Falar sobre o tempo é um dos hábitos mais enraizados no quotidiano. Seja no elevador, à porta do café ou no local de trabalho, a meteorologia continua a ser um dos temas de conversa mais universais. Mas avaliar se faz frio ou faz calor, se choveu ou vai chover, tem, de facto, importância, até porque o tempo afeta o dia a dia em múltiplas dimensões, desde o humor àquilo que decidimos vestir, rotinas, saúde e bem-estar geral (dentro e fora de casa), ou a economia e negócios. Com a chegada do verão, e numa Europa cada vez mais quente, as ondas de calor tornaram-se mais frequentes e perturbam o dia a dia – mas não só. Que impacto têm nas cidades, no consumo de energia e qualidade de vida das populações?
A forma como as cidades foram sendo construídas, com menos vegetação e mais superfícies que absorvem e libertam calor, contribuiu para o agravamento das ilhas de calor urbano, segundo explica ao idealista/news António Lopes, Professor Associado do IGOT-ULisboa, investigador do Centro de Estudos Geográficos (CEG) e coordenador do grupo de investigação “Alterações Climáticas e Sistemas Ambientais – Zephyrus”.
“As ilhas de calor urbano formam-se porque os solos naturais e a vegetação foram substituídos por edifícios, asfalto e outras superfícies impermeáveis. Estes materiais absorvem e armazenam grande quantidade de energia solar durante o dia, libertando-a lentamente durante a tarde e a noite sob a forma de radiação infravermelha. Simultaneamente, a pouca vegetação diminui a sombra e a evapotranspiração, dois dos principais mecanismos naturais de arrefecimento urbano”, refere.
O especialista reforça a importância de diferenciar as ilhas de calor e ondas de calor. “As ilhas de calor dependem fortemente da densidade urbana, da geometria das ruas, da vegetação e da ventilação na cidade” diz, explicando que as áreas mais compactas e impermeabilizadas apresentam geralmente temperaturas mais elevadas, enquanto os parques, jardins e ruas arborizadas formam ilhas de frescura. “Estudos recentes mostram que as árvores de rua podem reduzir o stresse térmico, expresso pelo UTCI - Universal Thermal Climate Index (este índice avalia o stresse térmico sentido pelo corpo humano, combinando temperatura do ar, humidade, vento e radiação), em cerca de 3 a 6 °C, sobretudo através do sombreamento”, indica.
Além das ilhas de calor urbano, habitualmente presentes nas cidades, “podem ocorrer ondas de calor, caracterizadas por períodos de vários dias consecutivos em que as temperaturas se mantêm anormalmente elevadas para a época do ano e para o clima da região”, acrescenta. De acordo com o investigador, a este cenário é preciso somar ainda o efeito das alterações climáticas, especialmente o aumento da temperatura global do planeta, que intensificam o calor urbano e tornam estes episódios mais frequentes, prolongados e difíceis de suportar.
“Em Portugal Continental, estes episódios de ondas de calor estão muitas vezes associados à chegada de massas de ar muito quente e seco provenientes do Norte de África. Os seus efeitos na saúde e no consumo de energia podem ser particularmente graves quando as temperaturas noturnas não descem abaixo dos 20 °C (noites tropicais), que dificultam o arrefecimento das habitações e a recuperação do organismo”, esclarece.
Casas e cidades mais quentes têm custos para a saúde
Luís Mendes, geógrafo e professor no Instituto de Geografia e Ordenamento do Território da Universidade de Lisboa (IGOT-UL), não tem dúvidas que as ondas de calor “são um dos desafios mais prementes para a vida nas grandes cidades durante este século”, aumentando o risco de desidratação, exaustão térmica e agravamento de doenças cardiovasculares e respiratórias. Além disso, frisa, “o calor persistente reduz o conforto, prejudica o sono e afeta o bem-estar e a produtividade económica”.
“Os grupos mais vulneráveis incluem pessoas idosas, crianças, doentes crónicos, trabalhadores ao ar livre e pessoas que vivem em habitações com fraco isolamento térmico ou sem possibilidade de arrefecimento”, salienta António Lopes, concluindo que “a combinação entre calor, fraca ventilação e poluição atmosférica pode agravar os riscos para a saúde”.
“O calor extremo reduz igualmente o conforto no espaço público, condiciona as deslocações pedonais, o exercício físico, as atividades turísticas, o trabalho e o descanso noturno. Aumenta ainda as despesas energéticas e os picos de procura de eletricidade. Este efeito pode aprofundar desigualdades, porque as famílias com menores rendimentos têm menor capacidade para manter condições térmicas seguras no interior das habitações (pobreza energética)”, acrescenta o investigador.
As cidades não estão preparadas para enfrentar ondas de calor, mas as casas dos portugueses também não. Muitas famílias continuam a viver em habitações que sobreaquecem durante os dias mais quentes do ano. Embora a percentagem tenha vindo a cair, os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) revelam que, em 2025, ainda havia 28,2% da população portuguesa a viver em habitações não confortavelmente frescas durante o verão. Esta percentagem continua bem abaixo da meta para 2030, a qual admite que apenas um quinto da população continue nesta situação (20%).
Estes números não são de estranhar, uma vez que em 2025 quase metade dos edifícios habitacionais com certificado energético emitido continuam a ter classe energéticas mais baixas (C, D, E e F). A situação pouco melhorou entre janeiro e agosto de 2026, uma vez que 48,2% destes imóveis residenciais continua a apresentar classes energéticas inferiores, tal como revelam os dados mais recentes da ADENE. As grandes exceções são, sobretudo, as casas novas que já têm de cumprir elevados padrões de eficiência energética durante a sua construção.
Uma forma eficaz de refrescar a casa é instalar um ar condicionado, embora acabe por pesar na fatura da luz. Mas há poucas casas no mercado prontas para enfrentar os dias de calor extremo. Os dados mais recentes do idealista mostram que só 34% das casas anunciadas para vender ou arrendar em Portugal têm sistema de ar condicionado no segundo trimestre de 2026. Vila Real e Faro são as cidades que têm mais imóveis prontos para refrescar o ambiente.
Luís Mendes lembra, contudo, que o aumento da utilização de sistemas de ar condicionado e, consequentemente, o consumo de eletricidade, pode aumentar ainda mais a pegada carbónica da cidade e reforçar o aquecimento global em termos estruturais. “Sobrecarregam-se as redes elétricas e aumentam-se os custos energéticos para famílias e municípios, sobretudo se o edificado não estiver reabilitado energeticamente e não for eficiente na produção e consumo de energia. Adaptar as cidades ao calor é, por isso, uma medida de saúde pública, mas também de eficiência energética”, defende.
Redesenhar o planeamento e gestão das cidades
Preparar as cidades para um clima cada vez mais quente implica agir em várias frentes. A resposta passa por decisões de planeamento urbano e investimento público, mas também por escolhas individuais que contribuem para reduzir os efeitos do calor extremo.
Para António Lopes é fundamental que as autarquias integrem o clima, a ventilação e a qualidade do ar no planeamento urbano, identificando as áreas mais aquecidas, menos arborizadas, mais poluídas e com maior concentração de população vulnerável. “É fundamental preservar os corredores de ventilação, evitar barreiras edificadas contínuas e facilitar a entrada das brisas marítimas e estuarinas, que ajudam a dispersar o calor e os poluentes atmosféricos”, defende.
Além disso, é importante aumentar a cobertura arbórea, criar parques e corredores verdes, reduzir a impermeabilização dos solos e instalar sombra em ruas, praças, escolas e paragens de transportes públicos. “A localização, a densidade e as espécies das árvores devem ser cuidadosamente planeadas, de modo a garantir sombra e arrefecimento sem comprometer a circulação do ar e a dispersão dos poluentes”, acrescenta, explicando que retirar árvores não é solução, sendo “necessário atuar sobretudo na origem do problema, reduzindo o tráfego automóvel e o estacionamento à superfície, melhorando os transportes públicos e a mobilidade pedonal e ciclável”.
Uma opinião partilhada por Luís Mendes, que acredita que medida mais eficaz passa, precisamente, por trazer a natureza de volta à cidade. Além da arborização e proteção dos espaços verdes, “os edifícios e os pavimentos devem utilizar materiais que reflitam mais radiação solar e aqueçam menos”, sendo “igualmente importante integrar o conforto térmico no planeamento urbano e reforçar sistemas de alerta para episódios extremos”.
O especialista considera que as cidades do futuro terão de ser pensadas não apenas para crescer economicamente, mas para proteger a saúde e o bem-estar das pessoas. “Nenhuma cidade se adapta ao calor extremo apenas com infraestruturas; a resiliência constrói-se com políticas públicas, planeamento urbano e participação cidadã. Portanto, as cidades mais resilientes serão aquelas que conseguirem transformar o combate ao calor extremo num compromisso coletivo entre decisores, técnicos e cidadãos”, defende.
A nível individual, António Lopes destaca a importância de as pessoas se protegerem se evitando atividades nas horas mais quentes, procurando locais frescos e sombreados, mantendo uma hidratação adequada e ventilando as habitações durante a noite, quando o ar exterior estiver mais fresco e a sua qualidade for adequada. Além disso, “devem participar nas decisões sobre o espaço público e acompanhar familiares ou vizinhos mais vulneráveis durante os períodos de calor extremo”. “A adaptação ao calor não depende apenas das políticas públicas, mas também da solidariedade e da responsabilidade coletiva. Numa onda de calor, um simples gesto de proximidade pode salvar uma vida”, conclui.
Economia e negócios sensíveis às condições meteorológicas?
Um estudo recente do Banco de Portugal (BdP) mostra como as condições meteorológicas podem afetar os negócios, dando como exemplo o caso do turismo, uma das atividades mais relevantes da economia portuguesa. De acordo com o documento, em 2024, os estabelecimentos de alojamento turístico registaram 31,6 milhões de hóspedes e 80,3 milhões de dormidas, gerando aproximadamente e 6,7 mil milhões em receitas totais. A contribuição direta e indireta total do turismo para o PIB é estimada em cerca de 34 mil milhões, ou 11,9% do produto nacional.
O estudo económico, assinado por Dhruv Pandit, Miguel de Castro Neto e Paulo Rodrigues, sublinha que “este grau de dependência torna Portugal exposto a perturbações de curto prazo na procura turística internacional, incluindo as associadas a condições meteorológicas instáveis”. Além disso, o relatório conclui que a procura turística internacional “responde mais claramente à instabilidade meteorológica no destino do que às anomalias meteorológicas médias.”
“As anomalias de temperatura não têm um efeito cumulativo estatisticamente significativo sobre as dormidas. Em contraste, a volatilidade intramensal da temperatura tem um efeito cumulativo negativo e estatisticamente significativo. Um aumento de uma unidade na volatilidade da temperatura está associado a uma diminuição estimada de 5,7% nas dormidas ao longo da janela de resposta de sete meses”, explicam os autores.
No longo prazo, dizem, “as alterações climáticas graduais modificam a atratividade dos destinos, redistribuem fluxos entre latitudes e altitudes, e alteram a sazonalidade”, estando os destinos mediterrânicos “particularmente expostos, à medida que o aquecimento reduz a competitividade do turismo de sol e mar e aumenta a frequência de calor extremo”.
O estudo destaca que os “turistas respondem não apenas ao facto de um destino estar mais quente, mais frio, mais húmido ou mais seco do que o habitual, mas também ao facto de as condições meteorológicas antes do período de viagem se tornarem menos fiáveis”.
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