Tóquio, 1964. Um menino entra no estádio olímpico desenhado por Kenzo Tange, pela mão do pai, e decide, naquele momento, o que vai ser quando crescer. Sessenta e dois anos depois, essa criança de então é o arquiteto vivo que mais nos ensinou a desconfiar do betão. Kengo Kuma fundou o atelier que tem o seu nome e tornou-se uma das figuras mais influentes da arquitetura contemporânea mundial. Distingue-se por uma obra reconhecida pela sensibilidade à relação entre arquitetura, natureza e materialidade, tal como fica evidente pelos projetos que soma ao longo da sua trajetória e nas palavras do próprio arquiteto japonês nesta entrevista ao idealista/news.
A sua assinatura é o oposto do espetáculo: dissolver o limite entre o edifício e o contexto, escolher a leveza em vez da massa, a transparência em vez da fortaleza, a madeira em vez do aço. Japan National Stadium dos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020, V&A Dundee, na Escócia, por exemplo.
E dele é também o novo Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, redesenhado em colaboração com o atelier português OODA, e eleito Building of The Year 2025 na categoria Arquitetura Cultural pela plataforma ArchDaily. Em Portugal, além do CAM, tem o seu nome de origem nipónica na reconversão do Matadouro do Porto, o complexo M-ODU, em Campanhã, que une escritórios, cultura e lazer, e na recuperação da Aldeia Silveira na Lousã.
No início de maio, Kengo Kuma esteve em Lisboa, no auditório do Museu do Oriente, para a conferência "Back to Nature", organizada pelo Espaço de Arquitetura. À margem, esteve à conversa com o idealista/news, refletindo sobre o lugar da arquitetura num tempo de urgência climática, vida digital e crise de saúde mental. Fala devagar, com a paciência de quem já disse o mesmo muitas vezes, mas continua a acreditar: a arquitetura natural pode salvar-nos do mundo que construímos.
Lembra-se da primeira vez em que pensou que queria ser arquiteto?
Lembro-me dos Jogos Olímpicos de Tóquio de 1964. O meu pai levou-me ao estádio desenhado por Kenzo Tange. É um edifício extraordinário. Antes disso, eu não conhecia a profissão de arquiteto. Mas o meu pai disse-me que tinha sido o arquiteto Kenzo Tange a desenhar aquele edifício. Foi nesse dia que decidi tornar-me arquiteto.
É conhecido por desenhar edifícios que nos fazem sentir próximos da natureza. Mas aqui em Lisboa, a maioria das pessoas vive em apartamentos pequenos. Que mudança simples podemos fazer para nos sentirmos mais próximos da natureza, dentro de apartamentos pequenos?
O meu conselho é usar materiais naturais, trazê-los para dentro de casa. A madeira, em particular, é um material mágico. Mesmo numa unidade pequena, a madeira consegue transformar toda a atmosfera do espaço. As pessoas conseguem sentir a natureza mesmo num espaço limitado. É esse o meu conselho.
O material natural é fundamental para o design sustentável, mas também para o stress mental. Estamos a enfrentar muitas crises, e o material natural pode ser a solução para esse tipo de crise.
A sua presença em Portugal está a crescer. Como descreve a relação com Portugal, os materiais, a luz, a paisagem, e de que forma isso influenciou a sua abordagem?
Sinto que Portugal e o Japão têm muitas semelhanças: ambos temos linhas de costa, montanhas, vales. Essas semelhanças dão-me muitas pistas para os projetos em Portugal. Os materiais naturais são adequados a esse tipo de afinidade. O espaço íntimo também é necessário em ambos os países. Estamos muito felizes por trabalhar com os portugueses, porque partilhamos a mesma sensibilidade e as mesmas filosofias.
Acredita que os materiais naturais são o verdadeiro conceito de luxo, e que podemos aplicá-los tanto em grandes projetos como nos nossos apartamentos. São esse o segredo?
Sim. O material natural é fundamental para o design sustentável, mas também para o stress mental. Estamos a enfrentar muitas crises, e o material natural pode ser a solução para esse tipo de crise.
Estamos muito felizes por trabalhar com os portugueses, porque partilhamos a mesma sensibilidade e as mesmas filosofias.
Voltando à questão das semelhanças entre portugueses e japoneses, acredita que esta abordagem arquitetónica pode trazer de volta à vida zonas rurais, terras fora dos grandes centros urbanos, hoje despovoadas? A arquitetura pode operar essa mudança?
O design arquitetónico pode ser solução para os locais densos, mas é igualmente necessário no campo, nas zonas mais despovoadas. Com bom design arquitetónico conseguimos salvar o lugar, o dinheiro, por si só, não consegue salvá-lo. O bom design e uma boa relação com as pessoas é que conseguem.
Já tocou um pouco neste tema, mas o que significa este conceito de "regresso à natureza" num mundo cada vez mais marcado pela urgência climática e pela vida digital?
Hoje, a tecnologia digital e a IA estão integradas na nossa vida pessoal. Esta situação frenética pode ser amenizada através da arquitetura natural. A arquitetura natural pode ser a solução para um mundo orientado pela tecnologia. A arquitetura de betão e aço não consegue dar resposta a esse tipo de situação.
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