Reduzir gasto de água em hotéis com ajuda do som? "Sim", diz a Savearth

Fundador de startup portuguesa revela que dispositivo já está em funcionamento no setor hoteleiro. E fomos saber os resultados.
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“’Pá’, há quanto tempo é que eu estou aqui? Quanta água é que eu já gastei?”, questionou-se João Machado no duche enquanto, lá fora, saiam manchetes nos jornais a alertar sobre a seca severa que Barcelona atravessava. “Chegaram mesmo a reduzir a pressão da água pública e os chuveiros das praias simplesmente deixaram de ter água”, relembrou.

Mas este problema não era exclusivo da cidade espanhola que implementou medidas para poupar água e lhe serviu de casa durante algum tempo. Tanto é que, “na altura até saiu um estudo que dizia que se tudo continuar assim, até 2050, 5 mil milhões de pessoas vão ter problemas de acesso à água potável, ou seja, mais da metade da população mundial”, referiu. “Aquilo ficou-me na cabeça”.

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O que é certo é que a sua pergunta continuava sem resposta. Não tinha noção de quanto é que gastava efetivamente no duche diário. Foram precisos estudos e pesquisas para chegar a números mais concretos: “em média são 80 litros de água em casa por duche e nos hotéis cerca de 100 litros de água por banho”, salienta, “são valores estonteantes”.

João queria que a utilização pessoal de água deixasse de ser invisível pelo que por um lado escancarou o problema, ao mesmo tempo que ofereceu a solução. Nasceu, assim, a Savearth, um dispositivo que é instalado na parede do duche e que, através do som, dá conta do consumo de água em tempo real.

Em entrevista ao idealista/news o fundador da startup, João Machado, explicou como funciona a tecnologia e o representante do Grupo PortoBay Hotels & Resorts, John Blandy, falou sobre a experiência de utilização nos hotéis do grupo e o contributo do dispositivo para uma gestão mais sustentável.

Em que consiste a Savearth?

start-up portuguesa savearth
Savearth

As notícias confrontam-nos com a realidade global, mas aquilo que parece ser um problema geral e longínquo que nos torna impotentes, está mesmo debaixo do nosso nariz. 

O que João Machado veio mostrar é que ao dar noção a cada pessoa do quanto gasta no duche em tempo real, cada um pode efetivamente fazer a sua parte. Assim, criou um dispositivo com um sensor de frequências sonoras que processa os sons gerados pela utilização da água. Esses dados são em simultâneo analisados por um modelo de inteligência artificial, capaz de identificar os consumos que estão a acontecer no momento.

Embora a tecnologia possa ser utilizada em vários setores, a solução está atualmente focada na hotelaria, permitindo aos hotéis monitorizar e reduzir o desperdício de água.

IA ao serviço da eficiência hídrica na hotelaria

reduzir o consumo de água no banho
Savearth

Ao idealista/news, o empreendedor revelou que as primeiras preocupações era fazer com que, por um lado, o produto fosse de fácil instalação, plug and play, e, por outro, universal, isto é, funcionasse em qualquer lugar do mundo. Depois, havia que treinar o modelo para dar precisão aos resultados, a parte mais desafiante do processo, afirmou.

“Na IA tudo depende da quantidade de dados que tens e estamos a falar de várias variantes, várias condições, vários estímulos diferentes que podem afetar o protótipo. Ter um modelo robusto que possa dar os valores de precisão minimamente aceitáveis foi um grande desafio”, contou. Mas por isso, o fundador da startup levou o tempo que teve que levar, sobretudo porque queria estar no terreno e recolher samples diretamente nos hotéis.

Resultado? “Hoje em dia temos um modelo de inteligência artificial com milhares e milhares de dados de diferentes banhos que nos permitem ter aqui esta precisão”.

Modelos pilotos registam redução de consumo

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Magnific

Os primeiros modelos pilotos foram instalados em duas unidades hoteleiras da PortoBay, no Porto e no Funchal, com um número restrito de quartos. “O melhor resultado” foi assinalado na PortoBay Santa Maria com 58% de poupança de água, já no PortoBay Teatro, registou-se cerca de 46% de redução. 

Além da medição de consumos que ajuda os hotéis a reduzir o desperdício, John Blandy, representante do Grupo PortoBay, referiu que esta tecnologia permite ainda detetar problemas, nomeadamente a identificação de fugas. “Se nós sabemos historicamente qual é o consumo, a partir do momento em que fica fora do normal, sabemos que há algum problema naquele quarto”.

Consciente dos gastos de água nos hotéis e das consequências que isso tem em determinadas regiões mais afetadas pela seca em Portugal, nomeadamente o Algarve, onde se encontra a PortoBay Falésia, John Blandy, acredita que adotar esta tecnologia é uma forma de assumirem mais responsabilidade pelas suas operações. “Se nós conseguirmos minimizar o nosso consumo, estamos a minimizar também o impacto que temos na comunidade local”, disse.

Mas para que o hotel caminhe para uma maior sustentabilidade, é também necessário o envolvimento dos clientes, sem comprometer, no entanto, a experiência dos hóspedes. 

Implementação nos hotéis: quando poupar água se torna um jogo

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Gamificação Savearth

O conceito é lançado quase como um desafio. A partir do momento em que a torneira é ligada, o dispositivo começa a mostrar, em tempo real, os litros de água consumidos, através de um medidor que acompanha o ritmo dos gastos. Se o hóspede não ultrapassar o limite de um banho ecológico, ganha uma recompensa.

Esta gamificação apresenta-se como um incentivo e tanto podem ser promoções no próprio hotel durante a estadia, como uma doação a uma instituição social ou organização. O objetivo, é conquistar, qualquer segmentação de mercado, tanto os hotéis de luxo, como os de menores estrelas. 

Segundo o representante da PortoBay, o feedback dos hóspedes aos modelos-pilotos tem sido positivo, com muitos a dizerem “é interessante que eu esteja a fazer alguma coisa”.

Inclusive, é precisamente esta monitorização e proximidade com o processo, que, de acordo com Blandy, faz com que as pessoas adiram.

“Há um problema clássico em sustentabilidade que é: se eu escolho conduzir um carro muito velho, com emissões terríveis, o impacto daquelas emissões não é algo que eu sinta, fico muito longe do problema, ainda que seja eu a cria-lo. O que a Savearth faz é mostrar ao cliente o impacto que estão a ter e dar a oportunidade de gerirem e mudarem o seu consumo para ajudarem o ambiente”.

Projeto já despertou interesse de investidores

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Ao idealista/news, a Savearth fez saber que fechou uma ronda de investimentos de 400 mil euros para escalar a startup portuguesa. Segundo João Machado, este investimento, será usado primeiramente para ampliar a equipa, de forma a aumentar a capacidade de resposta, e, posteriormente, olharem para outros mercados, sendo que a Península Ibérica, é prioridade. 

Questionado sobre a expansão da empresa para outros setores que também poderiam beneficiar com esta tecnologia, fora do mercado hoteleiro, o fundador afirmou que os alojamentos locais, os ginásios e o próprio B2C, num conceito de smart homes, estão também nos planos. Além das residências de estudantes e cruzeiros, como mencionou.

Se a longo prazo, o empreendedor fala em estender a Savearth para outros setores e países, bem como, desenvolver outros casos de uso a nível do produto; a curto prazo, o objetivo é ainda mais claro “até ao final do ano, queremos ter o dispositivo instalado entre 8 a 10 mil quartos, em Portugal e Espanha”, vincou.

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