"Cozinha da avó" está de volta (a nova trend do imobiliário de luxo)

Sempre foi a divisão que mais valoriza, ou desvaloriza, uma casa. Agora o status reclama sentir a "alma" do espaço.
cozinha da avó
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Houve uma altura em que a cozinha de sonho eram um ambiente quase cirúrgico: ilha central de quartzo branco, armários sem puxadores, eletrodomésticos embutidos, tudo liso, tudo escondido, tudo perfeito. Agora, esse modelo assético, está a ser abandonado por muitos dos compradores que mais dinheiro têm para investir em criar espaços ideais. E o que o substitui é, à primeira vista, surpreendente: a "cozinha da avó", a nova grande tendência internacional no mundo do design de interiores.

E porque é que voltámos a apaixonar-nos pelas "cozinhas de avó"? A resposta é mais profunda do que uma simples nostalgia. Falamos de azulejos pintados à mão, bancadas de pedra, torneiras de latão e muitos utensílios exposto. Falamos, sobretudo, de uma reação cultural: a cozinha tradicional regressa em força como resposta ao excesso de estandardização que tomou conta dos nossos interiores. No segmento de luxo, isto é uma viragem importante, a perfeição e o status agora conseguem-se com soluções que permitem sentir a "alma" de cada casa.

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Porque é que o topo de gama virou costas ao minimalismo

A lógica do luxo funciona quase sempre por contraste. Quando algo se democratiza, perde poder de distinção. A cozinha branca e minimalista tornou-se acessível, omnipresente, reproduzível em qualquer catálogo de superfície comercial. A partir do momento em que toda a gente pode ter uma versão decente da cozinha "de revista", deixa de fazer sentido, para quem procura exclusividade, querer exatamente isso.

cozinha vintage
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São três os pontos que o novo luxo procura:

  • A primeira é a autenticidade. A cozinha da avó oferece imperfeição e carácter, qualidades que o fabrico em série não consegue imitar. A memória afetiva (e única) da cozinha familiar tornou-se, ela própria, objeto de desejo.
  • A segunda é o valor do artesanal. Um azulejo pintado à mão, uma bancada de pedra natural com as suas veias únicas, uma torneira de latão que ganha pátina com o tempo: são peças que não se encontram em qualquer lado e que sinalizam tempo, gosto e investimento.
  • A terceira é a sustentabilidade. Recuperar móveis antigos em vez de comprar novos deixou de ser uma questão de orçamento para passar a ser uma declaração de bom gosto. A reabilitação de peças antigas e a entrada da madeira natural são, de resto, das formas mais interessantes de cruzar tradição e modernidade: pegar no louceiro dos avós e fazê-lo conviver com soluções atuais.

Os ingredientes do novo luxo na cozinha

O regresso da cozinha tradicional não é um regresso ao passado tal e qual. No segmento alto, o que se faz é uma reinterpretação. O branco perde terreno para tons mais quentes. Os tons terrosos trazem aconchego, o amarelo ilumina, o bordô acrescenta sofisticação, os azuis acalmam. Depois, o azulejo com personalidade. Depois de anos de superfícies lisas e neutras, o azulejo volta como peça de afirmação, colorido, geométrico ou pintado à mão, e já não fica confinado ao backsplash: sobe pelas paredes e chega às próprias bancadas. Em Portugal isto carrega ainda outra camada de significado, porque o azulejo é património nacional, com uma história que remonta ao século XIII e que faz dele um símbolo da nossa cultura.

Há também o regresso dos metais quentes. O latão e os acabamentos dourados substituem o aço inox frio, e a pátina deixou de ser defeito para ser virtude, prova de que o material é nobre e de que a cozinha é vivida. A madeira e a pedra natural fazem a ponte entre conforto e identidade. A madeira encerada lembra as mesas de quinta; a pedra clara evoca os azulejos das cozinhas de antigamente.

Atenção, a cozinha de avó no luxo não é improviso nem desleixo nostálgico. A distância entre uma cozinha tradicional encantadora e uma cozinha simplesmente velha está na qualidade da execução, na coerência dos materiais e no equilíbrio, e estes elementos exigem critério.

cozinha boho
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Madalena Abecasis: o caso português que antecipou a tendência

Se há um exemplo nacional que ilustra esta mudança antes de ela se ter tornado mainstream, é o de Madalena Abecasis. Quando a influencer, uma das figuras mais seguidas do Instagram português, comprou e decorou a sua casa, fez uma escolha que, na altura, contrariava o que estava na moda. Quis fugir aos estilos mais em voga e apostou numa decoração clássica e vintage. As decisões eram claras e até provocadoras face ao gosto dominante: manteve alcatifa em toda a casa, restaurou móveis antigos (alguns deles da avó), pôs papel de parede em quase todas as divisões e fechou-se numa paleta de brancos e azuis.

O percurso imobiliário acompanha esta sensibilidade. Antes de mudar de casa, tinha investido a sério no espaço onde vivia: renovou divisões, construiu um jardim de inverno e fez uma cozinha nova por medida. E o argumento que usou para justificar a mudança diz tudo sobre o peso que a cozinha tem hoje na valorização de um imóvel. Disse, em resumo, que não ia perder a oportunidade de comprar uma casa de sonho só porque acabara de estrear cozinha, sublinhando que essa obra tinha valorizado a moradia. 

cozinha da avó
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Os ingredientes do novo luxo na cozinha

O regresso da cozinha tradicional não é um regresso ao passado tal e qual. No segmento alto, o que se faz é uma reinterpretação. O branco perde terreno para tons mais quentes. Os terrosos trazem aconchego, o amarelo ilumina, o bordô acrescenta sofisticação, os azuis acalmam. Depois, o azulejo com personalidade. Depois de anos de superfícies lisas e neutras, o azulejo volta como peça de afirmação, colorido, geométrico ou pintado à mão, e já não fica confinado ao backsplash: sobe pelas paredes e chega às próprias bancadas. Em Portugal isto carrega ainda outra camada de significado, porque o azulejo é património nacional, com uma história que remonta ao século XIII e que faz dele um símbolo da nossa cultura.

Há também o regresso dos metais quentes. O latão e os acabamentos dourados substituem o aço inox frio, e a pátina deixou de ser defeito para ser virtude, prova de que o material é nobre e de que a cozinha é vivida. A madeira e a pedra natural fazem a ponte entre conforto e identidade. A madeira encerada lembra as mesas de quinta; a pedra clara evoca os azulejos das cozinhas de antigamente.

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