Esta casa de design é também o expoente máximo para viver com saúde

Desenhada pelo Fran Silvestre Arquitectos, a Casa Camiral fica em Espanha e é a primeira moradia unifamiliar na Europa com certificação WELL.
Casa Camiral
Casa Camiral Fran Silvestre Arquitectos

Na paisagem espanhola de Caldes de Malavella, em Girona, em pleno enquadramento natural do Camiral Golf & Wellness, encontramos uma casa de sonho que coloca uma reflexão cada vez mais frequente na arquitetura contemporânea: será que o lugar onde vivemos pode melhorar diretamente a saúde de quem lá vive?

Casa Camiral
Exterior Casa Camiral Fran Silvestre Arquitectos

Desenhada pelo Fran Silvestre Arquitectos, a Casa Camiral é a primeira moradia unifamiliar na Europa certificada com o padrão WELL, um sistema internacional que avalia o modo como os edifícios influenciam o bem-estar físico e mental das pessoas.

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Para o atelier valenciano, o projeto representou uma experiência única. "É uma conquista importante. Não somos especialistas em certificações WELL e, nesse sentido, o trabalho conjunto com a Evalore, consultoria estratégica, foi fundamental para conseguirmos cumprir corretamente todos os requisitos do padrão", explica Silvestre.

Casa Camiral
Exterior Casa Camiral Fran Silvestre Arquitectos

Para além da obtenção da certificação, o processo serviu para aprofundar questões que, segundo o arquiteto, já fazem parte do ADN da arquitetura. O interessante, refere, foi perceber como muitos destes critérios coincidem com preocupações que já estão presentes na disciplina: a luz, o ar, o conforto e a relação com a envolvente.

Pode dizer-se que a casa nasce diretamente do lugar. O lote, estreito e alongado, condiciona uma implantação longitudinal que organiza o projeto como uma sequência de espaços orientados para a paisagem aberta. "O lugar foi absolutamente determinante. A geometria do projeto resulta praticamente do próprio terreno, que tem uma condição longitudinal muito clara", conta o arquiteto, para quem essa direção "marca tanto a proporção da casa como a orientação das divisões principais, sobretudo a zona de dia, virada para o campo de golfe".

Exterior
Exterior Fran Silvestre Arquitectos

Desenho biofílico

A relação com a envolvente é um dos elementos que definem a Casa Camiral. Grandes aberturas permitem que a paisagem entre visualmente na casa. "Os espaços são pensados como prolongamentos da paisagem, gerando uma relação contínua entre interior e exterior que reforça essa dimensão biofílica do projeto", sublinha o arquiteto. A biofilia, um conceito cada vez mais presente no design contemporâneo, defende que a ligação à natureza tem efeitos positivos na saúde e no bem-estar.

Exterior
Exterior Fran Silvestre Arquitectos

A casa organiza-se em três pisos. No rés-do-chão fica a zona de dia, com a sala virada para a paisagem, enquanto a cozinha e um quarto se dispõem para nascente. O piso superior acolhe dois quartos e um escritório com vista para o acesso ao terreno.

Uma das particularidades mais marcantes do projeto é o desfasamento do volume superior em relação ao corpo principal. Esse movimento gera um amplo terraço coberto e, ao mesmo tempo, define a imagem da casa. Segundo Fran Silvestre, era preciso criar uma zona de sombra na fachada principal e, em simultâneo, evitar a presença de pilares que cortassem as vistas para o campo de golfe. A solução passou por usar o piso superior como uma grande pala que protege o espaço exterior sem prejudicar a relação visual com a paisagem.

Piscina exterior
Piscina exterior Fran Silvestre Arquitectos

A habitação completa-se com um piso semienterrado que acolhe a garagem, as instalações técnicas e um espaço polivalente. O núcleo de comunicações articula os três níveis através de uma escada iluminada por uma abertura zenital virada a norte. Esse vazio vertical liga visualmente toda a casa e prolonga-se, no piso superior, em direção ao escritório, tornando-se o centro espacial do projeto.

Embora a arquitetura da Casa Camiral envolva todo o espaço, este projeto define-se sobretudo pela aposta no bem-estar. O padrão WELL assenta em sete pilares: ar, água, nutrição, luz, atividade física, conforto e mente.

Exterior
Exterior Fran Silvestre Arquitectos

Entre as estratégias adotadas na casa estão sistemas avançados de ventilação com purificação por radiação ultravioleta e oxidação fotocatalítica, tintas capazes de neutralizar poluentes e superfícies com propriedades antimicrobianas. A água de consumo passa por um sistema de filtragem por osmose inversa, que assegura uma mineralização controlada.

A iluminação é também desenhada tendo em conta os ritmos biológicos do corpo. Para isso, a casa integra um sistema de iluminação circadiana que acompanha a variação natural da luz ao longo do dia. "O importante é perceber que nem todas as luzes quentes funcionam da mesma maneira. Mesmo com uma temperatura de cor baixa, algumas podem conter frequências de onda que alteram o nosso ritmo circadiano. Por isso é fundamental escolher cuidadosamente as luminárias para que contribuam realmente para o bem-estar dentro de casa", explica Silvestre.

Vista aérea da piscina
Vista aérea da piscina Fran Silvestre Arquitectos

Outro dos aspetos mais interessantes do projeto é a atenção dada à saúde mental. As decisões arquitetónicas apoiam-se em estudos sobre a forma como percecionamos o espaço. "Há decisões muito concretas que podem influenciar o nosso estado emocional. Por exemplo, certas gamas cromáticas ou determinadas formas de integrar os elementos no espaço conseguem reduzir os níveis de cortisol, favorecendo estados de maior relaxamento", revela o arquiteto. Acrescenta ainda que existem estudos a indicar que poder ver elementos naturais a diferentes escalas, por exemplo, a três, a 30 e a 300 metros, gera uma sensação de calma mental. Integrar essas relações visuais com a natureza faz parte das estratégias do projeto.

O cuidado com o bem-estar chega mesmo a pormenores que, normalmente, passam despercebidos numa casa. Como refere o atelier, em muitas habitações pode haver mais poluição interior do que exterior, devido a vernizes, colas ou determinados componentes usados na construção. São também tidos em conta fatores como possíveis alergias a certas espécies vegetais, na hora de pensar o paisagismo.

Detalhe do terraço
Detalhe do terraço Fran Silvestre Arquitectos

A arquitetura, "música congelada"

Na memória descritiva do projeto, o Fran Silvestre Arquitectos cita uma ideia do filósofo Arthur Schopenhauer, que descrevia a arquitetura como "música congelada". Para o arquiteto, esta metáfora ajuda a explicar a sensação que a casa transmite: "Gostamos de pensar a arquitetura como um movimento parado no tempo". Na Casa Camiral, esse movimento aparece no desfasamento entre os volumes que dão origem ao terraço e configuram a casa, um gesto que parece capturar um instante de tensão e transformá-lo em forma construída.

O atelier estabelece também um paralelo com a escultura "Figura a punto de volar", de Andreu Alfaro, uma peça que transmite a sensação de estar prestes a levantar voo, apesar de permanecer completamente imóvel. Algo de semelhante acontece nesta casa, em que a arquitetura parece conter um dinamismo interno apesar da serenidade das suas linhas.

Casa Camiral
Casa Camiral Fran Silvestre Arquitectos

Fran Silvestre trabalha atualmente com o Laboratório de Neuroarquitetura da Universidade Politécnica de Valência para transferir parte destas estratégias para projetos de maior escala. Em alguns casos, o atelier chegou a desenvolver casas que, do ponto de vista hídrico, não precisam de estar ligadas à rede pública, porque produzem a sua própria água através de vários sistemas, entre os quais a condensação. "A partir daí percebemos que, em muitos empreendimentos residenciais, se desperdiça, por exemplo, a água da condensação dos sistemas de ar condicionado, quando podia ser perfeitamente aproveitada para encher os autoclismos. Milhares de pequenos pormenores como este podem gerar poupanças importantes de recursos e melhorar o funcionamento das casas", reflete o arquiteto. É este tipo de investigação que, na sua opinião, pode dar origem a uma transferência tecnológica interessante para a habitação coletiva.

Por agora, a Casa Camiral tornou-se uma espécie de laboratório que explora como a arquitetura pode ir para além da forma e converter-se numa ferramenta ativa de bem-estar.

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