Reabilitar uma casa antiga sempre esteve nos planos de Daniela e Hugo. O casal que está por detrás da conta de Instagram "Não é velha, é antiga!" partilhava um sonho, desde os tempos em que morava em Cascais, e está a meio caminho de concretizá-lo - com avanços e recuos, como em todos os processos de remodelação. Mudaram de vida para embarcar numa nova aventura em família, e encontraram a "Velhota", uma casa centenária em Estarreja que lhes "roubou" o coração. A verdade é que a transformação desta casa deixou de ser um sonho, para transformar-se num verdadeiro projeto de vida.
“Fizemos tudo devagar, aceitando o ritmo da nossa vida”, explica Daniela Menezes ao idealista/news - é uma apaixonada por casas, estudou arquitetura e trabalha como consultora imobiliária. “Viemos para Estarreja em 2018 para uma casa da família já com esse objetivo a médio prazo. Esperámos o mais novo nascer, fomos juntando dinheiro, explorando a zona para perceber onde queríamos comprar.”
Dois anos à procura da casa certa
Calma, mas também muitas horas a descobrir a zona e a perceber onde queriam investir o dinheiro, o tempo e o coração. “Muito passeámos de carro, a descobrir os bairros e as freguesias! Deu tempo para organizar tudo na nossa cabeça e coração”, acrescenta a mãe de Catarina e Pedro, os filhos do casal. A família começou à procura com uma lista de exigências e um orçamento absolutamente definidos o que limitou a oferta e levou a dois anos de procura, mas apenas cerca de oito visitas.
Quando a "Velhota" (nome com que carinhosamente tratam a casa que estão a reabilitar) apareceu nas suas vidas através de fotos, não foi um caso de paixão à primeira vista. Mas a insistência para fazerem uma visita compensou. “Aí sim, foi amor. Visitar a casa ao pôr do sol, com aquele jardim estendido à nossa frente... Vi logo ali o resto da nossa vida”, confessa Daniela. Havia espaço para todos, porque nesta família cabem os filhos Catarina e Pedro, e os filhos cães Baza, Chica e Ventoinha e a gata Ofélia.
“Foi uma das mais valias que a experiência na imobiliária me trouxe. Não nos agarrarmos à ideia de esperar pela casa ideal. Para uma família comum, não existe casa perfeita entre localização/características/orçamento.
As grandes histórias de amor são mesmo assim, achamos que sabemos exatamente o que queremos, ao pormenor, mas depois apaixonamo-nos e cedemos em algumas coisas. Esta história também foi assim, e foi necessário gerir o impacto de perceber que teriam de abdicar de alguns pontos da lista de exigências. “Foi uma das mais valias que a experiência na imobiliária me trouxe. Não nos agarrarmos à ideia de esperar pela casa ideal. Para uma família comum, não existe casa perfeita entre localização/características/orçamento. Não existe. Algo vai ter de ficar para trás”, explica. “No nosso caso, abdicámos da localização desejada (que era na freguesia ao lado) e da casa térrea”.
Mas os maiores desafios iniciais foram burocráticos e fizeram com que, desde a oferta até à escritura passasse cerca de um ano.
A "Velhota" compensou a espera. “A estrutura é boa, as áreas também, tem um jardim virado a sul que é uma delícia, excelente para as minhas árvores, galinhas, cães, miúdos a brincar, família a festejar!” E permite que Daniela sonhe a longo prazo com todas as memórias que serão construídas. “Tem uma zona que vou remodelar para os meus filhos poderem receber os amigos e os primos e estarem debaixo da minha asa. Deu-me a chance de vir a ser a mãe fixe!”
Tempo de limpezas à espera do licenciamento
As obras mais profundas estão a aguardar pela chegada do licenciamento. Para já têm sido tempo de limpezas. “A casa tinha muito muito lixo. Foram seis meses a deitar lixo fora, praticamente.” “Neste momento ando a partir os azulejos da cozinha e a lixar portas, faço mesmo questão de estar envolvida e meter a mão na massa, mas sempre com profissionais a garantir que tudo corre bem.”
É desta forma que Daniela introduz um ponto que considera fundamental na área da reabilitação: a certeza de ter bons profissionais. “Eu estudei arquitetura, apesar de pouco ter exercido, mas essa bagagem, mais o que vivi na agência imobiliária, fazem-me ter a certeza que nada se faz bem sem bons profissionais, ainda por cima uma casa.” Fazer o possível com as próprias mãos, mas “o conhecimento e a experiência são essenciais para o sucesso e não há vídeos de YouTube nem boa vontade que substituam isso”.
“A principal preocupação é identificar todos os riscos estruturais, dada a idade da casa, que terá cerca de 100 anos. Sendo de adobe, há materiais que não são compatíveis. É preciso conhecimento específico sobre construção tradicional para saber exatamente o que se pode ou não fazer para não haver problemas a longo prazo. Felizmente, o nosso empreiteiro tem experiência com casas antigas e penso que vai ser o principal aliado”, conta.
Das certezas ao imprevisível: orçamento e prazos
“Nesta conjuntura, nada é previsível. Os orçamentos são dados com cerca de quinze dias de validade, pelo que não fazemos a mínima ideia se vai bater certo. No entanto, com a ampliação, obras de renovação e revestimentos estamos a apontar para 100 mil euros”, revela. Quanto à expectativa da conclusão voltamos à palavra preferida de Daniela: calma. “Não gosto de subir muito as expectativas, para evitar frustrações desnecessárias.”
É esta principal inspiração desta família: as memórias. “As que lá estão e as que vamos criar. Gosto de espaços que contem histórias, de peças com bagagem", diz. “Praticamente não vamos mexer no interior, há detalhes que vamos manter e honrar, como os tetos, soalho e azulejos do primeiro piso. Guardei algumas peças que deixaram na casa e com certeza farão parte da nova "Velhota”, conclui.
Daniela assume-se uma “acérrima defensora de remodelações” mão só pela questão das memórias também pelas vantagens financeiras. “Temos a oportunidade de diluir os gastos a longo prazo, com um investimento inicial menor, com mais liberdade de escolha nos acabamentos e algumas características”. Outra das vantagens de reabilitar, na perspetiva desta família é a sustentabilidade. “Estamos a dar uma nova função a algo que já existe, podemos reutilizar muito material e estamos a contribuir para uma paisagem urbana de cara lavada, preservando a sua identidade histórica arquitetónica”.
“Estamos a dar uma nova função a algo que já existe, podemos reutilizar muito material e estamos a contribuir para uma paisagem urbana de cara lavada, preservando a sua identidade histórica arquitetónica”.
“Antigamente os materiais usados eram mais nobres, mais resistentes, os problemas estão a vista para serem bem resolvidos, não há tanta probabilidade de comprar gato por lebre e lamento, mas eu acho que as casas antigas têm um charme que já não se vê em lado nenhum. Já ninguém faz cantarias trabalhadas em pedra, nem tectos em madeira, nem soalho corrido, nem vedações retorcidas em ferro”, acrescenta.
Conselhos para quem quer começar um projeto destes é um tema que Daniela já abordou na sua página de instagram @naoevelha_eantiga, onde reconhece o apoio da vizinhança virtual.
“Ter uma lista de exigências bem definida, por ordem de importância e sempre, mas sempre, termos acompanhamento profissional: agente imobiliário e arquiteto/engenheiro/empreiteiro com experiência para nos ajudar a escolher bem. Às vezes demolir anexos pode sair mais caro que trocar um telhado, às vezes há detalhes burocráticos que impossibilitam um negócio e isto é informação que só profissionais com experiência sabem avaliar", salienta.
Agora é tempo de aproveitar o caminho, registar a aventura e sonhar com todas as memórias que vão construir na "Velhota". Daniela, Hugo, Catarina, Pedro, Baza, Chica, Ventoinha e Ofélia querem muitos churrascos e brincadeiras no jardim.








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