Os pais eram contabilistas, números, rigor, contas certas. Mas eram estes mesmos pais que enchiam a casa de música, cinema sempre presente, ambientes que se construíam à volta das histórias. Foi nesse encantamento pelo cenário - a luz, o som, os pormenores - que se formou o olhar de Ana Magalhães, designer de interiores. Não pela história em si, mas pela emoção que o espaço à volta dela conseguia provocar.
Hoje, esse olhar traduz-se num método. Para Ana Magalhães, um projeto perfeito assenta em três pilares: estética, funcionalidade e emoção. Falhar qualquer um deles é entregar um espaço incompleto. Um sítio pode ser lindo, mas se não funcionar para quem o habita, não serve. Pode ser funcional e bonito, mas se não causar emoção fica um espaço branco, mesmo que cheio de cor.
É precisamente nessa terceira camada, a da emoção, que reside aquilo que mais a distingue: a capacidade de ler o cliente quase como um psicólogo, antes de desenhar fosse o que fosse. E foi sobre isso e muito mais que a responsável do departamento de Design de Interiores da Contacto Atlântico, liderada pelo arquiteto André Caiado, conversou com o idealista/news.
Quais são as primeiras memórias que apontam para esta poder vir a ser a sua área de trabalho no futuro?
Eu, na verdade, não venho propriamente de uma família criativa. Os meus pais eram contabilistas, por isso tudo mais ligado ao racional. Mas, ao mesmo tempo, na minha casa sempre tivemos muita cultura, fomos ligados muito ao cinema e à música, era algo que estava sempre a acontecer. E acho que foi principalmente o cinema que me ligou aos interiores. Porquê? Porque no cinema tu contas uma história, mas não é só a história, é tudo o que está por trás, o ambiente, a luz, a música, e isso causa emoção em quem está a ver. Eu fiquei sempre encantada pelos ambientes, e não só pela história que ia seguindo no filme. Foi um bocadinho por aí que a coisa começou a ganhar interesse. E depois em pequenas coisas, era mudar coisas em casa porque sentia que ficava melhor se mudasse a disposição do quarto, aquelas experiências que vais fazendo. Esta relação com a música e com o cinema, apesar de não me ter levado por esse setor, levou-me mais para o interior, para os ambientes, para a emoção que esses ambientes te causam.
O que é que procura quando pensa no interior de uma casa ou num espaço?
Eu acho que, para teres um projeto perfeito, tens três fatores. Tens a estética, o ambiente ser agradável. Tens a funcionalidade, porque um espaço pode ser lindo, maravilhoso, mas se não funcionar para ti não te vai agradar. E tens a emoção, porque um espaço pode ser muito funcional, esteticamente bonito, mas se não te causar nenhum tipo de emoção é um espaço branco. Pode ter muita cor, mas para ti não te diz nada. Esta parte da emoção acho que faz muita falta e é aquilo que nos permite agradar ao cliente.
Mas também é aquilo que mais exige?
Sim, nós temos quase de ser psicólogos do cliente. O mais difícil é trabalhar com um cliente que não se consegue abrir um bocadinho na sua história. Eu percebo que é difícil. Então, quando temos um cliente introvertido, o nosso trabalho às vezes é muito puxar por ele para perceber quem é. Porque não vais fazer um projeto para uma pessoa que não conheces, nunca vais conseguir agradar essa pessoa. Nós, às vezes, temos que entrar um bocado no campo pessoal do cliente, e por isso é que eu digo sempre que não conseguimos estar completamente distanciados de um cliente, é muito complicado. Porque tens que perceber como é que essa pessoa vive no dia a dia. Toma pequeno-almoço com a família ou não, costuma ler ou não, porque isso vai definir vários espaços na casa. Quando são marcas, é exatamente a mesma coisa: vai definir os espaços em que tens que pensar mais. Tens que conhecer muito bem o teu cliente. E é aí que tu consegues também que esse cliente se sinta bem, que cada espaço tenha uma emoção para ele.
Apesar de cada cliente ser diferente, há fatores universais que estão sempre presentes nos seus projetos?
Eu acho que aqui é a parte da funcionalidade. Às vezes temos que convencer o cliente, fazê-lo entender porque é que estamos a projetar daquela maneira, porque o espaço depois tem de funcionar. Essa funcionalidade é muito, muito importante, e é uma base que tem de estar em todos os projetos. Conseguires ver que o espaço funciona. Mas lá está, um projeto não vai funcionar para mim da mesma maneira que funciona para ti, não vai funcionar para uma marca da mesma maneira que funciona para outra marca. Tem de ser pensado e funcionar para essa pessoa, e não para mim que estou a projetar, mas para o cliente que tenho à frente.
A aposta da Contacto Atlântico nesta área surge quase como uma necessidade. Como é que isso aconteceu?
Sim, porque é muito importante. Qualquer projeto é uma conversa, e é uma conversa entre diferentes profissionais e o cliente. Se nos sentarmos todos na mesma mesa, cliente e todas as diferentes áreas, seja arquitetura, engenharia, paisagismo, interiores, e falarmos, é muito mais fácil tirar o projeto adiante. E para o cliente é menos cansativo ter todos juntos e explicar uma vez aquilo que pretende, em vez de o ter de repetir várias vezes. É mais fácil também conseguirmos que o projeto vá ao encontro daquilo que ele procura. E acho que é um bocadinho este o interesse do Contrato em ter vários departamentos. Nós estamos juntos, no mesmo edifício, à distância de uma secretária, e com o cliente estamos na mesma reunião, ele não tem de se repetir. É um projeto pensado desde o início, do exterior para o interior e ao pormenor. Com a equipa de paisagismo, com a equipa de arquitetura, estamos constantemente em comunicação. Os interiores, tudo está ligado. Nenhum espaço é desconectado.
Esta ideia de ter todas as valências reunidas é um luxo, ou também funciona com orçamentos mais limitados?
Consegues fazer tanto para um orçamento de luxo como para um orçamento mais limitado. No orçamento mais limitado, por vezes, é onde menos falhas. Porque se tiveres várias equipas a trabalhar sozinhas, de repente tens um resultado que daqui a pouco tempo vais ter que refazer. Ou não te identificou como pessoa, se for a tua casa, ou não te identificou como marca, porque perdeste a essência dela. E, às vezes, isto pode não ser, a curto prazo, um investimento mais pequeno, mas a longo prazo acaba por ser. Qualquer uma das áreas vai-se adaptar ao orçamento que tem à frente, vai-se priorizar o que é mais importante e perceber de que coisas é que se pode prescindir, sem prescindir do projeto na totalidade.
Trabalhando assim em conjunto desde o início, é mais eficaz e significa poupança a longo prazo?
Exatamente. Acabas por poupar a longo prazo. E mesmo quando trabalhamos com marcas, é uma coisa que estamos sempre a falar com o cliente. Se vamos ter um rebranding de uma marca, vamos estar a falar com a agência, com quem vai tratar das fardas, da música. Todas essas pessoas juntas é que criam a identidade da marca. Se tiveres cada um a pensar no seu conceito, no seu canto, de repente tens uma miscelânea. Pode até funcionar, mas não foi pensado ao pormenor para transmitir aquela marca.
Há algum projeto que tenha marcado por algum motivo particular?
Sim, tivemos o projeto da Nestlé, que foi importante para nós no sentido em que tudo isto de que estou a falar, de ter várias equipas a trabalhar em conjunto, funcionou muito bem. E também tivemos o feedback da parte da Nestlé, do cliente, de que confiavam no nosso trabalho. Isso, às vezes, é algo que não é fácil, ter um cliente do outro lado que confia a 100% naquilo que tu achas que faz bem e que faz um projeto ideal. Com toda a equipa da Nestlé e toda a nossa equipa interna, funcionou muito bem como equipa, e o interesse era o projeto final. Não havia grandes interesses de egos nem nada, era conseguir que a nova loja da Nestlé nascesse.
E em termos de futuro, há algum desafio que gostasse muito de agarrar?
Sim, eu acho que há aqui um desafio muito interessante, que era um hotel. E porquê um hotel? Porque tens vários espaços nele. Tens restaurante, ginásio, quartos, zona mais social. E, às vezes, são vários tipos de projetos de interiores que tu consegues alcançar num projeto só. Pensares naquele hotel como um todo. Todos estes espaços vão ter que comunicar com quem visita. A experiência de quem visita o hotel tem de ser uniforme, tem que haver uma linguagem ao longo de todos estes diferentes espaços. E era interessantíssimo conseguir trabalhar com todas estas equipas ao mesmo tempo, desde o chefe de cozinha a quem vai estar no spa do hotel. Sentar estas pessoas todas. Acho que este é o melhor projeto de hotel que podes fazer, com todas estas pessoas sentadas e a ver quais são os objetivos de cada uma e o conceito geral para o espaço. Era um projeto muito interessante.







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