“Há muito a ser feito para que o imobiliário se torne verdadeiramente sustentável”, diz ao idealista/news Márcia Pereira, CEO da Bandora.
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Sustentabilidade no imobiliário
Márcia Pereira, CEO da Bandora Créditos: Bandora

“Apesar do aumento da consciencialização sobre a importância da sustentabilidade, ainda há muito a ser feito para que o setor imobiliário se torne verdadeiramente sustentável”. O alerta é dado por Márcia Pereira, CEO da Bandora, startup portuguesa que ambiciona revolucionar a gestão energética em smart buildings através da utilização de Inteligência Artificial (IA). Em entrevista ao idealista/news, a responsável considera que “a sustentabilidade não é apenas uma tendência”, mas sim “uma necessidade urgente para o futuro do planeta”. E deixa um aviso: “O setor imobiliário tem um papel crucial na construção de um futuro mais verde e sustentável”. 

A Bandora, que foi fundada em 2017 e tem como missão tornar os edifícios mais autónomos, confortáveis, eficientes e sustentáveis, pretende atingir, em termos de impacto ambiental, a marca de 1.500 edifícios até 2026, o que resultaria numa poupança mínima de 200 GWh de energia – equivalente à capacidade de captura de CO2 de meio milhão de árvores. Ao idealista/news, Márcia Pereira explica o que faz em concreto a empresa, como nasceu e que planos tem para o futuro.

Salientando que a startup nacional desenvolveu uma tecnologia que “capacita os edifícios a tornarem-se autónomos”, a responsável indica que, atualmente, a atividade está concentrada “em setores onde os desafios de gestão energética são mais urgentes, como edifícios comerciais, nomeadamente cadeias de 'fast food' e hotéis, onde o conforto térmico é crucial e as faturas energéticas são significativas”. O segmento residencial também está, no entanto, no radar da Bandora: “(…) Estamos a explorar maneiras de adaptar e aplicar a nossa tecnologia para atender às necessidades dos proprietários. Queremos proporcionar-lhes os mesmos benefícios de eficiência energética e conforto que oferecemos aos clientes comerciais”. 

Imobiliário tem de ser mais verde e sustentável
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A Bandora foi fundada em 2017 e tem como missão tornar os edifícios mais autónomos, confortáveis, eficientes e sustentáveis. O objetivo está a ser conseguido?

A Bandora tem tido sucesso na realização dos objetivos desde o início, como evidencia o nosso percurso de crescimento e o impacto significativo na eficiência energética dos edifícios. Por exemplo, registámos uma poupança energética de 63% em restaurantes de uma cadeia de 'fast food' e de 70% em escritórios, o que sublinha o potencial das nossas soluções para diminuir custos operacionais e potenciar a eficiência energética.

Além disso, estabelecemos parcerias estratégicas em vários setores, adaptando as nossas soluções às necessidades específicas de cada segmento. Esta abordagem reflete a nossa compreensão das exigências do mercado e a flexibilidade na aplicação da tecnologia. 

O feedback do mercado português tem sido extremamente positivo, demonstrando uma grande abertura à adoção das nossas soluções inovadoras de eficiência e sustentabilidade em edifícios comerciais. Salientamos ainda uma taxa de retenção de clientes de 100%, o que confirma a eficácia do nosso software. O feedback que recebemos evidencia principalmente a redução nas faturas de energia, o conforto proporcionado aos ocupantes, a redução da carga sobre as equipas de manutenção e a prevenção de configurações aleatórias e imprevisíveis nos equipamentos de AVAC.

O balanço da atividade é extremamente positivo. Estamos confiantes de que estamos no caminho certo para continuar a expandir o nosso impacto, tanto a nível nacional como internacional.

Quantos edifícios já tiveram a “intervenção” da Bandora em Portugal? Em que zonas do país?

A Bandora já realizou intervenções em diversos edifícios em Portugal, concentrando-se principalmente nos setores hoteleiro, de cadeias de 'fast-food' e de escritórios. Estas intervenções abrangeram várias regiões do país, com ênfase particular nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, onde a necessidade de eficiência energética em edifícios comerciais e de serviços é particularmente relevante.

"A Bandora já realizou intervenções em diversos edifícios em Portugal, concentrando-se principalmente nos setores hoteleiro, de cadeias de 'fast-food' e de escritórios. Estas intervenções abrangeram várias regiões do país, com ênfase particular nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, onde a necessidade de eficiência energética em edifícios comerciais e de serviços é particularmente relevante"

Em termos de extensão, a Bandora já otimizou mais de 16.500 metros quadrados (m2) de espaço em edifícios, demonstrando um impacto significativo na eficiência energética e sustentabilidade em todo o território nacional.

Para 2024, a empresa quer multiplicar a faturação por 10 vezes, pretendendo atingir 300 edifícios até final do ano, certo? Qual foi a faturação da empresa em 2023? Como tem evoluído?

Para este ano, o objetivo é multiplicar a faturação por 10 vezes, com a meta de otimizar 300 edifícios até final do ano. Em relação a 2023, a faturação da empresa foi relativamente modesta, uma vez que começámos a operação comercial apenas no ano passado, após realizarmos provas de conceito e algumas adjudicações em pequena escala anteriormente. 

A evolução da faturação começou com atividades limitadas antes de 2023, concentrando-se na investigação, desenvolvimento e teste do nosso conceito e tecnologia. Houve um aumento significativo em 2023, que servirá de trampolim para os objetivos de 2024.

A estratégia de crescimento sugere um avanço significativo na nossa capacidade comercial e um forte impulso em direção a um aumento substancial de receitas para 2024, refletindo o sucesso inicial e a crescente aceitação do mercado pelas nossas soluções de otimização energética para edifícios inteligentes.

Sustentabilidade e eficiência energética em edifícios
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A Bandora pretende revolucionar a gestão energética em 'smart buildings' em Portugal através da utilização de IA, certo? Como? 

A Bandora está empenhada em revolucionar a gestão energética em edifícios inteligentes em Portugal através da aplicação da IA. A nossa plataforma permite automatizar a gestão dos sistemas de climatização, com o objetivo de otimizar o consumo de energia sem comprometer o conforto dos ocupantes.

Desenvolvemos uma solução que toma decisões a cada cinco minutos com base no conhecimento adquirido previamente pela combinação de simulação tridimensional de edifícios, aliada ao conhecimento profundo da sua performance energética, impulsionado por modelos de IA, também alimentados por dados em tempo real, permitindo automatizar essas determinações no próprio edifício. Essas tomadas de decisão são baseadas numa análise detalhada de fatores como ocupação, condições meteorológicas e infraestrutura do edifício, o que possibilita uma gestão mais eficiente e precisa dos recursos energéticos.

"A Bandora está empenhada em revolucionar a gestão energética em edifícios inteligentes em Portugal através da aplicação da IA. A tecnologia que desenvolvemos capacita os edifícios a tornarem-se autónomos"

Atuando como um Facility Manager Virtual, a Bandora integra-se nos sistemas IoT (Internet das Coisas) já presentes nos edifícios e utiliza IA para melhorar continuamente o desempenho dos equipamentos, como os sistemas de AVAC. Esta abordagem permite também detetar e corrigir consumos energéticos anómalos, reduzindo períodos de inatividade e evitando desperdício de energia.

A tecnologia desenvolvida pela Bandora capacita os edifícios a tornarem-se autónomos. Atualmente, concentramo-nos principalmente em setores onde os desafios de gestão energética são mais urgentes como edifícios comerciais, nomeadamente cadeias de 'fast food' e hotéis, onde o conforto térmico é crucial e as faturas energéticas são significativas.

“Acreditamos que a tecnologia pode impulsionar a eficiência e a sustentabilidade”, disse. De que forma? 

Essa afirmação é sustentada pelos resultados obtidos com grandes clientes em diversos setores, evidenciando a capacidade das nossas soluções de responder às necessidades específicas de cada segmento.

Por exemplo, implementámos as nossas soluções nos restaurantes de uma cadeia internacional de 'fast food' em Portugal, conseguindo uma economia de energia de 63% no primeiro mês após a instalação no restaurante piloto. Adicionalmente, alcançámos uma poupança energética também notável de 70% em escritórios, demonstrando a eficácia das nossas soluções em diferentes contextos e ambientes de trabalho. Estes exemplos ilustram como a tecnologia da Bandora pode impulsionar a eficiência energética em vários setores, proporcionando benefícios tangíveis tanto em termos de redução de custos como de sustentabilidade ambiental.

Os 'smart buildings' fornecem-nos os dados, o 'big data' oferece ‘insights’, cuja tomada de decisão ainda dependia fortemente da componente humana, e agora a IA permite automatizar a tomada de decisão tornar os edifícios autónomos.

Em causa estão soluções personalizadas para diferentes tipos de edifícios, sendo o objetivo resolver problemas em cadeias de 'fast food' e hotéis, por exemplo, onde o potencial de economia de energia é elevado e há repetibilidade, certo? O que está a ser feito em concreto?

As parcerias estabelecidas com espaços de coworking e coliving, como os Verticais no Porto e o Factory no Hub Criativo do Beato em Lisboa, destacam a versatilidade e eficácia das soluções da Bandora na promoção da eficiência energética e da sustentabilidade em diversos ambientes, além do setor do retalho e da hospitalidade.

A maior vantagem competitiva da Bandora é a sua capacidade de se adaptar a diferentes segmentos. No entanto, é conhecido que os edifícios, os seus equipamentos e sistemas, possuem formas muito distintas de comunicação. Aí reside o maior desafio, ou seja, como iniciar a otimização de um edifício com a maior rapidez possível? A resposta está na repetibilidade, que é encontrada em cadeias de retalho, franchisados, entre outros, onde cada edifício, como por exemplo supermercados, recorre sempre aos mesmos fornecedores, adquire os mesmos equipamentos e apresenta uma disposição de espaços semelhante. Desta forma, torna-se possível realizar a integração da plataforma da Bandora de forma mais rápida e eficaz.

Eficiência energética no imobiliário
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A solução da Bandora pode também ser aplicada no mercado residencial? Como? Já está a ser aplicada?

A solução da Bandora tem sido principalmente direcionada para o mercado B2B, com foco nos setores de retalho, hotelaria e restauração, devido às características específicas desses segmentos que se alinham de forma ideal com a nossa tecnologia. No entanto, reconhecemos o potencial do mercado residencial e estamos a explorar maneiras de adaptar e aplicar a nossa tecnologia para atender às necessidades dos proprietários. Queremos proporcionar-lhes os mesmos benefícios de eficiência energética e conforto que oferecemos aos clientes comerciais. 

O Conselho da UE adotou recentemente as regras para melhorar a eficiência energética de edifícios, anunciando que a partir de 2030 todos os edifícios construídos estão proibidos de produzir emissões de gases com efeito de estufa. A solução e serviços apresentados pela Bandora estão alinhados com esta preocupação?

As soluções e serviços da Bandora estão perfeitamente alinhados com as novas regras de eficiência energética para edifícios da UE, estabelecidas em 2024. A solução da Bandora possibilita uma redução direta do consumo de energia e, consequentemente, das emissões de gases de efeito estufa em edifícios, contribuindo assim para o cumprimento das metas ambiciosas da UE.

A nossa plataforma está focada na otimização dos sistemas de AVAC, que contribuem até 65% do consumo de um edifício. No entanto, permite também a monitorização e controlo do consumo de energia em tempo real de outros equipamentos, desde iluminação até sistemas de refrigeração e equipamentos elétricos. Isso possibilita aos proprietários e gestores de edifícios identificar outras áreas de desperdício e implementar medidas de otimização direcionadas, como ajustes em horários de operação, cenários de ocupação e configurações de equipamentos. 

Através da análise de dados de sensores e do histórico de funcionamento, a nossa solução identifica anomalias e potenciais falhas em equipamentos antes que se transformem em problemas maiores. Isso permite a realização de manutenções preventivas e proativas, evitando desperdícios de energia e prolongando a vida útil dos equipamentos.

"A Bandora oferece um conjunto completo de soluções tecnológicas que auxiliam na descarbonização, na otimização do consumo de energia e na melhoria da eficiência energética dos edifícios, estando em total alinhamento com as novas diretivas da UE e com os objetivos de um futuro mais sustentável"

A Bandora fornece relatórios detalhados sobre o consumo de energia e as emissões de gases de efeito estufa, facilitando o processo de obtenção de certificações energéticas. Essas certificações demonstram o compromisso do edifício com a sustentabilidade e podem trazer benefícios como acesso a incentivos fiscais e uma melhor reputação junto a investidores e ocupantes.

Além disso, as nossas soluções garantem o conforto e bem-estar dos ocupantes através da otimização da qualidade do ar interior, controlo preciso da temperatura e iluminação personalizada.

A Bandora oferece um conjunto completo de soluções tecnológicas que auxiliam na descarbonização, na otimização do consumo de energia e na melhoria da eficiência energética dos edifícios, estando em total alinhamento com as novas diretivas da UE e com os objetivos de um futuro mais sustentável.

Imobiliário mais verde e sustentável
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Termos como sustentabilidade, eficiência energéticas e descarbonização entraram já no léxico do setor imobiliário, mas alguns players afirmam que pouco está a ser feito nesse sentido. Concorda com esta visão?

É verdade que termos como sustentabilidade, eficiência energética e descarbonização estão cada vez mais presentes no discurso do setor imobiliário. No entanto, há um debate sobre a efetividade das ações tomadas por alguns 'players'. Concordo com a visão de que, apesar do aumento da consciencialização sobre a importância da sustentabilidade, ainda há muito a ser feito para que o setor imobiliário se torne verdadeiramente sustentável.

Os custos iniciais de tecnologias e materiais ecoeficientes, a escassez de mão de obra qualificada e as barreiras regulatórias podem dificultar a adoção em larga escala de práticas sustentáveis. Além disso, governos e instituições financeiras ainda não oferecem incentivos suficientes para que os ‘players’ do setor invistam em soluções sustentáveis. A cultura de sustentabilidade ainda não está enraizada em muitas empresas do setor, o que dificulta a mudança de mentalidade e a adoção de práticas mais ecológicas.

No entanto, também existem exemplos positivos de empresas que estão a tomar medidas efetivas para tornar o setor imobiliário mais sustentável. Cada vez mais empresas estão a investir em tecnologias e materiais ecoeficientes para a construção de edifícios. As certificações estão a ajudar a identificar e valorizar edifícios sustentáveis, incentivando a adoção de práticas mais ecológicas. 

Para mudar as mentalidades e acelerar a transição para um setor imobiliário verdadeiramente sustentável é necessário que os governos implementem políticas públicas que incentivem a construção de edifícios sustentáveis, como subsídios, isenções fiscais e financiamentos com taxas de juros mais baixas. Também é necessário investir em investigação e desenvolvimento de novas tecnologias e materiais ecoeficientes para tornar as soluções sustentáveis mais acessíveis e viáveis.

"Concordo com a visão de que, apesar do aumento da consciencialização sobre a importância da sustentabilidade, ainda há muito a ser feito para que o setor imobiliário se torne verdadeiramente sustentável. (...) A sustentabilidade não é apenas uma tendência, mas uma necessidade urgente para o futuro do planeta. O setor imobiliário tem um papel crucial na construção de um futuro mais verde e sustentável"

É fundamental promover a educação e a consciencialização sobre a importância da sustentabilidade no setor imobiliário, tanto para os profissionais do setor como para o público em geral. Além disso, é necessária uma maior colaboração entre empresas, governos, instituições financeiras e ONGs para desenvolver e implementar soluções inovadoras para a sustentabilidade do setor imobiliário.

A sustentabilidade não é apenas uma tendência, mas uma necessidade urgente para o futuro do planeta. O setor imobiliário tem um papel crucial na construção de um futuro mais verde e sustentável. Através de um esforço conjunto de todos os 'players' envolvidos, podemos transformar o setor imobiliário num agente de mudança positiva para o meio ambiente e para a sociedade.

A Bandora está presente em Portugal, Espanha e Brasil, tendo já iniciado provas de conceito nos Emirados Árabes Unidos. Está prevista a expansão para novas geografias?

Temos planos ambiciosos de expansão para novas geografias a nível internacional. Além dos mercados onde já estamos presentes, planeamos expandir para a Europa e América Latina em 2025 e 2026, respetivamente. Essa expansão para novas geografias reflete a nossa ambição em consolidar uma posição de liderança em soluções de otimização energética para edifícios inteligentes não apenas em Portugal, mas também numa escala global. 

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