Lisboa e Alcácer do Sal estão separadas por cerca de 90 quilómetros, numa viagem de carro que se faz numa hora. A equipa do idealista/news visitou a cidade alentejana num dia muito solarengo e agradável, a contrastar com os que se viveram ali no início do ano devido às inundações e mau tempo. Fomos até lá para conhecer a Mansão do Passeio. “É um lugar muito especial”, começa por dizer ao idealista/news Gonçalo Henriques, gerente (e um dos quatro sócios) do centro empresarial e cultural, que abriu as portas em maio de 2024 e está a dar nova vida à cidade do distrito de Setúbal.
Há como que uma certa "magia" quando se entra nesta propriedade com quase 100 anos de história, que esteve mais de três décadas abandonada e foi recuperada há cerca de dois anos. Trata-se de um edifício originalmente projetado por Francisco Augusto da Costa Amaral, arquiteto ligado ao modernismo português e próximo do pintor e poeta Almada Negreiros.
Antes deste projeto avançar, em cima da mesa esteve a hipótese do imóvel - com traça de quinta rural alentejana em pleno espaço urbano - ser convertido numa unidade turística. Mas tal não aconteceu e renasceu, sim, como um centro de negócios e coworking, também com ADN social e artístico. Uma espécie de LX Factory nas margens do Sado, com foco na atração de empresas, criação de emprego e dinamização local, que está a dar provas de ser uma aposta ganha, tendo sobrevivido até às tempestades que marcaram o arranque do ano. Aliás, alberga até empresas que tiveram de “mudar de casa” após as intempéries. Esta é a história da Mansão do Passeio.
- “Um espaço cheio de vida”
- Um “ativo âncora” para trazer empresas e pessoas a Alcácer
- Curiosidades sobre a Mansão do Passeio
- Uma “cidade cada vez mais cosmopolita que está a ser reinventada”
- Cheias: “Parecia que estávamos num cenário de guerra”
- SPAR: a magia da transformação pós-cheias
- De bar de casa a… balcão do Novo Banco
- Marcas de mobiliário de luxo instalam-se em Alcácer do Sal
“Um espaço cheio de vida”
“É uma casa, penso, com perto de 90 anos, e resulta de um sonho do João Vacas, um empreendedor alentejano, agricultor, com negócios noutras áreas também, e que após ter viajado por toda Europa e ter conhecido o país resolveu construir a sua casa dos sonhos aqui na cidade. A propriedade está dentro de uma parcela de terreno no meio da cidade com 2.000 metros quadrados (m2) e a casa tem cerca de 600 m2, ou seja, é uma casa muito grande. Por fora é uma casa típica alentejana, mas por dentro tem influências das viagens dele. Esta propriedade, que esteve décadas fechada ao abandono, renasceu. É um espaço cheio de vida, que atrai imensas oportunidades para Alcácer do Sal. E cada vez mais é um dos motores do novo desenvolvimento que está aqui a acontecer”, conta Gonçalo Henriques.
Gonçalo, juntamente com outros três sócios, todos norte-americanos, diz que o seu trabalho, na qualidade de gerente da Mansão do Passeio, passa muito por ajudar a promover Alcácer do Sal, trazendo oportunidades para a cidade que fica a meia hora do litoral alentejano. Um espaço que abriu portas fez em maio dois anos e que conta com quase 30 empresas.
Entre os inquilinos do centro empresarial estão, por exemplo, a cadeia de supermercados SPAR e o Novo Banco, que se mudaram após as cheias do início do ano, bem como ‘showrooms’ de algumas marcas de mobiliário de luxo da Europa, como a bulthaup (representada em Portugal pela Desenhabitado) e a La Cornue. Marcas essas que estão também a tirar partido do crescimento do mercado imobiliário que se tem verificado, por exemplo, nas zonas da Comporta e Melides, segundo adianta o cofundador da Mansão do Passeio.
“Durante muitos anos, passávamos pela propriedade e questionávamo-nos como é que era possível que um imóvel tão bonito, num espaço tão privilegiado, um verdadeiro ícone de Alcácer, estivesse neste estado. E acredito que quase todos os alcacerenses que conhecem esta casa questionavam-se do mesmo. Uma casa tão grande, tão bem localizada e naquele estado de degradação, era de facto impressionante”, desabafa.
Um “ativo âncora” para trazer empresas e pessoas a Alcácer
A propriedade foi adquirida após a pandemia e seguiram-se depois as obras de reabilitação, tendo a Mansão do Passeio aberto portas em maio de 2024. “Resulta da necessidade que sentimos de criar aqui um ativo âncora, um imóvel que dê-se mais vida aos locais, que melhorasse a vida e a experiência dos turistas, que atraísse novas empresas para a cidade e que ajudasse a elevar Alcácer do Sal”, comenta Gonçalo Henriques, falando num investimento de milhões de euros.
“Começámos, numa fase inicial, com o arrendamento de escritórios privados, de salas para concertos e para reuniões e assim que abrimos ficámos impressionados com o conjunto de oportunidades que começaram a surgir”, confidencia.
Curiosidades sobre a Mansão do Passeio
Mas, afinal, como está dividida a Mansão do Passeio, em termos ocupação de espaços? “A casa principal funciona como um centro empresarial, onde acontecem concertos, atividades. Os antigos quartos da casa são escritórios privados. Temos seis salas privadas e, além disso, no antigo celeiro da propriedade funciona hoje um supermercado [SPAR], e os outros armazéns são ‘showrooms’ de empresas internacionais. Todo o espaço está a reinventar-se”.
Significa, portanto, que os antigos quartos da casa idealizada pelo anterior proprietário são atualmente salas privadas arrendadas a empresas. Mas as curiosidades não se ficam por aqui: “Este salão onde estamos [a conversar] é uma sala de eventos, uma sala de reuniões, um espaço multiusos. A antiga cozinha é a copa dos inquilinos e o antigo bar do João Vacas é um pequeno balcão de um banco [Novo Banco]”.
Já a antiga garagem da propriedade foi transformada num restaurante, a pizzaria Pisco Alcácer. “O Fred e a Micaela [Frederico Mello Breyner e Micaela Figueiredo] têm um projeto fantástico na Comporta que há muitos anos alimenta os viajantes desta região e agora vieram para Alcácer do Sal continuar o seu projeto. Criaram uma pizaria lindíssima que os locais podem aproveitar”, explica Gonçalo Henriques.
Destaque ainda para a fonte do passeio que existe há mais de 200 anos e que se encontra na fachada da propriedade, servindo de inspiração para a criação do logotipo da própria Mansão do Passeio, para preservar essa memória. “Há 250 anos, sensivelmente, Alcácer do Sal não tinha água potável no verão, porque é uma zona muito quente e os principais pontos de água, as principais fontes, secavam. Então, a população de Alcácer uniu-se e, com o apoio de algumas pessoas, conseguiu fazer esse grande investimento de criar um aqueduto, que ligava ao único local onde existia água no verão. A partir desse momento a cidade começou a ter água potável nesta altura do ano, o que foi muito importante para a cidade”, conta.
Uma “cidade cada vez mais cosmopolita que está a ser reinventada”
Sem rodeios, o gerente da Mansão do Passeio, lisboeta, desfaz-se em elogios a Alcácer do Sal: “Está a uma hora de Lisboa, praticamente, estamos a 20 minutos da Comporta, estamos rodeados de natureza, estamos não muito longe de Sines, um local também que está a receber grandes investimentos internacionais. Alcácer do Sal tem beneficiado muito de todos estes efeitos e acreditamos que nos próximos anos vamos continuar a crescer, porque cada vez mais pessoas vêm para aqui trabalhar. As grandes cidades estão um pouco saturadas. Vim de Lisboa e tenho uma vida tão superior aqui: a segurança, a qualidade… Os dias parecem que duram o dobro. Acredito que cada vez mais outros lisboetas, setubalenses, pessoas de todo o lado vão procurar o que Alcácer do Sal pode oferecer, que é qualidade de vida”.
"(...) Cada vez mais pessoas vêm para aqui trabalhar. As grandes cidades estão um pouco saturadas. Vim de Lisboa e tenho uma vida tão superior aqui: a segurança, a qualidade… Os dias parecem que duram o dobro. Acredito que cada vez mais outros lisboetas, setubalenses, pessoas de todo o lado vão procurar o que Alcácer do Sal pode oferecer, que é qualidade de vida”
Gonçalo Henriques, gerente e cofundador da Mansão do Passeio
A verdade é que a cidade alentejana começa a entrar no radar dos jovens, portugueses e estrangeiros – muitos são nómadas digitais –, bem como de investidores. Uma “cidade cada vez mais cosmopolita que está a ser reinventada em tempo real e que, após muitos anos de declínio, com falta de oportunidades, hoje está num caminho inverso”, analisa, mostrando-se otimista quando ao futuro: “É um momento muito entusiasmante que estamos a viver. E o melhor está para chegar”.
Há ainda, no entanto, muito por fazer e um caminho a percorrer, nomeadamente no que diz respeito à melhoria da mobilidade e à necessidade de valorizar outras zonas do país, em concreto o Alentejo. “Um projeto como a Mansão do Passeio em Lisboa era mais um, mas em regiões como o Alentejo há poucos”, sublinha, salientando que não é correto obrigar os jovens de Alcácer a irem para Lisboa porque não há emprego e oportunidades.
“Alcácer nos anos 1950 tinha 27.000 ou 28.000 habitantes, hoje são 11.000. O passado não pode ser mudado, mas não queremos um país despovoado. Temos de criar condições, também em termos de transportes, para que as pessoas possam viver fora das grandes cidades. Alcácer tem uma estação de comboios, mas não passam comboios. Porquê?”, questiona Gonçalo Henriques, em jeito de desabafo.
Cheias: “Parecia que estávamos num cenário de guerra”
Alcácer do Sal foi uma das zonas mais afetadas pelas cheias que assolaram o país este ano. A subida das águas não chegou à Mansão do Passeio, ao contrário do que aconteceu com outras empresas e negócios. Para a história ficam dias de desespero difíceis de expressar em palavras. “Foi dos momentos mais difíceis da minha vida, porque de um momento para o outro parecia que estávamos num cenário de guerra. Os nossos amigos, familiares, parceiros… muitos perderam as casas, os negócios. Estava tudo virado ao contrário”, desabafa, enaltecendo a coragem e resiliência dos alcacerenses: “Houve um abraço da comunidade que protegeu os mais necessitados”.
Na sequência do mau tempo, algumas empresas ficaram sem os seus escritórios ou espaços de trabalho e tiveram de procurar uma "nova casa”. Foi o caso, por exemplo, de uma agência do Novo Banco, de uma loja da cadeia de supermercados SPAR e do estúdio do arquiteto Paulo Sousa, que se mudaram para a Mansão do Passeio.
SPAR: a magia da transformação pós-cheias
No antigo celeiro da casa construída por João Vacas, inserido na atual Mansão do Passeio, nasceu a nova loja da cadeia de supermercados SPAR, que abriu portas no final de maio após trabalhos de reabilitação em tempos recorde.
“A nossa loja ficou completamente inutilizada, inundada, dois metros de água dentro da loja. Tudo o que era produto, tudo o que era equipamento, foi à vida. Procurámos uma alternativa dentro dos espaços que havia disponíveis em Alcácer e conseguimos encontrar este, que era um antigo celeiro”, indica ao idealista/news Samuel de Oliveira Silva, supervisor de lojas da cadeia de supermercados SPAR. “Era um espaço de terra batida e com telhas completamente cheias de erva”, acrescenta.
“Desde as cheias até à abertura da loja passaram três meses”, diz o responsável, frisando que as obras demorarem cerca de dois meses: “O que se manteve basicamente foi as paredes, o telhado, as vigas de madeira. De resto, desde chão, canalização, esgotos, estrutura, foi tudo feito de raiz. Daí dizer que fazer tudo isto em dois meses foi uma aventura”.
Trata-se, então, de uma loja de supermercado muito peculiar? “Não tenho conhecimento de uma loja que tenha partido do zero até estar desta forma. Muitos projetos partiram de tábua rasa, mas ficar como este espaço está creio que não há muitos”, responde Samuel de Oliveira Silva, considerando que a Mansão do Passeio tem tudo para ser um projeto vencedor.
De bar de casa a… balcão do Novo Banco
As tempestades obrigaram também o Novo Banco a encontrar um novo local para se instalar. Jorge Parreirinha, gerente do balcão de Alcácer do Sal, conta ao idealista/news que “as cheias foram um processo traumático para todos” e que ninguém acreditava que a situação tomasse as proporções que tomou. “Houve um alarme da Proteção Civil e duas horas depois tínhamos água a entrar no balcão, que esteve dois dias, creio, com três metros de altura de água contínua”, conta.
A solução encontrada foi também a Mansão do Passeio, onde o Novo Banco tem dois espaços, um deles onde se encontrava antigamente o bar do anterior proprietário. “Havia conhecimento de que existia o projeto, mas não conhecia a sua dimensão e a forma como estava dimensionado. Estamos aqui desde 15 março. É um projeto muito inovador da parte do banco, porque creio que isto nunca tinha acontecido numa instituição bancária”.
“Estamos quase todos os dias a descobrir novas potencialidades, novas possibilidades de coisas que podemos fazer. Descobrimos rapidamente que o potencial da Mansão para criar sinergias, relações entre empresas e novos conhecimentos é enorme”
Jorge Parreirinha, gerente do balcão do Novo Banco de Alcácer do Sal
Jorge Parreirinha brinca com a situação e afirma que o que parecia “impossível tornou-se possível” e considera que apesar de ser uma situação temporária há ilações positivas a retirar: “Estamos quase todos os dias a descobrir novas potencialidades, novas possibilidades de coisas que podemos fazer. Descobrimos rapidamente que o potencial da Mansão para criar sinergias, relações entre empresas e novos conhecimentos é enorme”.
E remata: “A Mansão do Passeio está a criar um espaço claramente diferenciador. Desde que aqui estamos sentimos o crescente interesse das pessoas, e estas novas marcas de luxo que se estão aqui a instalar criam um espaço diferenciador e com grande potencialidade de crescimento. Permite ter uma oferta que Alcácer não tem, mas começa a ter”.
Marcas de mobiliário de luxo instalam-se em Alcácer do Sal
Tal como mencionado em cima, há também marcas de mobiliário de luxo a escolher Alcácer do Sal para se instalarem, com a opção a recair na Mansão do Passeio. É o caso da Desenhabitado, estúdio especializado em arquitetura de interiores, design e mobiliário de luxo, que dispõe de um espaço (showroom) no centro empresarial desde setembro de 2025. Permite acompanhar "de perto a evolução de um dos mercados imobiliários mais dinâmicos do país”, adianta ao idealista/news José Pedro Mendonça, sócio fundador da empresa – representante em Portugal, por exemplo, da bulthaup, marca alemã de mobiliário de cozinha e arquitetura de interiores de luxo.
“A procura de habitação, segundas residências e empreendimentos turísticos sofisticados no Alentejo tem impulsionado a procura por soluções de cozinha ‘indoor’ e ‘outdoor’, cada vez mais personalizadas e integradas no novo estilo de vida da região. Neste contexto, a presença da Desenhabitado em Alcácer do Sal permite prestar um acompanhamento mais próximo a promotores, construtores, arquitetos, designers de interiores e clientes, desde a fase de conceção até à instalação final”, explica o responsável.
José Pedro Mendonça considera, de resto, que a localização estratégica entre Lisboa, Comporta, Troia, Grândola, Melides, Sines e o Algarve torna Alcácer do Sal um ponto de ligação privilegiado para responder a um mercado em forte crescimento, reduzindo distâncias e reforçando a qualidade do serviço.
"Mais que um novo espaço de exposição, o showroom da Desenhabitado em Alcácer do Sal é um local de inspiração, onde será possível conhecer materiais, equipamentos e soluções para cozinha de interior e exterior, adaptadas às exigências da arquitetura contemporânea e um novo modo de estar de elevadíssimo nível"
José Pedro Mendonça, sócio fundador da Desenhabitado
“Mais que um novo espaço de exposição, o showroom da Desenhabitado em Alcácer do Sal é um local de inspiração, onde será possível conhecer materiais, equipamentos e soluções para cozinha de interior e exterior, adaptadas às exigências da arquitetura contemporânea e um novo modo de estar de elevadíssimo nível”, conclui.
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