Em entrevista, a gestora do M-ODU explica porque é que este novo complexo vai ter “impacto económico e social” em Campanhã.
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Gonçalo Lopes
Gonçalo Lopes

Há uma zona no Porto que ficou esquecida durante vários anos e que está, agora, a renascer. Falamos da zona oriental da cidade Invicta, que tem vindo a ser dinamizada quer por iniciativa municipal, quer privada. Um dos projetos que marcam esta mudança é o M-ODU, que nasce da reabilitação do antigo matadouro de Campanhã. Trata-se de um megacomplexo que une escritórios, cultura e lazer, sendo um espaço também aberto ao público. “Vamos trazer uma nova vida e uma nova vivência a esta zona da cidade”, acredita Mafalda Ferreira, Community Manager do M-ODU, sublinhando em entrevista ao idealista/news que o projeto vai “ter impacto económico e social”. 

A própria reabilitação do M-ODU – que significa Matadouro, Outro Destino Urbano – foi pensada para “criar impacto na sociedade e na forma como nós vivemos em cidade”, o que vai ao encontro da missão da própria Emerge, a promotora da obra que integra o grupo Mota-Engil, explica Mafalda Ferreira na entrevista. O M-ODU vai, assim, combinar escritórios com uma vasta área cultural, social e de lazer, a qual vai incluir um museu, uma galeria municipal, espaços de restauração e de bem-estar, entre outros.

“Acredito que vai melhorar significativamente a qualidade de vida das pessoas em questões simples”

Aliás, o M-ODU foi mesmo o local escolhido pela Mota-Engil para concentrar as suas empresas no Norte. “O que vai acontecer, e que está expectável que seja no último trimestre de 2026, é que uma boa parte destes edifícios sejam ocupados pelas empresas do grupo Mota-Engil”, que completa 80 anos de história este ano, adianta a responsável nesta entrevista realizada no complexo.

Está, assim, para breve a abertura do M-ODU às empresas e à comunidade local, o que promete mudar a vida de quem vive e trabalha na zona oriental do Porto. A gestora do complexo acredita mesmo que o M-ODU “vai melhorar significativamente a qualidade de vida das pessoas em questões simples, como facilitar o acesso ao outro lado da cidade [com ligação direta ao metro], mas também dar-lhes acesso a um conjunto de atividades a que habitualmente estas pessoas não têm acesso direto”.

Escritórios no Porto
Entrada principal do M-ODU, no Porto Créditos: M-ODU | Emerge

Conte-nos a origem do nome M-ODU para este projeto.

O M-ODU é um projeto de requalificação e regeneração de um espaço antigo que faz parte da história da cidade, que era o matadouro industrial. E sentimos que ao fazer este trabalho de regeneração, precisávamos também de dar aqui um novo enquadramento do ponto de vista conceptual e de marca ao espaço. E, portanto, como é um projeto desenvolvido pelo arquiteto japonês Kengo Kuma, em parceria com o gabinete de arquitetura português OODA, achámos que M-ODU de alguma forma relacionava bem com todo este contexto, sem perder a identidade. Porque M-ODU significa Matadouro, Outro Destino Urbano, que é o objetivo deste espaço.

"Conseguimos manter e preservar praticamente todos os edifícios que fazem parte do projeto original"

As obras estruturais de reconversão do antigo matadouro de Campanhã estão quase a terminar. O que é que ficou dos edifícios antigos? E o que é que ainda falta fazer?

Isto é um projeto de reabilitação, portanto, conseguimos manter e preservar praticamente todos os edifícios que fazem parte do projeto original, tendo havido um trabalho de recuperação. As madeiras que vemos são as madeiras originais, algumas peças que contam a história do matadouro foram mantidas e recuperadas. Neste momento, estamos na fase de acabamento do tosco, pelo que estamos a pouco tempo de conseguir entregar às empresas os edifícios para que possam começar os trabalhos de ‘fit out’. 

Reabilitação urbana no Porto
Tetos de madeira preservados dos edifícios do M-ODU Créditos: Gonçalo Lopes | idealista/news

O projeto arquitetónico é de autoria do atelier japonês Kengo Kuma & Associates e do gabinete português OODA. E que características arquitetónicas ímpares surgiram desta parceria?

Com autoria arquitetónica partilhada entre o atelier japonês Kengo Kuma & Associates e o gabinete português OODA, o M-ODU combina experiência global e conhecimento local para transformar o antigo matadouro, até à data desativado e fechado à cidade. A cobertura do complexo - uma estrutura leve que parece flutuar sobre os edifícios - é a protagonista deste projeto, que representa o espírito ousado e a visão da Emerge para este lugar. Inspirada no conceito japonês “komorebi” (a luz que passa suavemente entre as folhas das árvores), simboliza a fusão entre arquitetura, natureza e luz.

"O M-ODU aposta na sustentabilidade, com a reabilitação e reutilização de estruturas existentes"

Como é que a sustentabilidade guiou a reabilitação do antigo matadouro?

Estamos a criar locais mais saudáveis para as pessoas. O M-ODU aposta na sustentabilidade, com a reabilitação e reutilização de estruturas existentes, materiais locais, mecanismos e dispositivos para melhorar a eficiência do edifício a qualidade do ar e reduzir as emissões de carbono. Através da sua conceção sustentável, construção e normas operacionais, soluções para eficiência energética, qualidade do ar e redução de emissões, o projeto visa conquistar a certificação ambiental LEED Gold. São exemplos deste caminho o aproveitamento dos envidraçados e da luz interior do edificado, a recuperação das madeiras dos edifícios originais, a recuperação da pedra, o conforto térmico dos edifícios, a criação de espaços verdes e as próprias espécies selecionadas para estes espaços, mas também decisões de projeto que estimulam a mobilidade verde.

Arquitetura em Portugal
Cobertura do complexo M-ODU Créditos: M-ODU | Emerge

Quantas empresas esperam receber no M-ODU? Qual é a dimensão e áreas das empresas que aqui se vão instalar?

Os edifícios são grandes e queremos que as empresas ocupem todo o edifício, pelo menos, nesta fase. Temos todos os edifícios praticamente ocupados. Inicialmente, era um projeto que estava aberto à exploração comercial. Mas, entretanto, como foi um projeto que se demorou no tempo - por um conjunto de circunstâncias, as questões do Tribunal de Contas e depois a pandemia -, acabou por haver aqui uma confluência de interesses. Do lado do grupo Mota-Engil havia a necessidade de encontrar novas instalações, um espaço que pudesse albergar todas as empresas do grupo. Acabou por coincidir a conclusão deste projeto num período em que o grupo andava à procura de um espaço e, portanto, foi quase que a tempestade perfeita. O que vai acontecer, e que está expectável que seja no último trimestre de 2026, é que uma boa parte destes edifícios sejam ocupados pelas empresas do grupo Mota-Engil. Vamos conseguir ter num espaço só todas as empresas do grupo.

Além das empresas do grupo que vão cá estar, está a ser desenvolvido um projeto de investigação e inovação, que é um projeto que nasce na MEXT (empresa do grupo), que vai impactar todo o setor e não só nacional, mas internacional, porque nos vai permitir pensar e trabalhar aquilo que vai ser o futuro da construção. Trata-se de um projeto que ainda está em desenvolvimento, mas que posiciona também a MEXT e o próprio grupo Mota-Engil na dianteira do setor.

"É um espaço que não tem muros, mas sim praças públicas, onde se espera que possamos ter eventos abertos ao público"

Como vai ser M-ODU? Como combina escritórios, cultura e áreas de lazer?

O complexo tem um conjunto de edifícios dedicados a escritórios e tem uma área de restauração grande (um restaurante vai ocupar 600 metros quadrados), uma cafetaria, um espaço de wellness e toda a área cultural. Estamos a falar de um projeto que tem 26.000 metros quadrados (m2), com área ocupada de 20.000 m2. Dentro desta zona, haverá uma área cultural de 8.000 m2 com espaços que vão ser geridos diretamente pela câmara municipal, como o museu, Galeria Municipal, residência para artistas… Também é importante referir que este projeto inclui uma nova esquadra para a Polícia de Segurança Pública, que está aqui ao lado numa esquadra muito pequena, sem grandes condições. E também vai acolher a Fundação Manuel António da Mota. Depois, haverá todo um conjunto de serviços que vão servir a comunidade residente, sendo este um espaço também aberto ao público. É um espaço que não tem muros, mas sim praças públicas, onde se espera que possamos ter eventos abertos ao público e que convidem as pessoas que vivem aqui também a fazer parte desta nova comunidade.  

Mobilidade no Porto
Ligação do M-ODU ao metro do Porto Créditos: M-ODU | Emerge

A questão da mobilidade também foi pensada no M-ODU, criando-se uma ligação direta ao metro do Porto.

Sim, esse é um elemento simbólico do projeto, porque a cidade do Porto está - ou estava - dividida por esta grande cicatriz que atravessa a cidade que é a VCI. Além de requalificar toda esta área, este projeto vai permitir a ligação física com esta ponte da parte oriental à parte ocidental da cidade. Todas as pessoas que vivem aqui à volta, de alguma forma vão melhorar a sua qualidade de vida, porque passam a ter uma ligação direta ao outro lado, direta à estação do metro que serve muitos habitantes da zona.

"O que fazemos é, ao reabilitar o espaço, garantir aqui que a história e o património arquitetónico se mantêm"

O que vamos poder encontrar no museu que vai nascer no M-ODU?

Vai ser o Museu das Convergências, que vai acolher o espólio da coleção privada de Álvaro Sequeira Pinto. E terá a galeria, que será uma extensão da Galeria Municipal que já funciona no Palácio de Cristal. E, portanto, espera-se aqui uma grande atividade, alguma permanente associada ao museu e, depois, programação cultural mais itinerante, mais volátil.

Reabilitação do antigo matadouro de Campanhã
Espaço cultural do M-ODU Créditos: Gonçalo Lopes | idealista/news

Houve alterações no projeto do M-ODU ao longo do tempo? Como tem lidado com os desafios da falta de mão de obra e subida dos custos da construção?

É um projeto que, por todas as circunstâncias, se alongou no tempo, o que tem algum impacto. É um projeto com um investimento de 40 milhões de euros. O que fazemos é, ao reabilitar o espaço, garantir aqui que a história e o património arquitetónico se mantêm, mas reabilitando todos os edifícios para que tenham o maior conforto possível.  

"O que pensamos, enquanto gestores do complexo, é que depois há toda uma vivência que tem de ser trabalhada"

Como é que as novas necessidades dos trabalhadores se refletem nos acabamentos dos escritórios e nas atividades desenvolvidas?

O ‘fit outs’ ou a forma como as empresas depois finalizam o interior dos edifícios depende muito das próprias políticas de gestão de pessoas e gestão do espaço da empresa. Naturalmente, como vamos ter empresas com espíritos diferentes, os ‘fit outs’ nunca serão exatamente iguais e responderão às necessidades das empresas e das equipas. 

O que pensamos, enquanto gestores do complexo, é que depois há toda uma vivência que tem de ser trabalhada. Há um conjunto de atividades e de programação que vão ser desenvolvidas por nós enquanto gestores do espaço e pela própria câmara, com toda a atividade cultural que, de alguma forma, vai contribuir para esta melhoria da qualidade de vida dos residentes e trabalhadores. Além disso, os espaços de restauração e o espaço wellness permitirão às pessoas ter acesso, no mesmo sítio, a diferentes serviços além daqueles que as empresas possam vir a disponibilizar nos seus edifícios, acabando por melhorar as condições de vida e de trabalho de quem cá está todos os dias.

M-ODU
Venenu Agency e Emerge

O que muda na zona oriental do Porto com o M-ODU?

Acho que vamos trazer uma nova vida e uma nova vivência a esta zona da cidade. É uma zona que, por diferentes razões, foi ficando deixada ao esquecimento. Nos últimos anos, há todo um trabalho que tem sido feito do lado do município para reabilitar esta zona da cidade, sendo que este projeto acaba por ser o mais mediático ou mais visível. Portanto, acredito que vai melhorar significativamente a qualidade de vida das pessoas em questões simples, como só o facilitar o acesso ao outro lado da cidade, mas também dar-lhes acesso a um conjunto de atividades a que habitualmente estas pessoas não têm acesso direto. 

Vão ter um espaço aberto de convivência e de oportunidades também, porque estamos a falar de cerca de 700 pessoas que vêm para cá todos os dias, que vão viver neste espaço, mas que também vão viver com as comunidades à volta. Vai ter impacto económico. Vai ter impacto social. Portanto, acho que é um projeto com muitos pontos positivos para esta parte da cidade. Aquilo que está pensado e que faz parte também da missão da própria Emerge, que é a promotora da obra, é criar impacto na sociedade e na forma como nós vivemos em cidade. 

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