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Os desafios da construção: "A sustentabilidade é a prioridade"

Falta de mão de obra e preços dos materiais são grandes problemas do setor aponta o CEO do Grupo Casais, ao idealista/news.

Construção sustentável
António Carlos Fernandes Rodrigues, CEO do Grupo Casais / Grupo Casais
Autor: Elisabete Soares (colaborador do idealista news)

Em Portugal, são vários os desafios que as empresas de construção têm pela frente. Desde a falta de mão de obra qualificada à subida de preços dos materiais de construção, passando pela adoção de práticas mais sustentáveis. E há alguns que já não são novos, mas que a pandemia da Covid-19 veio agravar, como é o caso da baixa produtividade do setor, aponta António Carlos Fernandes Rodrigues, CEO do Grupo Casais, em entrevista ao idealista/news.

De todos os desafios que o setor da construção enfrenta, aquele que provocará “o maior impacto” será mesmo a adoção de “medidas de combate às alterações climáticas, onde encaixam a digitalização, a descarbonização da economia e a economia circular”, acredita António Rodrigues. No entanto, este desafio necessita de um esforço conjunto e a ‘bazuca' europeia, enquanto “vacina para a recuperação económica”, pode ajudar a “tornar as empresas mais competitivas e mais eficientes”, referiu ainda.

Em nome da sustentabilidade ambiental, o Grupo Casais tem vários projetos em marcha. Internamente, a construtora está a adotar “tecnologias e materiais de construção sustentáveis com foco na redução das emissões de carbono”, avança o CEO do grupo. E lançou, em julho de 2021, a Fundação Mestre Casais que nasceu com o propósito de “preservar o equilíbrio entre a sociedade, o meio ambiente e o desenvolvimento económico”, segundo explica António Rodrigues, sublinhando o compromisso assumido para os próximos 50 anos: "Dar casa, água, energia e conetividade a quem não a tem", extraindo recursos com consciência de forma a não hipotecar a "esperança de um futuro sustentável".

Desafios da construção
Empreendimento Bayline no Algarve / Grupo Casais

A chegada da pandemia (em março de 2020) veio agitar o mercado imobiliário de tal forma, que incerteza tornou-se a palavra de ordem. E embora a construção seja apontada como um dos setores mais resilientes aos seus efeitos, são várias as marcas visíveis da sua passagem. O Grupo Casais não foi exceção: a sua atividade manteve “praticamente os valores do ano anterior, que havia sido o melhor ano de sempre”, explica António Rodrigues. Mas a atividade evoluiu de forma diferente nas várias geografias onde o grupo opera.

Em Portugal, o grupo quase duplicou a sua atividade. Mas lá fora houve países onde a faturação foi reduzida, como é o caso de Marrocos e Brasil. E outros onde a faturação manteve-se ou até aumentou: como em Angola, onde está a ser desenvolvido o Hospital Materno Infantil, e em Gibraltar, onde se destaca a construção das torres Hassan Terraces.

Foram vários os avanços e recuos durante a pandemia. E, neste cenário, a atividade em Portugal acabou por ganhar terreno à internacional nas contas do Grupo Casais, passando de 34% em 2019 para 47% em 2020. E que projetos estão a ser desenvolvidos em território nacional? Em destaque está a obra de ampliação do Hospital de São João no Porto e o desenvolvimento das unidades hoteleiras para a cadeira B&B, aponta o CEO do grupo na mesma entrevista, que agora reproduzimos na íntegra.

Desafios da construção
Grupo Casais

Neste período marcado pela pandemia, como está a decorrer a atividade da Casais Engenharia e Construção?

A atividade do grupo estava projetada para um crescimento substancial em 2020, e apesar dos efeitos da Covid-19, conseguimos manter praticamente os valores do ano anterior, que havia sido o melhor ano de sempre.

O ano passado registámos ainda a abertura de uma empresa no mercado do Gana, que devido às circunstâncias e restrições de deslocações e viagens viu adiado o início de atividade. O mercado vizinho espanhol é outro em que o grupo deu passos, nomeadamente com a abertura de uma empresa.

A Casais está a executar algumas obras de referência. Quais são as que destaca?

Podemos destacar o Hospital Materno Infantil, em Angola; as torres Hassan Terraces, em Gibraltar; e a ampliação do Hospital São João, no Porto. Mas todas as obras são importantes, porque todas nos permitem crescer em competências e capacidade. Uma empresa tanto pode sobreviver alimentando-se de poucas, mas grandes obras, como de muitas, mas pequenas.

Apesar dos efeitos da Covid-19, conseguimos manter praticamente os valores do ano anterior, que havia sido o melhor ano de sempre.

Já referiu o início e reforço de atividade em alguns mercados externos. Como está a decorrer a atividades nesses mercados?

Apesar de alcançarmos valores de atividade ligeiramente abaixo aos de 2019, tivemos evoluções diferentes em várias geografias. Mesmo em pandemia, Portugal acabou por duplicar praticamente a sua atividade, beneficiando de um conjunto de obras em carteira, obtidas no ano anterior. Já a atividade na Argélia foi a mais impactada, tendo sido decidido suspender definitivamente a presença neste mercado. Marrocos, Brasil e Qatar também viram os seus planos de faturação reduzidos face ao planeado. Enquanto que em Angola, Moçambique, Estados Unidos, Alemanha, Bélgica, França, Gibraltar, Abu Dhabi e Dubai conseguimos manter o planeado e, em alguns casos, até crescer em relação ao verificado em 2019.

Grupo Casais e projetos de construção
António Carlos Fernandes Rodrigues, CEO do Grupo Casais / Grupo Casais

Qual o peso da atividade internacional?

O peso da atividade internacional foi de cerca de 53%, contra 66% de 2019. Esta evolução deveu-se, em parte, à suspensão ou abrandamento em algumas geografias, mas também ao crescimento da atividade em Portugal.

A atividade da construção continua a enfrentar muitos desafios. Quais são os mais prementes atualmente?

São muitos os desafios, desde a falta de mão de obra qualificada, que projetamos seja ainda mais notada do que no período pré-covid, à inflação e subida de preços das matérias primas. Alguns são velhos desafios que o Covid-19 veio exacerbar, destacando-se a baixa produtividade do nosso setor. Segundo a estatística, desde a década de 1980 que não conseguimos aumentar a produtividade, mas, ao fim de mais de 30 anos, muito mudou. E essas mudanças estão a tornar possível o que antes nos impediu de ser uma indústria dentro do conceito que todos conhecemos. Esta é a transformação na nossa indústria que se pretende mais digital e mais sustentável.

São muitos os desafios, desde a falta de mão de obra qualificada, que projetamos seja ainda mais notada do que no período pré-covid, à inflação e subida de preços das matérias primas.

Um dos grandes desafios do setor é a componente da sustentabilidade e o ambiente. Que iniciativas está a levar a cabo a Casais na promoção destes valores?

Adotamos os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) alinhando-os com o nosso negócio num equilíbrio entre a produtividade (economia), as pessoas (sociedade) e o planeta (habitat). Mas este desafio necessita de um esforço conjunto e se a ‘bazuca’ europeia é a vacina para a recuperação económica, com o objetivo de tornar as empresas mais competitivas e mais eficientes, talvez o maior impacto seja aquele que vamos obter pelas medidas de combate às alterações climáticas, onde encaixam a digitalização, a descarbonização da economia e a economia circular. O nosso compromisso com a sustentabilidade ambiental reside na adoção de tecnologias e materiais de construção sustentáveis com foco na redução das emissões de carbono.

Desafios da construção
Grupo Casais

Esta aposta passa pelo investimento em tecnologias e materiais mais sustentáveis?

Sim, investimos na produção industrial, com foco na inovação de métodos construtivos e produtivos, num funcionamento em rede, contribuindo para a competitividade, resiliência e sustentabilidade do ecossistema económico local. E na dimensão humana estamos focados em construir espaços com recurso a soluções e sistemas que atendem às necessidades de saúde e bem-estar humano.

Conscientes da importância da engenharia ao serviço das necessidades básicas das populações, colocamos o nosso saber ao serviço da criação e proteção dos recursos e reservas aquíferas, ao mesmo tempo que protegemos e mitigamos os riscos sobre as pessoas. Executamos obras e infraestruturas que servem a sociedade, empregando localmente um modelo de capacitação em que transferimos conhecimento e competência, cultura e valores às comunidades. Somos parte ativa na cooperação internacional e intersectorial para os ODS e integramos uma rede parceiros com o mesmo ‘mindset’ e a mesma vontade de contribuir para a construção de futuros mais sustentáveis.

Talvez o maior impacto seja aquele que vamos obter pelas medidas de combate às alterações climáticas onde encaixam a digitalização, a descarbonização da economia e a economia circular.

Como está a decorrer a atividade na componente de promoção e desenvolvimento imobiliário?

Continuamos a nosso investimento na realização das unidades hoteleiras para a cadeia B&B e temos em curso alguns projetos na área residencial. Mas é de destacar sempre o princípio de funcionamento em parceria. Todos os projetos que investimos de alguma forma resultam de uma parceria com o proprietário ou o promotor, que é dono do ativo. São parceiros que reconhecem a nossa capacidade e competência técnica e acreditam que vamos entregar um produto com qualidade.

Desafios da construção sustentável
Empreendimento Bayline no Algarve / Grupo Casais

No caso da gestão de ativos, como é o caso da hotelaria, como está a decorrer?

A primeira unidade já abriu, e a licença de construção de mais duas foi emitida, estando-se a obra a iniciar agora. Contamos que as duas restantes tenham o mesmo despacho de licenciamento no espaço de 60 dias.

Somos parte ativa na cooperação internacional e intersectorial para os ODS e integramos uma rede parceiros com o mesmo ‘mindset’ e a mesma vontade de contribuir para a construção de futuros mais sustentáveis.

Quais foram os resultados conseguidos em 2020 e as perspetivas para este ano?

O volume de negócios agregado foi de 518 milhões de euros, que representou um decréscimo de 5% em relação a 2019. Já o EBITDA foi de 47,3 milhões de euros, representando um crescimento pouco significativo face a 2019.  As circunstâncias que rodearam o ano de 2020 tornam estes números bastante importantes. São um reflexo de uma capacidade de resiliência e capacidade de gestão dos nossos colaboradores. Afinal, somos uma organização de pessoas que constrói para pessoas.

Construção em Portugal
Projeto Residencial Duo Telheiras, em Lisboa / Grupo Casais

O grupo Casais apresentou recentemente a Fundação Mestre Casais. Que iniciativas quer concretizar no curto e médio prazo?

Os objetivos passam por promover a investigação, o desenvolvimento tecnológico, e a inovação. E ainda disseminar informação que sensibilize e fomente a adoção de práticas sustentáveis na edificação. Pretendemos que esta fundação seja o elo forte para a preservação do equilíbrio entre o ser humano (a sociedade), o planeta (o meio ambiente), e o desenvolvimento económico. Temos um plano de atividades que vai estar, em breve, disponível no site da fundação, e antecipamos ver algumas dessas iniciativas no terreno num curto espaço de tempo.

Acresce a consciência de que os desafios dos próximos 50 anos nos colocam numa posição de responsabilidade acrescida. Dar casa, água, energia e conetividade a quem não a tem é um fim nobre, mas se continuássemos a extrair recursos ao mesmo ritmo, hipotecaríamos qualquer esperança de um futuro sustentável.

Dar casa, água, energia e conetividade a quem não a tem é um fim nobre, mas se continuássemos a extrair recursos ao mesmo ritmo, hipotecaríamos qualquer esperança de um futuro sustentável.

A fundação destina-se também a preservar o legado de família?

A fundação é também um instrumento que faz parte do processo de gestão da sucessão de um grupo familiar. Esta é uma forma de dar continuidade ao espírito e ao legado do Mestre Casais que nos continua a estimular a fazer cada vez melhor.