Esta casa impressa em 3D em Itália é um modelo para o futuro

Mostramos os detalhes deste projeto de construção e habitação sustentável e certificada com impressão 3D e materiais naturais.
casa impressa 3D
WASP
Flavio Di Stefano
Flavio Di Stefano

A WASP concluiu a impressão 3D de Ítaca, em Itália, a primeira construção 3D certificada em Itália, no interior de Shamballa, o laboratório a céu aberto da WASP dedicado à vida sustentável, nas colinas da Emília-Romanha. E trata-se de uma habitação completamente ecossustentável. Descubramos todos os detalhes do projeto.

O projeto

O projeto Ítaca foi anunciado pela primeira vez por Massimo Moretti, fundador e presidente da WASP, na Italian Tech Week de Turim, apresentado como a iniciativa da WASP para desenvolver uma quinta autossuficiente e modelo habitacional impresso em 3D, assente numa microeconomia circular. O objetivo do projeto é estabelecer um novo paradigma para a construção sustentável, facilmente replicável em todo o mundo, graças à rápida transmissão de informação proporcionada pela tecnologia de impressão 3D e à utilização da Crane WASP, uma máquina versátil e acessível, capaz de operar mesmo em zonas remotas.

Publicidade

Um dos principais objetivos na base da construção de Ítaca era o de realizar um edifício impresso em 3D que respeitasse os mesmos padrões das estruturas tradicionais, incluindo a resistência sísmica, em conformidade com as normas italianas e europeias. Considerando os exigentes requisitos regulamentares de Itália, sendo uma região fortemente sujeita a atividade sísmica, obter a certificação em condições tão rigorosas demonstra o potencial do modelo para ser replicado na maior parte das regiões do mundo.

casa impressa 3D
WASP

O modelo de construção

A construção de Ítaca foi realizada pela WASP 3D Build, a startup inovadora da WASP dedicada à construção impressa em 3D através do sistema Crane WASP. Ítaca é a primeira estrutura impressa em 3D a tomar forma em Shamballa, o laboratório a céu aberto da WASP dedicado à vida sustentável, inserido entre as colinas da Emília-Romanha.

A construção de Ítaca foi realizada utilizando uma nova configuração do sistema Crane WASP, que prevê quatro braços robóticos posicionados nos vértices de uma estrutura hexagonal. Esta configuração permite a impressão simultânea de quatro secções de parede, acelerando significativamente o processo de construção. Trabalhando em simultâneo, os quatro braços conseguem completar o invólucro estrutural de uma casa em apenas alguns dias.

A estrutura

Inspirado na geometria de um Mandala, o layout de Ítaca consiste num quadrado inscrito num círculo. O design prevê quatro paredes principais situadas nos cantos do quadrado, cada lado com uma abertura central. A superfície total é de 164,9 metros quadrados (m2), enquanto cada parede, com uma altura de 380 cm, requer cerca de 24 horas para ser impressa.

As paredes foram impressas utilizando uma mistura à base de cal, isenta de cimento, escolhida pelas suas emissões de carbono inferiores em relação ao cimento tradicional, respeitando ao mesmo tempo os elevados padrões de desempenho exigidos para uma construção segura e duradoura. A mistura à base de cal foi também selecionada pela sua elevada transpirabilidade, que permite às paredes autorregular de forma mais eficaz a temperatura e evitar a formação de bolor nas superfícies.

casa impressa 3D
WASP

Um modelo sustentável

No interior das cavidades resultantes da geometria de impressão das paredes, serão inseridas uma série de colunas de reforço para aumentar a integridade estrutural, garantir a conformidade com as normas antissísmicas e suportar a carga do telhado. Para melhorar a regulação térmica e a eficiência energética, as paredes foram projetadas com uma espessura significativa, entre 60 e 70 cm, e as suas cavidades de impressão serão preenchidas com casca de arroz proveniente de resíduos da cadeia agroalimentar e pó de cal natural. Esta abordagem permite criar um isolamento incorporado nas paredes em vez de aplicado no exterior, dando origem a uma casa passiva.

O sistema de cavidades das paredes foi projetado para torná-las ventiladas, contribuindo para a regulação da temperatura interior, a redução das necessidades energéticas e a diminuição das emissões associadas aos sistemas de aquecimento e arrefecimento. A estrutura integra, além disso, sistemas de aquecimento radiante e instalações elétricas, inseridos diretamente durante o processo de impressão, eliminando a necessidade de intervenções posteriores à construção.

Isto inclui o aquecimento, a cablagem elétrica e o isolamento. Além disso, graças ao sistema de ventilação integrado na alvenaria, o ar pode ser distribuído de forma eficaz no interior dos espaços, transformando o edifício numa casa "viva", capaz de respirar, com a possibilidade de difundir substâncias higienizantes no ar, contribuindo adicionalmente para a melhoria da sua qualidade.

Combinando os materiais de construção selecionados com materiais isolantes naturais provenientes de resíduos da cadeia produtiva, o impacto ambiental das paredes reduz-se drasticamente, até atingir um balanço negativo de emissões de CO₂. Nos territórios em que a regulamentação o permite, o mesmo módulo arquitetónico de Ítaca pode ainda ser realizado utilizando terra como material de construção, contribuindo adicionalmente para a redução do impacto ambiental global do edifício.

casa impressa 3D
WASP

Desenvolvimentos futuros

O projeto Ítaca não se concentra exclusivamente na construção de um edifício, mas também nas soluções inovadoras adotadas para a gestão do terreno circundante. Estas medidas visam permitir uma utilização inteligente e sustentável dos recursos locais, com o objetivo final de criar uma microeconomia circular capaz de sustentar a vida humana no respeito pelo ambiente. Partindo desta visão, o projeto abraça uma abordagem holística à regeneração ambiental e ao design sustentável.

No terreno exterior foram construídos dois reservatórios de recolha de água da chuva para favorecer a recuperação hídrica, controlar a erosão do solo e apoiar as culturas. A intervenção permitiu intercetar e reter a água numa área anteriormente sujeita a escoamento rápido e a forte seca estival, transformando os reservatórios em biolagos utilizados para irrigação. Este processo contribuiu para converter uma área de monocultura num ambiente de elevada biodiversidade.

No âmbito da iniciativa de reflorestação e agroflorestação destinada a restaurar a biodiversidade, serão plantadas mais de 500 árvores e 50.000 plantas aromáticas e medicinais na área circundante. Um jardim automático alimentado por inteligência artificial, atualmente em fase de desenvolvimento, será integrado no espaço de Shamballa.

Esta ferramenta foi concebida para favorecer a colaboração entre o ser humano e a máquina, simplificando e otimizando o processo de cultivo de um pequeno terreno ao longo de todo o ano. O sistema maximiza a utilização do espaço limitado e melhora a acessibilidade, reduzindo o esforço físico tipicamente necessário para manter uma horta tradicional. A completar o projeto, serão instalados uma série de sistemas hidropónicos verticais impressos em 3D para garantir legumes frescos durante todo o ano, utilizando uma quantidade mínima de água.

Na cobertura de Ítaca serão instalados um telhado verde e um sistema de painéis solares, para garantir isolamento e redução dos custos energéticos, além de favorecer a biodiversidade urbana. No interior da quinta será criado um laboratório dedicado à extração de princípios ativos das plantas e à investigação biológica, utilizando tecnologias avançadas para aproveitar plenamente os recursos cultivados no espaço de Shamballa.

Para poder comentar deves entrar na tua conta