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Ai Weiwei: maior exposição do artista chinês na Cordoaria de Lisboa

A exposição “Rapture” está em Belém e conta com 85 obras de arte marcadas por um forte ativismo pelos direitos humanos.

Ai Weiwei
Ai Weiwei já inaugurou a sua exposição em Lisboa / Alfred Weidinger / Flickr
Autor: Redação

O artista chinês Ai Weiwei, que escolheu o Alentejo para viver, elegeu agora Lisboa para abrir aquela que é maior exposição que alguma vez organizou. Chama-se “Rapture” e conta com 85 obras de arte marcadas por um forte ativismo pelos direitos humanos. As peças inéditas do artista já estão em exposição na Cordoaria Nacional, em Belém, desde esta sexta-feira, dia 4 de junho, e ali vão permanecer até 28 de novembro de 2021.

Ai Weiwei, que vive numa propriedade rural em Montemor-o-Novo (Alentejo) desde 2020, tal como confirmou o idealista/news, expõe agora a sua obra plástica e audiovisual que conjuga o gosto pelas coisas simples, como a natureza, e vários temas que aludem à tragédia humana, como a crise ambiental, a guerra, os refugiados, a censura, a perseguição política, o exílio, as restrições à liberdade e a pobreza no mundo.

Na conferência de imprensa da sua exposição, Ai Weiwei mostrou que já sente o país como a sua casa, recebendo o jornalistas dizendo: “Bem-vindos ao meu país, Portugal”. E referiu ainda que o seu trabalho “se tornou relevante porque passei por imensas dificuldades. Mas continuo sempre a trabalhar com a minha consciência”, partilhou ainda com a agência Lusa.

Obra de Ai Weiwei
"Snake Ceiling" (2009) / Joe Loong / Flickr
Para o curador da exposição Marcello Dantas, a exposição "Rapture" e as obras de Ai Weiwei apontam para um duplo sentido: por uma lado há o imaginário do sonho e da mitologia - que o artista chinês usa, inspirado na sua própria cultura - e, por outro, o rapto em si mesmo, que representa a sua detenção na China, durante 81 dias, pelo seu trabalho artístico crítico do sistema político do país.

Sobre o regime do seu país de origem, o artista dissidente chinês de 63 anos, não hesitou em afirmar, num tom crítico, que “a China é um Estado autoritário. Não há eleições, nem imprensa livre, nem liberdade individual. Nos anos 80 decidiram que cada família só poderia ter um filho, mas a sociedade chinesa sempre viu as crianças como a esperança e o futuro”, disse citado pelo Público.

O que podemos encontrar na exposição?

A exposição começa mesmo antes de se entrar. No exterior do edifício da Cordoaria de Lisboa está instalada a peça "Forever Bicycles" (2015), uma escultura monumental com 960 bicicletas de aço inoxidável usadas como blocos de construção.

Peça de Ai Weiwei
"Forever" (2014) / B/ Flickr
À entrada, o visitante é recebido por uma cobra ondulante gigante colocada no teto da Cordoaria. Chama-se "Snake Ceiling" (2009) e é constituída por centenas de mochilas de crianças, em memória aos estudantes mortos no terramoto de Sichuan, em 2008.

Também foram incluídas outras peças icónicas do artista como "Circle of Animals" (2010), na qual Ai Weiwei revisita uma série de esculturas compostas por doze cabeças de animais do zodíaco chinês, e que explora a relação da china contemporânea com a sua própria história.

Outra que salta à vista é a intitulada "Law of the Journey (Prototype B)" (2016), que consiste num barco insuflável de 16 metros de comprimento com figuras humanas e faz alusão a um dos temas mais recorrentes na obra do artista: a crise global dos refugiados.

Ao longo do percurso é possível ver vários écrans que exibem uma série de documentários, incluindo um dos seus mais recentes filmes - "Coronation" – que retrata a evolução da pandemia da Covid-19 em Wuhan, na China, considerada o berço da pandemia.

Obra de Ai Weiwei
"Law of the Journey" / Gilbert Sopakuwa / Flickr

Há ainda peças inspiradas em Portugal

Para além destas peças importantes na carreira do artista chinês, há outras inédias criadas este ano em Portugal e concebidas a partir de materiais existentes no país, como cortiça, mármore e azulejo.

Uma delas é a designada "Pendant (Toilet paper)", construída em mármore maciço. Esta peça de 1,60 metros representa um simples rolo de papel higiénico e foi inspirada na corrida ao consumo deste produto durante a pandemia, que levou à sua rápida escassez no mercado. Para Ai Weiwei, "esta procura desenfreada de papel higiénico representa a insegurança e desconfiança das pessoas no sistema em que vivem".

Ai Weiwei  Portugal
Ai Weiwei vive no Alentejo desde 2020 / Imagem de António Cascalheira por Pixabay
Outro exemplo criado em território nacional é a "Brainless Figur" ("Figura sem cérebro"). Consiste numa escultura feita em cortiça do próprio artista sentado numa cadeira à qual está algemado, faltando-lhe a parte craniana que aloja o cérebro. Esta foi uma peça feita em parceria com a Corticeira Amorim, segundo refere o Público.

Nos trabalhos inspirados em Portugal está houve colaboração com artesãos portugueses de diferentes ateliês para trabalhar materiais como a cortiça, azulejo, tecidos e pedra. “Sou um artista contemporâneo, mas presto muita atenção às tradições. A raiz do meu trabalho é sempre a compreensão do passado e a arte é a chave para percebermos o que se passou na nossa nação”, disse na ocasião.

A marca de Ai Weiwei em Portugal não vai ficar só por Lisboa. O curador avançou que está previsto colocar no Porto uma grande instalação nos jardins do Museu de Serralves, com uma dimensão de 34 metros, em julho de 2022.

*Com Lusa