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A arte de encontrar casas no mercado imobiliário em Lisboa e subarrendar a públicos vulneráveis

Diretor executivo da Associação Crescer revela em entrevista ao idealista/news que há cada vez mais senhorios interessados e que quebra no AL gera oportunidades.

Américo Nave, diretor executivo da Crescer - Associação de Intervenção Comunitária / Crescer
Américo Nave, diretor executivo da Crescer - Associação de Intervenção Comunitária / Crescer

Erradicar as situações crónicas de sem-abrigo”. Este é um dos objetivos centrais do projeto É UMA CASA, Lisboa Housing First, que a Associação Crescer desenvolve, desde 2013, com o apoio e financiamento da Câmara Municipal de Lisboa (CML) e de outras entidades privadas, de forma pontual, revela Américo Nave, diretor executivo da entidade, em entrevista ao idealista/news.

A associação é, atualmente, responsável por 15 projetos, entre eles o É UMA CASA, Lisboa Housing First. “Com o aparecimento da pandemia da Covid-19, esta resposta está a ser agilizada e as primeiras 100 casas (50 para este projeto e 50 para outro similar que tem por base a mesma metodologia) estão já a ser disponibilizadas”, conta, salientando que o projeto já integrou 55 pessoas e que “está atualmente em fase de expansão”. “Motivo pelo qual estamos à procura de mais 50 casas”, revela Américo Nave, dando nota de que “há 7 anos que a Crescer está sempre à procura de casas em Lisboa para públicos vulneráveis”.

É com base na consulta assídua de portais imobiliários e redes sociais, e apoiada por mediadoras e agentes imobiliários, que a equipa da Crescer cumpre parte da missão a que se propõe.

Fale-nos um pouco sobre a Associação Crescer. 

A Crescer é uma Instituição Particular de Solidariedade Social, fundada em 2001 por um conjunto de profissionais especializados na área da intervenção comunitária. Desde então, tem implementado e desenvolvido diversos projetos que visam a melhoria das condições de vida de públicos vulneráveis, nomeadamente consumidores de substâncias psicoativas, Pessoas em Situação de Sem-Abrigo (PSSA), pessoas que procuram asilo, refugiados e migrantes. E utiliza uma intervenção de proximidade que tem por base a filosofia de Redução de Riscos e Minimização de Danos, isto é, foca-se em atenuar as consequências negativas de comportamentos de risco.

Atualmente, a associação é responsável por 15 projetos, que recorrem a práticas inovadoras de intervenção comunitária e envolvem parcerias com várias entidades e associações.

A associação, com o apoio da CML, está à procura de casas (cerca de 50) para arrendar em Lisboa, com o objetivo de as subarrendar a pessoas desfavorecidas por valores mais baixos, sendo que a CML suportará parte do valor da renda. Em que consiste esta ação? 

A Crescer desenvolve, desde 2013, o projeto É UMA CASA, Lisboa Housing First. Este projeto, sustentado na metodologia que lhe dá o nome – o Housing First –, tem como principal objetivo erradicar as situações crónicas de sem-abrigo. Neste sentido, e como primeiro passo para cada pessoa que integra o projeto, começa por oferecer uma casa a quem está em situação de sem-abrigo na cidade de Lisboa. A partir daí, o projeto oferece a cada beneficiário todo o apoio técnico, médico e psicossocial para que seja possível a concretização de um plano de vida individual.

Este projeto já integrou 55 pessoas e, pelos excelentes resultados que tem obtido na melhoria das condições de vida das pessoas que apoia, está atualmente em fase de expansão, motivo pelo qual estamos à procura de mais 50 casas. Estas casas serão arrendadas em nome da associação e os inquilinos (beneficiários do projeto) assinam um acordo connosco, no qual se comprometem com o bom uso da casa e do seu recheio. O próprio projeto, financiado pela CML e por apoios pontuais de outras entidades privadas, assegura as rendas e gastos com água, luz e eletricidade, sendo obrigatório que os inquilinos contribuam com 30% dos rendimentos que aufiram, como forma de responsabilização e participação no próprio projeto de vida. 

De acordo com os resultados do projeto até ao momento, quando a necessidade básica de estabilidade habitacional está garantida, as pessoas iniciam o seu processo de organização e sentem-se capazes de aderir aos recursos disponíveis na comunidade (como por exemplo Centro de Saúde, consultas especializadas nos hospitais, Junta de Freguesia, etc.), caminhando assim para uma verdadeira integração social. A relação é base para toda a intervenção, que visa a maior autonomização possível dos inquilinos. Atualmente, sete inquilinos estão em formação profissional ou a trabalhar, caminhando para uma emancipação do projeto.

"O projeto É UMA CASA, Lisboa Housing First já integrou 55 pessoas e, pelos excelentes resultados que tem obtido na melhoria das condições de vida das pessoas que apoia, está atualmente em fase de expansão, motivo pelo qual estamos à procura de mais 50 casas"

A Crescer tem visto o modelo de intervenção do projeto É UMA CASA, Lisboa Housing First reconhecido através de vários prémios, como o prémio FACES 2017 da Fundação Montepio, o Prémio Gulbenkian 2018, na Categoria Coesão e Sustentabilidade, e o Prémio Cooperação e Solidariedade António Sérgio 2019, na categoria Inovação e Sustentabilidade.

Em dezembro de 2019, a CML anunciou que iria apoiar a expansão desta resposta em mais 320 casas (além das 80 já existentes) até 2021, por forma a erradicar as situações crónicas de sem-abrigo na cidade. Segundo dados do Plano Municipal para a PSSA 2019-2023, em 2018, o número total de pessoas nesta condição na cidade de Lisboa era de 361 pessoas. Com o aparecimento da pandemia da Covid-19, esta resposta está a ser agilizada e as primeiras 100 casas (50 para o projeto É UMA CASA, Lisboa Housing First e 50 para outro projeto que tem por base a mesma metodologia) estão já a ser disponibilizadas. 

Está a ser díficil encontrar estas casas? Em que zonas de Lisboa estão à procura?

O atual contexto, com todas as implicações socioeconómicas que está a ter e com a redução muito significativa do fluxo turístico, tem sido vantajoso para a procura de casas a valores mais acessíveis na cidade de Lisboa. 

A pandemia trouxe uma redução no fluxo de turismo, o que levou a que muitos senhorios com habitações para Alojamento Local (AL) tivessem optado pelo arrendamento a médio e longo prazo. Além disso, foi uma fase em que as pessoas que estavam à procura de casa no mercado de arrendamento se inibiram de fazer visitas e adiaram a mudança, enquanto as nossas equipas se mantiveram no terreno, aproveitando as oportunidades que surgiam e o abrandamento da concorrência.

"O atual contexto [de pandemia], com todas as implicações socioeconómicas que está a ter e com a redução muito significativa do fluxo turístico, tem sido vantajoso para a procura de casas a valores mais acessíveis na cidade de Lisboa" 

Procuramos habitações individuais, a arrendar no mercado imobiliário comum e dispersas pela cidade de Lisboa, por forma a promover a inclusão na comunidade e atenuar o estigma associado à condição prévia de estar em situação de sem-abrigo. Centramo-nos essencialmente em casas com tipologia T0 ou T1, em zonas com acessos a transportes públicos e a serviços, com rendas que rondam os 500 euros.

É a primeira vez que a associação avança com este tipo de iniciativas, em concreto de tentar encontrar casas para arrendar a pessoas com maiores dificuldades económicas/financeiras?

Este projeto existe desde 2013, tendo como população alvo as pessoas em situação de vulnerabilidade na cidade de Lisboa, grupo com o qual a Crescer trabalha desde 2001. Além do projeto É UMA CASA, Lisboa Housing First, a Crescer desenvolve também, desde 2016, um projeto de acolhimento a requerentes de asilo e refugiados na cidade de Lisboa que também oferece vertente de alojamento, embora com critérios e condições diferentes. Assim, respondendo concretamente à questão, há sete anos que a Crescer está quase permanentemente à procura de casas na cidade de Lisboa para integrar públicos vulneráveis. Temos hoje senhorios que nos procuram para arrendar casas devido à boa experiência que têm tido connosco. 

Américo Nave, diretor executivo da Crescer - Associação de Intervenção Comunitária / Crescer
Américo Nave, diretor executivo da Crescer - Associação de Intervenção Comunitária / Crescer

De que forma estão a tentar encontrar estas casas?

A nossa equipa, apoiada por voluntários, tem feito uma pesquisa diária em portais imobiliários e redes sociais. No início deste processo contactámos várias mediadoras imobiliárias, explicámos o projeto e pedimos a colaboração no sentido de nos contactarem sempre que aparecesse uma casa com tipologia e preço ajustado à nossa procura. Atualmente contamos ainda com alguns agentes imobiliários que neste processo se associaram ao projeto e fazem a sua divulgação junto de senhorios que têm casas com as características que procuramos. Além disto, alguns senhorios/agentes imobiliários a quem já tínhamos casas arrendadas têm-nos disponibilizado outras habitações.

Que tipo de apoio tem tido a associação por parte da CML, nesta ação em concreto como em outras?

A CML é parceira da Crescer há vários anos e em diferentes projetos, nomeadamente nos projetos É UMA RUA, Lisboa Oriental e Lisboa Ocidental, equipas que intervêm em toda a cidade desde 2002, no projeto É UMA VIDA, um projeto que nasceu em 2016 com o objetivo de apoiar a inclusão de requerentes de asilo e refugiados, e no É UM RESTAURANTE, um projeto piloto, onde o serviço é assegurado por pessoas que estejam ou tenham estado em situação de sem-abrigo na cidade de Lisboa. Este projeto assenta nas vertentes de formação, capacitação/treino ‘on the job’, estágio e integração no mercado de trabalho. No projeto É UMA CASA, Lisboa Housing First a CML é o principal financiador. A Crescer está também presente em diversos grupos de trabalho, enquanto parceiro técnico, promovidos pela CML.

"Temos hoje senhorios que nos procuram para arrendar casas devido à boa experiência que têm tido connosco" 

Qualquer pessoa que tenha uma segunda habitação em Lisboa pode disponibilizá-la, nomeadamente para o projeto É UMA CASA, Lisboa Housing First? Como o pode fazer?

Qualquer senhorio que tenha uma habitação para arrendar com as características referidas é um possível parceiro deste projeto. Para isso, pode utilizar os seguintes contactos: