Morreu o arquiteto Filipe Lopes, antigo diretor de Reabilitação Urbana de Lisboa

Foi responsável pela recuperação e reconversão de vários bairros históricos da capital, bem como do Convento das Bernardas.
Arquitetos portugueses
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Lusa
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O arquiteto Filipe Lopes, antigo diretor municipal de Reabilitação Urbana de Lisboa, morreu esta segunda-feira (25 de maio de 2026), aos 93 nos, na capital portuguesa, disse à agência Lusa fonte da família.

Filipe Mário Lopes nasceu na cidade francesa de Armentières, em 1933, cresceu em Lisboa e formou-se em Arquitetura e Urbanismo pela Escola de Belas Artes de Paris e pelo Instituto do Urbanismo de Paris, da Sorbonne, em 1962.

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No regresso a Portugal, ainda na década de 1960, trabalhou no Gabinete do Plano da Região de Lisboa, na Direção-Geral de Urbanização, onde dinamizou um grupo de estudo de Planeamento, e na Câmara de Lisboa, cidade à qual dedicou grande parte da sua vida, como indica a biografia publicada nas páginas da Ordem dos Arquitetos.

Na sua ação, entre muitas outras, destaca-se a reabilitação de cerca de oito mil habitações nos bairros históricos, o esforço para o controlo da prática especulativa da venda de terrenos, a sua associação ao SAAL – Serviço de Apoio Ambulatório Local, que respondeu a necessidades habitacionais urgentes, no pós-25 de Abril, e a criação de faixas de rodagem exclusivas para os transportes públicos de Lisboa, em 1975, que não existiam até então.

Responsável pela recuperação e reconversão de bairros históricos em Lisboa

Casas em Lisboa
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Filipe Lopes foi diretor municipal de Reabilitação Urbana, de 1990 a 2000, responsável pela recuperação e reconversão dos bairros históricos (Alfama, Mouraria, Madragoa, Bairro Alto, Bica, Paço do Lumiar, Ameixoeira, Olivais Velho, Carnide, Pátios e Vilas), destacando-se, entre os derradeiros projetos a que esteve ligado, a recuperação do Convento das Bernardas, para habitação e serviços, no bairro da Madragoa.

Segundo a biografia da Ordem dos Arquitetos, "foi, sucessivamente, chefe da repartição do PDM [Plano Diretor Municipal], conseguindo a sua aprovação em 1974; diretor do departamento de Urbanismo da EPUL [Empresa Pública de Urbanização de Lisboa], criada por sugestão sua para contornar a prática especulativa sobre terrenos rurais da Câmara e poder construir habitação acessível; vice-presidente na comissão administrativa que orientou a gestão da cidade, responsável pelos pelouros de Habitação, Urbanismo, Espaços Verdes, Transportes e Saneamento; nos últimos dez anos de atividade, foi diretor municipal da Reabilitação Urbana, que organizou e dirigiu tecendo as linhas inovadoras de uma gestão descentralizada e integrada".

"Outra luta" sua, segundo a biografia da Ordem dos Arquitetos, "teve a ver com o valor patrimonial do edificado e o respeito pelas pré-existências e uso de técnicas e materiais de origem", tendo criado a associação Ofícios do Património e da Reabilitação Urbana, que teve como "caso emblemático" a preservação da integridade do Aqueduto das Águas Livres, quando foi ameaçado de um corte de mais de 200 metros para construção da CRIL.

Segundo a Ordem dos Arquitetos, no Planeamento, Filipe Lopes "foi inovador na abordagem" interdisciplinar; "na Reabilitação Urbana, desenvolveu e aplicou à realidade dos bairros o conceito de transdisciplinariedade, levando as equipas no terreno a integrar a intervenção da população, que trazia o conhecimento das suas necessidades".

"A integração das variáveis ambientais, sociais, económicas e culturais, através dos conhecimentos e usos preexistentes no território, foi uma constante da sua muito desenvolvida cultura humanística", sublinha a biografia.

No ensaio "Filipe Lopes. Um arquiteto de Abril", a socióloga Ana Drago e o arquiteto Ricardo Santos destacam este aspeto: "A formação em Arquitetura e Urbanismo em Paris (1962), o contacto com modelos e estudos de planeamento internacionais, o trabalho realizado para o PDM ainda antes do 25 de Abril e a preparação das bases para a criação da EPUL (em dezembro de 1971), juntamente com a formação política e a participação no movimento do catolicismo progressista que se seguiu ao Concílio Vaticano II, deram a Filipe Lopes um conjunto de ferramentas e uma consciência social que, no contexto do PREC", lhe permitiram apresentar "uma proposta inovadora para a reestruturação dos serviços" da Câmara de Lisboa, "não apenas a criação de novos serviços de habitação e urbanismo, para responder aos graves problemas habitacionais, como também a constituição de uma nova estrutura administrativa".

Luta em prol de problemas relacionados com habitação, mobilidade e ambiente  

"O seu profundo conhecimento da cidade, das suas dinâmicas e da relação de interdependência com os concelhos limítrofes, permitiu a Filipe Lopes antecipar uma série de políticas, hoje em vigor, sobre a necessidade de uma visão integrada entre os diversos municípios da área metropolitana para a resolução dos problemas relacionados com a habitação, a mobilidade e o ambiente. Nesse contexto, sublinhamos a sua proposta de descentralização, e partilha de poderes entre autarquias, e a resolução de problemas comuns nas zonas de contacto da cidade com os concelhos da sua cintura metropolitana", escrevem os dois investigadores, num trabalho que se prende em particular com os SAAL, na cidade.

"Filipe Lopes dedicou a vida à cidade de Lisboa", escrevem Ana Drago e Ricardo Santos, lembrando que, com a socióloga Bárbara Lopes, sua mulher, o arquiteto realizou, ainda nos anos 1960, os primeiros estudos de Sociologia Urbana da cidade.

“As pessoas são pessoas quando têm relação com outros, de outra maneira são indivíduos. Uma ideia política qualquer desenvolve-se num grupo, não numa pessoa isolada"
Filipe Lopes, em entrevista à Lusa concedida em junho de 2025

Em entrevista à agência Lusa, em junho do ano passado, a propósito do projeto do Convento das Bernardas, Filipe Lopes recordou que o trabalho nos bairros históricos de Lisboa foi “uma luta, uma luta, uma luta”, mas os objetivos iniciais foram todos cumpridos graças à "legislação extremamente potente" que se mantinha, um quadro legislativo com raízes no regime estabelecido por Nuno Portas (secretário de Estado da Habitação e Urbanismo nos três primeiros governos provisórios, 1974-1975), no seu modo de pensar a cidade e na "força revolucionária" que ainda existia.

À Lusa, contou que este trabalho foi feito em resposta às reivindicações dos moradores, porque ele e as suas equipas perceberam desde cedo que “as pessoas não queriam sair de lá, queriam obras, mas não queriam sair” dos bairros, pois estavam integradas numa “comunidade que tem a sua raiz, a sua identidade, a sua personalidade”.

“As pessoas são pessoas quando têm relação com outros, de outra maneira são indivíduos. Uma ideia política qualquer desenvolve-se num grupo, não numa pessoa isolada", afirmou então, concluindo: "E isso é a tendência atual do mundo moderno, tornar-nos em indivíduos, não pessoas, cortar tudo o que é relação entre as pessoas”.

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