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A vida na pandemia: os riscos e oportunidades do uso de ecrãs

Dispositivos permitem minimizar o isolamento social e manter a economia a funcionar, mas podem ter implicações para a saúde física, mental e social.

Photo by Tetiana SHYSHKINA on Unsplash
Photo by Tetiana SHYSHKINA on Unsplash
Autor: Redação

Ao longo dos últimos anos, os ecrãs têm vindo a ganhar um protagonismo crescente no quotidiano, em várias áreas. Mas foi na pandemia que se consagrou o seu reinado. Fechados dentro de casa devido à Covid-19, os dispositivos - na forma de computador, tablet, televisão ou telemóvel - serviram-nos para trabalhar, estudar, comprar, procurar casa, relaxar, comunicar e muito mais. Vieram abrir um mundo de oportunidades neste período, facilitando a vida e minimizando os danos para a economia, mas os especialistas começam a alertar que também podem gerar implicações para a saúde física, mental e social.

Plataformas como o Zoom transformaram-se, simultaneamente, na nova sala de reuniões para quem está em teletrabalho, na improvisada sala de aulas, no auditório de conferências, no café ou no bar onde se convive com os amigos, no ginásio virtual ou até na sala de ensaios — e no palco — de muitos artistas.

E neste transitar de experiências e vivências do real para o digital, imposto pela pandemia, o debate sobre os impactos comportamentais, cognitivos e psicológicos está a tornar-se num hot topic, tal como conta o Público. “Todas as ferramentas podem ser bem ou mal usadas. A questão é quando a nossa existência passa a ser muito centrada naquele quadradinho que temos à frente”, diz Henda Vieira Lopes, psicólogo, psicoterapeuta e educador cultural, citado pelo diário.

Um dos principais problemas, indica, é a diluição das fronteiras entre trabalho, tempos livres, tarefas domésticas, etc., agravada pelo facto de tudo estar concentrado dentro do mesmo espaço. E mesmo nos momentos de interação social à distância, há várias dimensões que se esvaziam: “quando se está a obter informação apenas através dos ouvidos e dos olhos, uma série de coisas não nos chegam ao nível da pele, do toque, do cheiro”, explica o psicoterapeuta.

Henda Vieira Lopes falou com o jornal sobre o exemplo dos encontros entre amigos mediados pelos ecrãs. “Quando nos juntamos na net, no momento em que toda a gente desliga fica-se sozinho num segundo. Não há a evidência de uma existência comum.” Este choque pode provocar um confronto doloroso com a solidão ou com aquilo que está em falta — e, muitas vezes, o mecanismo de coping é “voltar aos ecrãs logo a seguir”.

Também no teletrabalho há todo um novo quadro de dinâmicas relacionadas com os interfaces agora utilizados no dia-a-dia, escreve o Público. O professor de comunicação Jeremy Bailenson, autor de um estudo publicado pela Universidade de Stanford, considera que as reuniões via Zoom provocam mais cansaço do que as presenciais, cunhando o termo “fadiga do Zoom”.

Dispositivos: escudos protetores do isolamento social e da economia

Em todo este contexto de ter a casa como o centro do mundo a autodisciplina assume uma importância crítica como mecanismo de proteção. Ou seja, “estabelecer rotinas e mudanças de ambiente” que não impliquem ecrãs e, mesmo quando eles estão envolvidos, é preciso “criar outros contextos”, aconselha Henda Vieira Lopes. “Por exemplo, quando se vai ver uma peça de teatro, podemos mudar de roupa. Parece artificial, mas este tipo de estímulos têm impacto no nosso cérebro", argumenta o psicólogo.

Apesar dos potenciais danos em termos de saúde mental e sociabilização, tanto Henda Vieira Lopes como Cristina Ponte, professora em estudos dos media na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, evitam ter uma visão unilateral e catastrofista sobre o papel dos ecrãs em tempos de pandemia. “Imaginemos que não havia ecrãs, como é que nós estaríamos?”, lança Cristina Ponte, citada também pelo Público. “Tudo aquilo que eles proporcionam permite contrariar este isolamento brutal”, diz a investigadora — e convém não esquecer que os ecrãs têm sido um importante veículo de conexão entre doentes internados com covid-19 e os seus familiares. “São um simulacro da proximidade que de outra maneira não era possível, além de proporcionarem informação, entretenimento e possibilitarem manter algumas rotinas culturais.”