudo, um sentimento — mais do que uma definição de espaço físico. Representa um lugar de recolhimento, simplicidade e conexão com o essencial.” É o cuidado no desenho, a intenção no projeto e a procura de um espaço que acolha o ser humano em todas as suas fases que transforma uma casa num verdadeiro refúgio.
Em Portugal, independentemente da escala ou da sofisticação, existe uma atenção quase instintiva a criar espaços com conforto, acolhimento e proteção. “Seja numa casa de campo simples ou numa moradia contemporânea, o essencial está sempre presente: oferecer um lugar onde se pode simplesmente ser”, explica a fundadora do atelier LCAS, em Cascais.
António Costa Lima: “Uma casa de 500 m² pode ser um refúgio”
Nem sempre o refúgio tem de ser pequeno. O arquiteto António Costa Lima partilha que a dimensão de uma casa não invalida a sua função como abrigo emocional. “Imagine-se uma casa com 500 metros quadrados. Como é que ela pode encarar esse conceito de refúgio? Depende do que o cliente pede. Neste caso, criámos círculos de privacidade — zonas de transição que conduzem ao centro da casa, que é o verdadeiro refúgio.”
António Costa Lima lembra que o refúgio pode estar presente nos mais diversos contextos: de uma capela junto a uma barragem — concebida para oferecer introspeção num ambiente imenso — até a um pequeno módulo para uso pessoal de alguém com outras casas pelo país. “Todos nós gostaríamos de ter um espaço com essas características para nos encontrarmos connosco. É esse encontro que o refúgio propõe.”

Maria Fradinho: “Projetar uma casa é criar um espaço de cura”
Com uma prática arquitetónica profundamente ligada ao bem-estar, Maria Fradinho leva o conceito de refúgio ainda mais longe. “Para mim o conceito de cabana/refúgio pressupõe à partida um edifício de pequena escala. Contudo, pode estar associado a um edifício maior, desde que permita o aconchego, a segurança e o conforto.”
Materiais naturais, vistas tranquilas e interiores pensados para promover serenidade são alguns dos pontos fundamentais para Maria Fradinho. “O refúgio deve promover a tranquilidade e introspeção, mas também potenciar momentos de partilha e convivência. Cada vez que projeto uma moradia, penso nesse edifício como um espaço que responde a uma necessidade muito humana: sentir-se em casa, física e emocionalmente.”
A líder do atelier Frari acredita que a arquitetura portuguesa, pela sua essência, já traz esse sentido de espiritualidade e abrigo. “A espiritualidade que a arquitetura pode promover irá potenciar o nosso bem-estar físico e emocional. Acredito que a arquitetura que se desenha em Portugal prevê esta necessidade.”
Jonas Lourenço: “Refúgio é onde pousamos o coração”
Com palavras quase poéticas, Jonas Lourenço sintetiza o conceito: “Cabana é aquele lugar onde você pode ser quem é, sem filtros. Pode ser um chalé no alto da serra, mas também um canto da casa, uma rede à sombra, um quarto com cheiro de infância.”
Para o arquiteto brasileiro, o verdadeiro refúgio não precisa de ser grandioso nem distante. Precisa de ser autêntico. “É o espaço onde o corpo descansa e o espírito silencia. Toda pessoa deveria ter um lugar-refúgio, mesmo que pequeno, mesmo que improvisado. Porque todo ser humano precisa de um lugar onde possa pousar o coração.”

João Completo: “Arquitetura é o que separa o refúgio do mundo exterior”
Para o jovem arquiteto João Completo, o conceito de refúgio está intimamente ligado à essência da arquitetura. “Traduz-se na capacidade de, através de elementos como paredes, coberturas e organização espacial, criar uma separação do exterior público e proporcionar aos habitantes uma sensação de privacidade, proteção e conforto.”
Um exemplo desta abordagem é a Casa na Serra do Louro, onde o conceito de refúgio foi uma premissa fundamental do projeto. “A casa resguarda-se da proximidade da rua através de pátios que mediam e filtram a relação com o exterior, criando a sensação de que, apesar da rua estar a menos de 10 metros do espaço interior, a sua presença torna-se imperceptível para quem habita o espaço.”
Para o arquiteto de Setúbal, o verdadeiro refúgio não precisa de ser grandioso nem distante. Tem que ser autêntico. “É o espaço onde o corpo descansa e o espírito silencia. Toda pessoa deveria ter um lugar-refúgio, mesmo que pequeno, mesmo que improvisado. Porque todo ser humano precisa de um lugar onde possa pousar o coração.”
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