A ideia de que é preciso construir mais casas em Portugal para dar resposta à crise na habitação não é de agora, bem como a de que há muitos imóveis vazios e/ou devolutos que podem ser reabilitados, aumentando, assim, a oferta de casas no mercado. Mas a construção é, também, um setor em constante mudança, com temas como a descarbonização, sustentabilidade, eficiência energética, metodologia Building Information Modelling (BIM) e alterações climáticas na ordem do dia. “O setor está a tornar-se muito mais complexo e com menos margem para erros”, diz ao idealista/news José Coutinho, Chief Underwriting Officer da Zurich Portugal.
O especialista considera, entre outras coisas, que se caminha “para uma construção que exige muito mais planeamento e um foco total na prevenção”, sendo a resiliência "um requisito para que os projetos avancem”. Em jeito de alerta, José Coutinho antecipa que o setor, que sempre foi um motor de desenvolvimento económico, será também, “na próxima década, um teste à capacidade de construir de forma mais resiliente, sustentável e preparada para o futuro”.
Estes são alguns dos temas abordados no mais recente estudo global da Zurich Insurance Group “Beyond 2030: The Future of Construction”, que será divulgado em breve pela seguradora e que serviu de mote a esta conversa com o idealista/news. De acordo com o Chief Underwriting Officer da Zurich Portugal, o relatório indica que a construção “está a entrar numa nova era definida por uma convergência de riscos – alterações climáticas, escassez de mão de obra, disrupção digital e volatilidade financeira – que estão a transformar a forma como os projetos são planeados, financiados e entregues em todo o mundo”.
O estudo global da Zurich Insurance Group “Beyond 2030: The Future of Construction” será divulgado em breve. Que conclusões há a retirar que tenham impacto no setor da construção e do imobiliário?
O relatório resulta de uma análise aprofundada, que recolheu os contributos de 31 especialistas globais, para mapear os riscos que estão a moldar o setor da construção. A principal conclusão é que o setor está a entrar numa nova era definida por uma convergência de riscos que estão a transformar a forma como os projetos são planeados, financiados e entregues em todo o mundo: alterações climáticas, escassez de mão de obra, disrupção digital e volatilidade financeira.
Embora o estudo seja global, as tendências que identifica são aplicáveis à realidade portuguesa. Pensemos, por exemplo, na crescente frequência de cheias e inundações ou de ondas de calor com secas severas. Isto não só afeta a segurança e a produtividade dos colaboradores durante a construção, mas também nos obriga a repensar os próprios edifícios que, tradicionalmente, foram desenhados para reter calor e não para o dissipar. O risco de incêndio e a gestão da água tornam-se fatores críticos na escolha de materiais e no design de qualquer projeto.
A principal conclusão para o mercado é, por isso, muito clara: a “segurabilidade” tornou-se o indicador principal da viabilidade de um projeto. Se um projeto não demonstrar que é resiliente a estes riscos específicos e, portanto, não for segurável, dificilmente encontrará financiamento para avançar.
O que está a mudar no setor da construção? Para onde se caminha?
O setor da construção está a tornar-se muito mais complexo e com menos margem para erros. Antigamente, a principal preocupação era a fase da obra em si. Hoje, os problemas surgem muito mais cedo e um projeto pode falhar antes mesmo de começar, simplesmente porque não há garantia de que terá eletricidade ou água suficientes disponíveis.
Além disso, os projetos são hoje como um puzzle. Uma falha numa única “peça” – seja um material, uma tecnologia ou uma equipa – pode criar um efeito dominó e comprometer todo o projeto. Por fim, os prazos estão mais curtos e os financiamentos são mais rigorosos. Isto significa que um pequeno atraso, que antes seria fácil de gerir, hoje pode rapidamente transformar-se num grave problema financeiro.
"O setor da construção está a tornar-se muito mais complexo e com menos margem para erros (...). Caminhamos para uma construção que exige muito mais planeamento e um foco total na prevenção"
Caminhamos para uma construção que exige muito mais planeamento e um foco total na prevenção. A palavra de ordem é “resiliência”: construir edifícios mais robustos e mais bem preparados para todos estes novos desafios. A resiliência já não é um “nice to have”, é um requisito para que os projetos avancem. Vemos isso em várias dimensões:
- A exposição climática e a disponibilidade de recursos influenciam onde os projetos são localizados e como são concebidos;
- As escolhas de materiais e os padrões de conceção são definidos com base na sua durabilidade e no desempenho ao longo de todo o ciclo de vida;
- O próprio acesso a financiamento e a seguro depende cada vez mais da capacidade de demonstrar que o projeto consegue operar num contexto mais volátil.
Em termos simples, se um projeto não prova que é resiliente, arrisca-se a enfrentar custos mais elevados, atrasos significativos ou a não sair do papel.
Está a verificar-se uma espécie de mudança de paradigma no setor, havendo uma convergência de riscos – combina eventos climáticos, escassez de mão de obra e dependência digital – que torna os projetos imobiliários estruturalmente mais frágeis?
Sim. A fragilidade não advém de cada um destes riscos individualmente, uma vez que a maioria já existia de forma isolada, mas da sua interligação. Eles potenciam-se mutuamente: a escassez de mão de obra acelera a automação; a automação aumenta a dependência de sistemas digitais e o risco cibernético; a volatilidade climática, como as ondas de calor, pode paralisar uma obra que já opera com um cronograma apertado; e os novos modelos de financiamento, menos tolerantes, transformam qualquer pequeno atraso numa crise financeira.
É esta rede de interdependências que cria um “efeito dominó”, no qual uma pequena falha pode escalar rapidamente, tornando os projetos mais vulneráveis, apesar de toda a tecnologia que incorporam. Ao mesmo tempo, este contexto está a acelerar uma mudança de paradigma: os projetos que incorporam resiliência desde a conceção – através de prevenção, melhor planeamento e maior robustez – estão a reduzir custos, a evitar atrasos e a ganhar viabilidade, ficando claramente melhor posicionados para prosperar neste novo ambiente.
As organizações que irão liderar neste cenário são aquelas que conseguem reunir estes elementos: antecipam limitações antes de se tornarem problemas, concebem projetos já com essas realidades em mente e integram a resiliência nas decisões desde o primeiro dia. Isso exige uma abordagem muito mais integrada, que ligue engenharia, gestão de risco, financiamento e operações de forma deliberada. No fundo, é a capacidade de pensar de forma holística que irá definir a próxima geração de empresas de construção bem-sucedidas.
Como pode o setor da construção adaptar-se para responder aos desafios climáticos?
É verdade que muitas cidades e edifícios foram desenhados para reter calor e proteger do frio. Mas o clima para o qual foram concebidos já não existe. A adaptação exige uma reavaliação completa do design e dos materiais. Não se trata apenas de instalar mais ar condicionado, trata‑se de projetar para a resiliência. Isso significa utilizar novos materiais, fachadas multicamada, estruturas híbridas e sistemas de energia integrados que se comportem de forma fiável sob stress térmico, garantindo conforto, segurança e continuidade de operação mesmo em ondas de calor prolongadas.
"Não basta que um edifício resista a uma onda de calor ou a uma inundação, é essencial garantir que, após o evento, os sistemas possam ser inspecionados, acedidos e reparados de forma eficiente. Um design que não contemple a reparação futura pode transformar‑se num problema financeiro e de segurabilidade"
Há ainda um ponto muitas vezes esquecido: a “reparabilidade”. Não basta que um edifício resista a uma onda de calor ou a uma inundação, é essencial garantir que, após o evento, os sistemas possam ser inspecionados, acedidos e reparados de forma eficiente. Um design que não contemple a reparação futura pode transformar‑se num problema financeiro e de segurabilidade.
Como contornar o problema da falta de mão de obra qualificada na construção?
Como o nosso relatório sublinha, a construção não enfrenta apenas uma escassez de mão de obra, mas uma escassez de competências. O envelhecimento da força de trabalho, regimes de migração mais restritivos e a crescente complexidade técnica estão a diminuir o número de profissionais capazes de executar projetos de infraestruturas cada vez mais elaborados.
A abordagem para resolver este problema deverá ser multifacetada. A curto prazo, a solução passa por um planeamento muito mais rigoroso, tratando a mão de obra como um recurso crítico e não como um custo flexível, garantindo atempadamente os especialistas certos. A médio prazo, a automação e a pré-fabricação são estratégias de sobrevivência, como lhes chamamos no relatório, pois reduzem a dependência do trabalho no local. Adicionalmente, ao criar funções menos exigentes do ponto de vista físico, o setor pode atrair um leque mais vasto de profissionais. A longo prazo, a solução exige uma reforma sistémica dos modelos de formação e aprendizagem para colmatar o fosso entre as vagas existentes e os profissionais qualificados. O desafio não é apenas de número, mas de competência, pois a crescente digitalização exige novas e mais sofisticadas aptidões.
Uma das medidas apontadas para dar resposta à crise na habitação e aumentar a oferta de casas passa pela aposta na construção nova e pela reabilitação de património devoluto. Concorda com esta visão? Por onde se deve começar?
A abordagem de atuar em duas frentes – construção nova e reabilitação – responde de facto à necessidade de aumentar a oferta de habitação. O nosso relatório oferece uma perspetiva técnica sobre os riscos e oportunidades de cada uma destas abordagens. Do ponto de vista da sustentabilidade, por exemplo, o relatório indica que a reabilitação pode reduzir a pegada de carbono de um edifício em até 75% comparativamente a uma construção de raiz. Contudo, foi também verificado que, ao integrar tecnologias modernas em estruturas antigas, a reabilitação introduz riscos como os de incêndio, danos por água ou dificuldades de acesso para manutenção.
"Independentemente de se construir de novo ou reabilitar, é importante garantir que o resultado será durável, seguro e adaptado aos desafios climáticos e técnicos do futuro"
A nossa análise sugere, portanto, que o princípio orientador para ambas as vias deve ser a integração dos conceitos de resiliência e “segurabilidade” desde a fase mais inicial do projeto. Assim, independentemente de se construir de novo ou reabilitar, é importante garantir que o resultado será durável, seguro e adaptado aos desafios climáticos e técnicos do futuro.
Entre as medidas anunciadas pelo Governo, como a redução do IVA na construção para 6%, quais lhe fazem mais sentido? Há alguma com a qual não concorda? Ficou alguma “na gaveta”?
Qualquer medida que contribua para aumentar a oferta de habitação de forma sustentada merece atenção. A redução do IVA pode ajudar a melhorar a viabilidade económica de alguns projetos e criar condições para novos investimentos. No entanto, o principal desafio continua a estar na previsibilidade e rapidez dos processos administrativos. Licenciamentos mais céleres, digitalização dos procedimentos, estabilidade regulatória e maior coordenação entre entidades públicas podem ter um impacto estrutural mais significativo.
Se tivesse de acrescentar uma prioridade, destacaria o investimento na qualificação profissional e modernização tecnológica do setor, porque a falta de capacidade de execução é dos principais constrangimentos ao crescimento.
Qualidade Vs rapidez, que caminho se está a seguir na construção?
O setor está, claramente, a seguir o caminho da rapidez, mas é uma rapidez que acarreta riscos significativos. O nosso relatório chama a isto a “armadilha da aceleração”: a aceleração deixou de ser exceção e tornou-se a postura padrão de entrega na construção. Choques de inflação, pressão do capital e tensões geopolíticas empurram muitos projetos para um modo de resposta a crises, comprimindo prazos para proteger a viabilidade comercial e manter o ritmo.
"Devido à pressão dos custos e dos prazos, as obras estão a começar antes de o planeamento estar 100% fechado. Começa-se a construir antes de os projetos das diferentes especialidades (eletricidade, águas, etc.) estarem finalizados e coordenados, ou antes de os materiais estarem testados e garantidos"
Na prática, significa que, devido à pressão dos custos e dos prazos, as obras estão a começar antes de o planeamento estar 100% fechado. Começa-se a construir antes de os projetos das diferentes especialidades (eletricidade, águas, etc.) estarem finalizados e coordenados, ou antes de os materiais estarem testados e garantidos.
Isto elimina todas as “folgas” e margens de segurança. Um pequeno problema, que antigamente seria simples de resolver – como um atraso na entrega de um material ou uma pequena alteração no projeto –, agora transforma-se rapidamente numa crise dispendiosa, porque não há tempo para ajustar o plano. É preciso parar e, muitas vezes, refazer o que já estava feito.
Que garantias ou cuidados extra deve ter um comprador ao analisar um projeto construído em tempo recorde para assegurar que a qualidade não foi posta em causa em nome da rapidez?
Perante um projeto construído de forma acelerada, um comprador deve procurar garantias de qualidade que vão para além da aparência. Um dos indicadores mais fiáveis é a existência de uma boa apólice de seguro para o projeto, como um seguro de construção ou um seguro decenal, pois significa que especialistas de risco já validaram a qualidade do processo.
Outro aspeto crucial é perceber se o design foi pensado para o futuro, ou seja, se os sistemas críticos como canalizações e eletricidade são de fácil acesso para manutenção, evitando reparações dispendiosas e destrutivas mais tarde. Por fim, um processo rápido, mas de qualidade, distingue-se pela entrega de documentação técnica completa e organizada, que demonstra que a obra foi metódica e profissional, e não apenas apressada.
Face aos riscos climáticos, que fragilidades na construção podem comprometer o seguro de uma casa? E que inovações em design e materiais podem garantir a sua resiliência?
Os fenómenos climáticos estão a aumentar a importância de aspetos como localização, proteção contra inundações, resistência ao vento, drenagem, impermeabilização e exposição a incêndios rurais.
Quando um imóvel apresenta vulnerabilidades significativas nestas áreas, o risco é maior e isso pode refletir-se no custo do seguro ou nas condições de cobertura. Por outro lado, edifícios mais resilientes tendem a apresentar melhor perfil de risco. A melhor apólice continua a ser uma construção preparada para resistir aos riscos.
Por falar em inovação e tecnologia na construção, o Governo avançou com a nova Estratégia Nacional para a Implementação da Metodologia BIM. O que traz de novo o BIM?
O Building Information Modeling (BIM) é uma metodologia que permite criar uma réplica digital das características físicas e funcionais de um edifício ou de uma infraestrutura. A grande novidade é que deixa de ser apenas um desenho ou um modelo 3D: passa a ser um sistema vivo de informação, onde conseguimos cruzar design, planeamento, operação e manutenção.
"A desvantagem do BIM não está na tecnologia em si, mas na implementação, ou seja, na capacidade de tirar partido de todo o seu potencial. O risco é que este modelo digital se torne num mero registo estático após a entrega da obra, porque os responsáveis pela mesma não têm as competências para o utilizar"
A sua grande vantagem, como reconhecemos no estudo, é a capacidade de identificar conflitos de design, sequenciar riscos e detetar vulnerabilidades antes da obra começar, melhorando a sua eficiência. Isto permite reduzir erros, evitar retrabalho, melhorar a coordenação entre disciplinas e, no limite, aumentar a segurança e a eficiência dos projetos. Em contextos de maior complexidade e pressão de prazos, esta capacidade de antecipação é crítica.
A desvantagem não está na tecnologia em si, mas na implementação, ou seja, na capacidade de tirar partido de todo o seu potencial. O risco é que este modelo digital se torne num mero registo estático após a entrega da obra, porque os responsáveis pela mesma não têm as competências para o utilizar. Nesse caso, o BIM deixa de ser um sistema útil de apoio à decisão e os seus benefícios perdem-se.
Descarbonização e sustentabilidade na construção: Portugal está no bom caminho?
Portugal, como outros países europeus, está no caminho certo ao priorizar a sustentabilidade. No entanto, é preciso ter atenção a um ponto crítico: a sustentabilidade tem de andar de mãos dadas com a resiliência. Estamos a presenciar uma aposta crescente em materiais ecológicos e soluções de maior eficiência energética, o que é positivo. Mas é preciso garantir que esta transição não traz novos riscos. Existe a tentação de aplicar em massa um novo material ou tecnologia "verde" antes de sabermos, com certeza, como irá reagir daqui a 20 ou 30 anos. O ideal é testar primeiro estas inovações em projetos-piloto, aprender com o seu desempenho e só depois expandir o seu uso em larga escala.
Quer acrescentar um comentário ou deixar uma mensagem final?
O setor da construção sempre foi um motor de desenvolvimento económico. Na próxima década, será também um teste à capacidade de construir de forma mais resiliente, sustentável e preparada para o futuro. Também os riscos de que falámos são uma realidade muito concreta em Portugal. Neste contexto, a própria natureza do seguro evolui. A análise de risco, que é a base da atividade seguradora, deixa de servir apenas para calcular um prémio e passa a funcionar como um mecanismo de prevenção. Ao identificar as fragilidades de um projeto antes deste ser construído, a engenharia de risco torna-se uma ferramenta de proteção. A grande vulnerabilidade de Portugal, visível no facto de apenas uma em cada cinco casas estar segura contra sismos, mostra a urgência de integrar esta visão de risco na forma como planeamos e construímos o futuro do país.
Acompanha toda a informação imobiliária e os relatórios de dados mais atuais nas nossas newsletters diária e semanal. Também podes acompanhar o mercado imobiliário de luxo com a nossa newsletter mensal de luxo.
Fica a saber mais sobre o idealista/news.
Whatsapp idealista/news Portugal







Para poder comentar deves entrar na tua conta