“Imobiliário tem um papel central na promoção de coberturas verdes”

Isabella Costa, coordenadora executiva da Associação Nacional de Coberturas Verdes (ANCV) em entrevista ao idealista/news.

A preocupação com a sustentabilidade está a transformar o setor da construção e o futuro das cidades. Num mercado imobiliário cada vez mais atento à necessidade de dar resposta aos desafios ambientais, as coberturas verdes começam também a ser vistas como um fator de valorização dos edifícios e de diferenciação dos projetos urbanos. Mais do que uma tendência estética, estas soluções destacam-se como um elemento diferenciador, capazes de aumentar a eficiência energética dos edifícios, melhorar o conforto térmico e acrescentar valor ao património imobiliário.

Ao mesmo tempo, as cidades enfrentam desafios crescentes relacionados com as alterações climáticas, as ondas de calor e/ou eventos extremos de precipitação, a impermeabilização dos solos, a poluição e a perda de biodiversidade. Neste cenário, as coberturas verdes surgem como uma resposta baseada na natureza, conciliando benefícios ambientais, urbanos e económicos, tal como explica Isabella Costa, coordenadora executiva da Greenroofs - Associação Nacional de Coberturas Verdes (ANCV), em entrevista ao idealista/news, no âmbito do SIL 2026.

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A ANCV defende a vegetação como material obrigatório de construção, apontando várias vantagens, desde a redução do efeito de “ilha de calor”, a retenção de águas pluviais, a melhoria da qualidade do ar e a promoção da biodiversidade urbana. Apesar de a utilização de vegetação em edifícios remontar à Antiguidade - dos Jardins Suspensos da Babilónia às tradicionais coberturas verdes em várias regiões do mundo -, o conceito ganhou nova relevância nas últimas décadas, acompanhando a crescente aposta em cidades mais resilientes, sustentáveis e eficientes. 

Este tipo de infraestruturas pode ser instalado em edifícios novos ou pré-existentes, com maiores ou mais baixos níveis de manutenção. Além disso, se bem projetada, e mantida, a cobertura consegue estender em pelo menos duas a três vezes o seu tempo de vida normal. De acordo com a Greenroofs, em vários sítios do mundo, inclusive em território nacional, há coberturas verdes funcionais com mais de 50 anos.

Estas soluções já fazem parte das estratégias urbanísticas e ambientais de vários países europeus, sendo incentivadas e, em alguns casos, obrigatórias – é o exemplo de Copenhaga. Em Portugal, apesar de existirem exemplos de referência e um interesse crescente por parte do setor, a adoção destas soluções continua ainda limitada. Falta sensibilização, conhecimento técnico e incentivos, segundo Isabella Costa.

Para a responsável, promotores e investidores imobiliários podem desempenhar um papel determinante na promoção das coberturas verdes, uma vez que estão diretamente envolvidos no planeamento e construção de projetos, além de ligados à inovação que pode dar impulso ao setor. 

coberturas verdes
Isabella Costa, coordenadora executiva da ANCV idealista/news


Quem é e o que faz a Associação Nacional de Coberturas Verdes em Portugal?

A Associação Nacional de Coberturas Verdes (ANCV) é uma organização não-governamental ambiental, sem fins lucrativos, comprometida com a promoção das infraestruturas verdes nas cidades, nomeadamente coberturas e paredes verdes, enquanto soluções baseadas na natureza. 

A nossa missão passa por promover estas infraestruturas a nível nacional e internacional, através de uma rede colaborativa que envolve municípios, empresas, instituições de ensino e investigação e a sociedade civil.

Quais são os principais benefícios das coberturas verdes para as cidades, tanto do ponto de vista ambiental como urbano?

As coberturas verdes promovem diversos serviços ecossistémicos e trazem benefícios públicos e privados para as cidades. Entre os principais benefícios, podemos destacar a melhoria da qualidade do ar, o aumento do conforto térmico e do isolamento dos edifícios, a promoção da biodiversidade urbana e o reforço do bem-estar da população. 

Estas soluções ajudam, no fundo, a trazer a natureza de volta às cidades, o que é extremamente importante. Além disso, as coberturas verdes também contribuem para a valorização imobiliária dos edifícios e para a redução dos consumos energéticos.

As coberturas verdes também contribuem para a valorização imobiliária dos edifícios e para a redução dos consumos energéticos.

coberturas verdes
Magnific

E quais são, atualmente, os principais obstáculos à adoção mais generalizada das coberturas verdes em Portugal?

Penso que os principais desafios passam, antes de mais, pela sensibilização da sociedade relativamente aos benefícios destas soluções. Existe também alguma falta de conhecimento técnico nas áreas do projeto, construção e manutenção de coberturas verdes. Para além disso, ainda sentimos a ausência de mais políticas públicas e incentivos que promovam este tipo de infraestruturas.

Falando precisamente desses incentivos, que tipo de apoios considera que deveriam existir? E já existem alguns exemplos em Portugal?

Em Portugal, os incentivos existentes surgem sobretudo ao nível municipal. Há municípios como Valongo, Sintra, Barreiro e Maia que já incluem nos seus regulamentos incentivos para a implementação destas soluções, nomeadamente através de isenções de taxas ou benefícios associados à construção sustentável. Ainda assim, considero que existe margem para reforçar estas políticas e criar mecanismos de apoio mais abrangentes.

Em Portugal, os incentivos existentes surgem sobretudo ao nível municipal. Há municípios como Valongo, Sintra, Barreiro e Maia que já incluem nos seus regulamentos incentivos para a implementação destas soluções

Consegue dar alguns exemplos de projetos de coberturas verdes em Portugal e também referências internacionais?

Existem vários bons exemplos que podem servir de inspiração tanto para municípios como para investidores e promotores imobiliários. Em Lisboa, podemos destacar a ETAR de Alcântara, construída em 2011, que integra cerca de três hectares de coberturas verdes. 

Na região Norte, um dos exemplos mais conhecidos é a Praça de Lisboa, no Porto, [entre a Livraria Lello e a Torre dos Clérigos] que combina comércio, lazer e valorização do património cultural da cidade, sendo hoje um espaço muito visitado. A nível internacional, podemos referir projetos como o CopenHill, em Copenhaga, e o Bosco Verticale, em Milão.

Bosco Verticale, Milão
Bosco Verticale, Milão Magnific


Qual deve ser o papel das empresas e dos cidadãos na promoção das coberturas verdes? E sente que os promotores imobiliários já estão sensibilizados para esta questão?

Acredito que esta mudança tem de acontecer através do trabalho conjunto de todos os sectores: municípios, empresas, sociedade civil, instituições de investigação e ensino. No caso das empresas, sobretudo investidores e promotores imobiliários, o papel é central, porque são eles que promovem, implementam e fazem a manutenção destas soluções. Além disso, também estão por trás da inovação no setor.

Por outro lado, a sociedade tem igualmente um papel importante na sensibilização para a importância da qualidade ambiental e do impacto que ela tem na qualidade de vida nas cidades. Creio que a comunidade pode tornar-se um verdadeiro motor deste mercado, que está em crescimento em Portugal.

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