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Aprender a (con)viver com o teletrabalho para vingar nos negócios e na carreira

Soluções para superar os novos desafios da pandemia. Tiago Borges, Career Business Leader na Mercer Portugal, aponta estratégias em entrevista ao idealista/news.

Photo by Standsome Worklifestyle on Unsplash
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Autores: Leonor Santos, Tânia Ferreira

Portugal foi um exemplo internacional na primeira vaga da Covid-19, pela positiva. Mas o cenário agravou-se e o país atravessa, nesta segunda vaga, um risco pandémico de alto nível, que obrigou à tomada de medidas mais apertadas, com efeitos na forma de viver e trabalhar da grande maioria dos portugueses. A partir de hoje mesmo, um total de 191 concelhos de Portugal continental estão em estado de emergência (saíram 7 e entram outros 77). Importa, mais do que nunca, saber como se pode tirar partido deste contexto que torna o teletrabalho obrigatório, na hora de gerir a carreira e fazer negócios. Não apenas para sobreviver, mas até para sair a ganhar. O idealista/news foi ouvir o que têm para dizer os especialistas em recursos humanos aos trabalhadores e às empresas.

O conceito de trabalho flexível, que já se estava a formar, é um dos pontos que veio colocar-se em evidência com a pandemia. "O local onde o trabalho é executado deixa de ter (tanta) relevância, sendo que os aspetos colaborativos do trabalho podem ser muitas vezes supridos com recurso a ferramentas tecnológicas”, explica Tiago Borges, Career Business Leader na Mercer Portugal, numa entrevista ao idealista/news. De acordo com o responsável, as organizações perceberam, mesmo que “obrigadas” pelo contexto, “que os níveis de produtividade podem manter-se ou até aumentar, e que os seus colaboradores têm genericamente a autonomia e as competências necessárias para estes novos modelos de trabalho”.

Tiago Borges, Career Business Leader na Mercer Portugal / Mercer
Tiago Borges, Career Business Leader na Mercer Portugal / Mercer

Quer isto dizer que os escritórios deixam de ser “o” sítio onde o trabalho é realizado, passando a representar “pontos de encontro para determinadas ocasiões que exijam uma componente presencial”, e também veículos de disseminação da cultura e valores da organização. O especialista da Mercer Portugal não tem dúvidas de que esta transformação traz “implicações profundas” para a generalidade das atividades, que se podem medir através de ganhos de produtividade - menos tempo em commuting, em deslocação para reuniões presenciais, etc.. -, mas também através dos desafios na gestão do “work life balance” e na separação entre a vida pessoal e profissional.

O telebrabalho e os desafios da atividade imobiliária

A crise sanitária e o teletrabalho trouxeram uma nova realidade de trabalho, para a atividade imobiliária e para as outras. Mas de que que forma irá impactar este setor, em particular? Na opinião de Tiago Borges, o novo contexto terá um impacto imediato em dois segmentos, a começar desde logo pelo segmento de escritórios, que “será profundamente impactado por esta mudança de paradigma”. O responsável antecipa que "possivelmente, assistiremos a uma diminuição da necessidade de espaços para escritórios, e a uma reconfiguração dos mesmos tendo em conta a mudança da função que lhe é atribuída".

Considera, de resto, que o segmento residencial “também será certamente afetado pela menor necessidade de deslocações casa-trabalho”, e pela maior valorização de espaços exteriores e de outras características, “que poderão levar os compradores a privilegiar outros critérios para a escolha da habitação, que não a distância do local de trabalho”.

Para o especialista da Mercer, é fundamental que as empresas consigam encontrar o equilíbrio entre o trabalho flexível “e garantir que as suas equipas continuam a encontrar os espaços próprios para um contacto mais presencial e colaborativo”. Só assim conseguirão “garantir que o trabalho remoto não danifique aspetos da cultura organizacional, que são cimentados por vivências e interações humanas que são mais desafiantes no contexto de teletrabalho”, defende.

Por outro lado, acredita que as organizações “devem capacitar os seus líderes a saber gerir as pessoas neste contexto”, e também repensar a forma como fazem a integração de novos colaboradores: “se as organizações não repensarem estes aspetos poderão ter dificuldades na gestão das suas pessoas no longo prazo”, sublinha.

Vantagens e desvantagens: eterno duelo que precisa de equilíbrio

O teletrabalho apresenta, como tudo, vantagens e desvantagens. Mas é no equilíbrio que reside a resposta para o eterno duelo de prós e contras. Para Tiago Borges, as desvantagens prendem-se, essencialmente, com a dificuldade em garantir que o trabalho remoto “não faz perigar a componente colaborativa relacionada com um conjunto de atividades, projetos, etc (apesar da cada vez maior capacidade das ferramentas tecnológicas), bem como a dificuldade de definir a fronteira entre a vida pessoal e profissional”. Ainda assim, e do outro lado lado da balança, considera que o teletrabalho poderá permitir a conciliação mais harmoniosa das responsabilidades profissionais e familiares, aumentar a produtividade e diminuir tempos de commuting.

Para um melhor equilíbrio entre estes dois mundos, o Career Business Leader da Mercer Portugal dá nota de duas dicas fundamentais: a definição clara de objetivos a cumprir para cada dia/semana, em articulação com as hierarquias de cada colaborador, e a definição de fronteiras claras para evitar a sensação de se estar sempre “ligado” (definição de horários limite, entre outros).

O responsável está, aliás, convencido que a flexibilidade e a valorização da responsabilidade individual vieram para ficar. Assim como o menor valor atribuído a reuniões presenciais. “Não voltaremos provavelmente a ter reuniões internas e externas presenciais, a não ser que exista uma vantagem e justificação clara para tal”, acredita, destacando que todas estas mudanças trazidas pela crise sanitária “alterarão definitivamente o paradigma das relações no contexto do trabalho”.