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Cerco anti-corrupção mais apertado no imobiliário: “Investidores valorizam transparência nos negócios”

Entrevista com Pedro Lancastre, diretor-geral da JLL Portugal, sobre o Índice Global de Transparência Imobiliária 2020, no qual Portugal ocupa o 26º lugar.

Pedro Lancastre, diretor-geral da JLL Portugal / JLL
Pedro Lancastre, diretor-geral da JLL Portugal / JLL
Autor: Redação

“A transparência funciona assim como um íman de atração de investimento, servindo de critério comparativo entre os diferentes países”, considera Pedro Lancastre, diretor-geral da JLL Portugal, em entrevista ao idealista/news. E é por isto mesmo que a consultora internacional decidiu criar um Índice Global de Transparência Imobiliária (IGTI), que é publicado de dois em dois anos pela JLL e LaSalle. Portugal ocupa, na edição de 2020, a 26ª posição, com um score de 2,42, sendo o ranking liderado pelo Reino Unido (1,31) – EUA (1,35) e Austrália (1,39), por esta ordem, completam o pódio.

Mas o que significa isto de ser mais ou menos transparente e que impacto pode ter esta classificação no setor imobiliário nacional?  Segundo o responsável, as medidas anti-corrupção e outros crimes económicos e financeiros, associados ao imobiliário, que têm vindo a ser adotadas e reforçadas em Portugal nos últimos anos, “têm contribuído para melhorar a reputação do país”, até porque, no que diz respeito à transparência dos negócios, “os investidores valorizam precisamente que o cerco esteja mais apertado”.

Qual a importância de Portugal figurar bem posicionado no IGTI?

É de uma importância extrema, pois se há fator que pesa na decisão de investimento é a transparência dos mercados, sejam eles de que setor forem. A transparência funciona assim como um íman de atração de investimento, servindo de critério comparativo entre os diferentes países. Mas e o que significa ser-se cada vez mais transparente? Significa que existe cada vez mais informação sobre o setor imobiliário (sobre o volume de investimento, 'take-up' disponível, nível de rendas, comportamento dos preços, etc.) e que essa informação circula de forma relativamente uniforme, permitindo aos investidores ler os mercados com mais eficiência e segurança.

Por exemplo, se um investidor vier ter com a JLL, a informação que encontra será semelhante àquela que terá junto de outros 'stakeholders' do setor, uma vez que esta informação não está escondida, principalmente no que toca às transações comerciais. E isso é fundamental para os investidores, pois transmite-lhes confiança.

Que critérios pesam para que um país se posicione melhor ou pior neste índice?

O último índice elaborado pela JLL tem em consideração 210 indicadores, tendo este último ano incluído dados adicionais sobre sustentabilidade e resiliência, saúde e bem-estar, proptech e alternativos. O IGTI agrupa ainda o total das variáveis em seis sub-índices distintos nos quais os diferentes países são avaliados: desempenho do investimento; princípios fundamentais do mercado; administração de veículos listados, estruturas legais e de regulação; processos de transação e sustentabilidade ambiental.

[Na JLL, e de forma a reforçar a transparência na atividade] Estes fatores são relevantes, começando desde logo pela responsabilidade social 'corporate' no que respeita à sustentabilidade do setor, com foco nas certificações energéticas e nos edifícios "zero carbono". Por outro lado, a pandemia Covid-19 trouxe consigo grandes preocupações com os temas da saúde e bem-estar, por isso este ano as certificações 'Health and Welness' dos edifícios são ainda mais importantes. Já a resiliência dos ativos físicos imobiliários relaciona-se com os riscos climáticos associados à atividade do setor, que é motivo crescente de preocupação e, por isso, também foi tida em conta.

"Não podemos esquecer que as proptech têm contribuído, cada vez mais, para a transparência do setor, no sentido em que as ferramentas digitais e as técnicas de 'big data' beneficiam o volume de dados disponíveis no mercado imobiliário"

Além disso, não podemos esquecer que as proptech têm contribuído, cada vez mais, para a transparência do setor, no sentido em que as ferramentas digitais e as técnicas de 'big data' beneficiam o volume de dados disponíveis no mercado imobiliário. Por fim, é também importante incorporar os setores alternativos neste índice, pois existe uma relação positiva entre o aumento do investimento e a maior disponibilidade de dados nestes mercados.

As medidas anti-corrupção e outros crimes económicos e financeiros, associados ao imobiliário, que têm vindo a ser adotadas e reforçadas em Portugal nos últimos anos têm ajudado à reputação do país junto dos investidores? O que seria preciso fazer mais?

Sim, sem dúvida que essas medidas têm contribuído para melhorar a reputação do nosso país. Ainda há quem tenha aquela mentalidade de que Portugal fica mal visto pelo facto de pessoa x ou y estar a ser investigada por determinado delito, mas o que está verdadeiramente mal é não existir qualquer tipo de escrutínio ou investigação. No final de contas, os investidores valorizam precisamente que o cerco esteja mais apertado, no que respeita à transparência dos negócios. Mais confiança gera mais e melhores operações em Portugal, não só no setor imobiliário como em qualquer outro ramo de atividade.

Mas também é verdade que ainda há mais a fazer no setor imobiliário, ao nível da democratização dos dados. Por exemplo, no setor residencial, apesar das escrituras de compra e venda serem públicas, a consulta da informação atravessa um processo demasiado burocrático. Já nos EUA, por outro lado, é muito fácil saber quem é que vendeu um imóvel, a quem e a que preço, nos últimos 10 anos, o que permite a todos fazermos uma leitura muito mais rápida e fundamentada de uma determinada zona.

O atual contexto da pandemia pode afetar o nível de transparência imobiliária dos países? Como avalia o caso de Portugal neste âmbito?

Não acredito que a relação entre a pandemia e a transparência imobiliária seja negativa, pelo contrário. A digitalização que o setor está a atravessar, acelerada pela Covid-19, promove precisamente maior inovação e transparência, porque a informação tende cada vez mais a ser atualizada em real time.

Em climas de incerteza, em que a tomada de decisões é ainda mais difícil, quanto maior for a certeza (informação) que se tem sobre determinados cenários, menor é o risco. Estamos perante uma crise sem precedentes, por isso a transparência é essencial para facilitar o acesso ao máximo de informação possível sobre o dia de hoje e também sobre a forma como o setor se comportou em crises anteriores, o que permite aos investidores tomar decisões mais seguras.