"Desde sempre, aquilo que verdadeiramente influencia a música são três coisas: o instrumento, quem o toca e o lugar onde é tocado." A frase é do maestro Nikolay Lalov, diretor artístico da Orquestra de Câmara de Cascais e Oeiras e mentor do Festival Entre Quintas, que regressa em 2026 para a sua sétima edição. Talvez valha a pena começar pela conclusão: o espaço onde a música acontece não é cenário, é coautor. Não há orquestra, por mais afinada que esteja, que soe igual em dois sítios diferentes. E há sítios, uma adega cavada na pedra, uma igreja barroca, um jardim sob estrelas (com todos os desafios que tocar ao ar livre pode trazer), que transformam para sempre a forma como se vai lembrar uma peça que se pensava conhecer de cor.
É exatamente esta premissa que o Festival Entre Quintas'26 traz, entre 26 de junho e 5 de julho, repartido entre a Casa Cadaval, em Muge, e a Quinta do Casal Branco, em Almeirim. Aquilo que foi uma necessidade - o Entre Quintas nasce em 2020, no auge do confinamento, com a ideia que os espaços abertos, longe dos grandes centros, podiam ser o refúgio possível para a música clássica num tempo em que as salas estavam fechadas, é hoje a conjugação perfeita entre a música e o espaço.
Nesta edição com a presença especial do ex-Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, que regressa à orquestra que ajudou a fundar em 1996, no tempo em que era figura central da vida cívica de Cascais. Um regresso que devolve ao Entre Quintas o ânimo de uma ligação fundadora e que reforça aquilo que o maestro Nikolay Lalov defende desde o primeiro dia: levar música de excelência aos lugares onde ela raramente chega com este nível de exigência.
O lugar perfeito não existe. Existe lugares certos para cada coisa.
Antes de existirem auditórios, existiam igrejas, salões, jardins e palácios. E foi para esses lugares que a música ocidental foi sendo escrita ao longo de séculos. A acústica de uma igreja românica, com a sua nave alta e as suas paredes de pedra, deu corpo ao canto gregoriano e à polifonia sacra. Os salões nobres do século XVIII, com o seu pé direito controlado e o seu mobiliário absorvente, definiram o som da música de câmara de Haydn e Mozart. Em conversa com o idealista/news, o maestro Nikolay Lalov faz referência às condições acústicas de cada lugar como o impacto principal da arquitectura na experiência da música.
Quando a Orquestra de Câmara de Cascais e Oeiras sobe ao palco improvisado dos jardins da Casa Cadaval ou da Quinta do Casal Branco, ao fim da tarde de uma noite de junho, há uma orquestra invisível a tocar em paralelo. É a "orquestra do lugar": a luz que vai descendo, o cheiro das vinhas, o frescor da pedra, a acústica imprevisível do ar livre, os ângulos esculpidos por séculos de uso humano. É exatamente essa fusão que cria uma experiência impossível de replicar em qualquer outro contexto.
Casa Cadaval, Muge
A Casa Cadaval, em Muge, no concelho de Salvaterra de Magos, é uma propriedade com cerca de 5.400 hectares e quase 400 anos de ligação à família dos Duques de Cadaval. O palácio da herdade tem origens ainda mais antigas: terá sido habitado pela rainha D. Leonor de Áustria, terceira mulher de D. Manuel I, até 1530. No coração do Ribatejo, a Casa Cadaval junta vinha, coudelaria de puro-sangue lusitano e campos cultivados, num conjunto patrimonial dirigido há cinco gerações por mulheres.
A administração está hoje a cargo de Teresa Schönborn, marquesa de Cadaval. A herdade tem uma tradição longa de apoio à cultura. Esta vocação faz da Casa Cadaval um palco naturalmente preparado para receber o Entre Quintas, onde a música encontra adegas seculares, salões nobres e pátios atravessados pela luz do Ribatejo.
Quinta do Casal Branco, Almeirim
A Quinta do Casal Branco, em Almeirim, pertence à família Braamcamp Sobral Lobo de Vasconcelos desde 1775 e tem mais de 1.100 hectares de terreno, dos quais 119 ocupados por vinha em solos de charneca. A propriedade foi, durante quatro séculos, coutada real. Permanece ainda um torreão-pombal do século XIX que guarda a memória dessa arte, e é em homenagem a essa tradição que a quinta dá o nome "Falcoaria" à sua gama mais emblemática de vinhos. A primeira adega industrial a vapor da região do Tejo é desta quinta e data de 1817.
Hoje gerida por José Lobo de Vasconcelos, neto de D. Manuel Braamcamp Sobral e um dos co-fundadores do Festival Entre Quintas, ao lado de Teresa Schönborn e Nikolay Lalov, a Quinta do Casal Branco oferece ao festival um cenário onde as vinhas centenárias, os jardins históricos e as adegas seculares dialogam naturalmente com a música.
Cada peça é escolhida para um lugar (e para um momento)
Há uma decisão importante que antecede cada edição do Entre Quintas: a escolha do repertório não é feita pela orquestra a partir de uma lista de favoritos. É feita a partir do lugar. Cada peça é escolhida em função do espaço onde vai ser tocada, da hora do dia em que vai acontecer, do tipo de público que se prevê e da temperatura emocional que se quer criar naquele momento exato do festival.
É por isto que o Entre Quintas'26 abre no dia 26 de junho, às 21h30, com uma combinação especificamente desenhada para a inauguração: a abertura da ópera "Armida", de Haydn, a Sinfonia "Júpiter" de Mozart e as "Variações Rococó" de Tchaikovski, com Alexander Somov como violoncelista solista, sob direção de Lalov. Não é uma escolha arbitrária. É uma sequência pensada para a noite de abertura, num espaço aberto, com uma audiência que chega ainda com o calor do dia no corpo e precisa de ser conduzida, gradualmente, para um estado de atenção plena.
A mesma lógica preside ao resto da programação:
- Estreia nacional da obra "Jet Set Trio", do compositor austríaco Helmut Schmidinger, traz o contemporâneo ao festival, escolhido para um contexto íntimo onde cada nota pode ser dissecada.
- A noite de jazz no recital afro-jazz de Stewart Sukuma e Amigos, programado para um cenário aberto, leva o festival para fora do registo erudito sem o trair, num espaço que permite ao corpo responder ao ritmo.
- As palestras; como a "História dos concheiros de Muge", apresentada por Célia Gonçalves, e outras conferências ligam a música ao território, ao património, ao chão onde tudo acontece.
- O repertório ibérico e clássico, distribuído estrategicamente entre adegas, salas nobres e jardins, conforme a obra exige proximidade ou amplitude, recolhimento ou expansão.
Marcelo, o regresso de um fundador
Há uma figura cuja presença marcou a apresentação oficial do Entre Quintas'26, na Biblioteca do Grémio Literário, em maio: o ex-Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa. Marcelo esteve ligado à fundação da Orquestra de Câmara de Cascais e Oeiras em 1996, num tempo em que era presidente da Assembleia Municipal de Cascais e o seu peso cívico era determinante para que projetos culturais locais ganhassem fôlego.
"Como tem a certeza de que tudo ficou mais animado desde que ele voltou", confessa o maestro Nikolay Lalov. Já não como Presidente da República, mas como cidadão livre dos constrangimentos do cargo, Marcelo regressa à orquestra que ajudou a empurrar há quase três décadas com uma disponibilidade renovada.
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