Portugal e Espanha são o espelho da crise habitacional europeia

Países ibéricos sofrem de problemas como falta de casas, excessiva burocracia, imigração e altos custos de construção, diz o FT.
Crise na habitação em Portugal
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A crise na habitação – ou de acesso à habitação – é bem visível em Portugal e Espanha, que vivem atualmente problemas semelhantes dentro do setor imobiliário residencial. Em concreto, os países da Península Ibérica sofrem de males comuns, como a falta de casas no mercado, a excessiva burocracia, problemas relacionados com a imigração e elevados custos de construção.

Este é um tema, de resto, que não está a passar despercebido na Europa, tendo o britânico Financial Times (FT) publicado um artigo no qual escreve que os dois países enfrentam algumas das mais graves crises de habitação da União Europeia (UE). 

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Segundo a prestigiada publicação internacional, as carências identificadas, como a escassez de imóveis e os elevados custos de construção de casas, estão a alimentar o descontentamento público e as tensões políticas por toda a Europa, devido à subida dos preços e as rendas que afastam as pessoas dos centros das cidades, sendo esta uma pressão particularmente intensa nas maiores cidades da Península Ibérica.

Entre 2021 e 2025, Portugal construiu menos 300 mil habitações do que as necessárias para responder ao crescimento da população, o equivalente a 6,6% do total dos agregados familiares do país no ano passado, segundo um estudo do Banco de Espanha. No país vizinho, o défice no mesmo período foi de 750 mil unidades, correspondentes a 3,7% do total das famílias. Em comparação, o défice médio da zona euro era equivalente a 0,5% do total de habitações, tal como aponta o mesmo relatório, destacando que o parque de habitação pública nos dois países do sul da Europa é dos mais reduzidos da UE.

Solução passa por aumentar oferta de casas 

Álvaro Santos Pereira, governador do Banco de Portugal
Álvaro Santos Pereira, governador do Banco de Portugal Getty images

Em declarações ao FT, o governador do Banco de Portugal (BdP) diz que “o problema da acessibilidade à habitação em Portugal é uma preocupação persistente, sentida em várias regiões do país, incluindo Lisboa e Porto, onde as dificuldades de acesso são mais pronunciadas”. Álvaro Santos Pereira indica que “os elevados fluxos migratórios resultaram num aumento do número de agregados familiares residentes”, defendendo que a solução passa por reforçar a oferta habitacional.

Ainda assim, e apesar do aumento da imigração nos últimos anos, Álvaro Santos Pereira considera que a situação habitacional está a melhorar. De acordo com o BdP, a construção de habitação acompanhou, em termos gerais, o ritmo de formação de novos agregados familiares em 2025, em parte devido à redução da imigração. Mantém-se, porém, o défice habitacional acumulado nos anos anteriores.

O remédio, estando diagnosticado que a procura é forte, passa por atuar do lado da oferta. “A ênfase deve ser posta em medidas do lado da oferta, uma vez que a falta de oferta está na origem do défice acumulado”, afirma. 

Também citado pelo FT, Manuel Maria Gonçalves, CEO da Associação Portuguesa de Promotores e Investidores Imobiliários (APPII), reitera ser essencial agir do lado da oferta, colocando mais casas no mercado, tendo o setor da construção, nos últimos anos, perdido empresas, trabalhadores e capacidade produtiva. 

Os promotores imobiliários em Portugal estão hoje prontos para construir, acrescentou, mas o aumento dos custos de construção e o excesso de burocracia tornam difícil obter lucro com a construção de casas destinadas à “classe média”. Como resultado, são empurrados “para segmentos de gama mais alta, onde esses custos ainda podem ser absorvidos”, reconhece. 

O CEO da APPII elogia, no entanto, as medidas aprovadas este ano pelo Governo liderado por Montenegro, entre elas a redução do IVA na construção para 6%, que poderá “melhorar a viabilidade económica dos projetos habitacionais”. 

O estudo do Banco de Espanha, que mediu os défices através do cálculo da diferença entre o número líquido de novos agregados familiares formados em cada ano e o número de unidades residenciais cuja construção fora aprovada dois anos antes, incorporando uma desfasagem temporal que tem em conta o período de construção, concluiu que a Alemanha era a grande economia da UE com a oferta habitacional mais robusta, registando, entre 2021 e 2025, um excedente equivalente a 0,5% do total de agregados familiares, com base no número de licenças de construção aprovadas. Reconheceu, porém, que, caso os cálculos considerassem o número de novas habitações concluídas, o país apresentaria um pequeno défice de 0,1%.

Tanto em Espanha como em Portugal, a utilização de apartamentos para alojamento turístico está a reduzir o número de habitações disponíveis para residentes, escreve o FT. 

Apoiando-se em dados Numbeo e em cálculos do Deutsche Bank e do próprio FT, a publicação indica que os residentes de Lisboa que ganham o salário médio teriam de gastar mais de 110% do seu rendimento para arrendar um T1 no centro da cidade, sendo este o valor mais elevado da Europa. Um valor que desce para 75% nas cidades espanholas de Madrid e Barcelona.

Habitação em Espanha
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A realidade espanhola

Em Espanha, a habitação é a principal preocupação dos eleitores, segundo o instituto público de sondagens CIS. O socialista Pedro Sánchez, que lidera um Governo minoritário de esquerda, mantém uma política de imigração de portas abertas que fez aumentar a procura de habitação, com a população nascida no estrangeiro a crescer, desde 2022, a uma média anual de 665 mil pessoas.

De acordo com o FT, o primeiro-ministro espanhol tem ficado, em grande medida, bloqueado em matéria de política de habitação desde a sua reeleição, em 2023, por não conseguir fazer aprovar legislação relevante no Parlamento e porque os governos regionais detêm mais competências nesta área.

Em abril, o seu Executivo aprovou um plano de habitação de sete mil milhões de euros para o período 2026-2030, que inclui financiamento para mais habitação pública e para a reabilitação de edifícios vazios. Os promotores privados, porém, defendem que as causas profundas da escassez estão noutros fatores.

Juan José Perucho, diretor-geral da grande promotora espanhola Ibosa, afirmou que os obstáculos mais significativos incluem a burocracia e os entraves legais que fazem com que sejam necessários anos para obter autorização para construir em novos terrenos.

Mas, acrescentou, um fator ainda mais relevante é o rápido crescimento do número de imigrantes empregados que procuram habitação acessível no mesmo segmento de mercado. “Tanto na venda como no arrendamento, estamos a chegar a um ponto em que os preços atingiram níveis que já não são compatíveis com os salários das pessoas”, afirmou.

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