David Carreira, Country Manager da Thomas & Piron Portugal, fala ao idealista/news sobre o projeto Clarissas, direcionado para a classe média.
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Gonçalo Lopes
Gonçalo Lopes

Está a nascer às portas de Lisboa, em Sacavém, um megaprojeto imobiliário que terá cerca de 700 casas dirigidas para a classe média. Falamos do Clarissas, que sai do papel pela mão da promotora imobiliária belga Thomas & Piron (T&P), sendo este o quarto projeto que está a desenvolver em Portugal – dois foram em parceria com a também belga Promiris. “Se as coisas correrem normalmente, como têm corrido, lá para o final do ano estaremos em condições de começar a fazer a obra propriamente dita, se bem que já começámos a fazer: já estão em curso, desde julho de 2024, as obras da Praça da República”, revela David Carreira, Country Manager da T&P Portugal, em entrevista ao idealista/news, realizada no local onde será construído o empreendimento.

Além de Portugal, a T&P está presente na Bélgica, Luxemburgo, França, Suíça e Marrocos. E em todos os países o foco é a classe média, pelo que não é de estranhar que a aposta a nível nacional passe também por esse segmento de mercado, nomeadamente numa altura em que os vários players do setor exigem a construção de mais casas, para dar resposta à enorme procura das famílias. “95% dos 1.500 fogos que fazemos anualmente são dirigidos à classe média e, portanto, sendo esse o nosso ‘core business’, sendo aquilo que Portugal estava a precisar, decidimos investir no Clarissas”, adianta David Carreira. E em jeito de desabafo deixa um aviso: “O mercado da habitação em Portugal precisava de ter uma terapia de choque”.

Thomas & Piron em Portugal
David Carreira, Country Manager da Thomas & Piron Portugal Créditos: Gonçalo Lopes | idealista/news

Conte-nos um pouco a história do projeto Clarissas, que vai nascer aqui onde nos encontramos, neste terreno em Sacavém (Loures), às portas de Lisboa?

O projeto foi adquirido pela T&P em setembro de 2022, está quase a fazer três anos, ao Banco Montepio, que o herdou de uma falência. Temos um pedido de alvará de loteamento entregue na Câmara Municipal [de Loures], no final de 2024, e estamos a aguardar que venha o deferimento do Estudo de Impacto Ambiental, que entregámos em fevereiro. Se as coisas correrem normalmente, como têm corrido, lá para o final do ano estaremos em condições de começar a fazer a obra propriamente dita, se bem que já começámos a fazer: já estão em curso, desde julho de 2024, as obras da Praça da República, faz parte de contrapartidas que o promotor tem de dar à autarquia, foi uma exigência da câmara que as contrapartidas fossem dadas antes de qualquer obra dentro do loteamento.

O Clarissas vai nascer num antigo quartel militar e num antigo convento. Que edifício é este?

O edifício onde estamos a fazer esta entrevista é o antigo Convento de Nossa Senhora dos Mártires e da Conceição dos Milagres. Data do século XVI e na última década esteve abandonado. E nas últimas oito décadas antecedentes foi ocupado pelos militares, portanto, era um quartel militar. A ideia é recuperá-lo e instalar um equipamento privado, não sabemos ainda bem o quê, estamos em conversações, mas a ideia é reabilitá-lo e dar-lhe um uso que possa servir a população.

Estamos a falar de um investimento, neste projeto, de cerca de 300 milhões de euros. Quanto é que custou à T&P o terreno?

O terreno em si foram 22 milhões de euros, mas mais o IMT que tem de se pagar, as due diligence etc., o investimento já ronda os 30, 35 milhões. A estimativa do investimento global é entre 300 e 310 milhões de euros.

Casas novas em Sacavém
Vista aérea daquele que será o projeto Clarissas, em Sacavém Créditos: Thomas & Piron

Quantas casas terá o Clarissas e de que tipologias?

São 310 milhões de euros para investir em cerca de 700 fogos. Sempre quisemos chegar ao máximo que o loteamento permite, 760 fogos, mas vamos ficar entre 700 e 720. As tipologias serão de T1 a T4, com T3 e T4 duplex, e haverá cerca de 9.000 metros quadrados (m2) de comércio, com um supermercado de proximidade e também comércio local tradicional. Depois, junto à Praça da República, vamos ter um edifício só de serviços, à partida escritórios, com um parque de estacionamento que servirá não só a população como o espaço que vier a ser o equipamento do convento, e os próprios utentes do Clarissas.

O Clarissas é o quarto projeto da T&P no país, tendo dois em parceria com a Promiris. É o mais direcionado para a classe média, certo?

Este foi o quarto projeto que adquirimos, os dois primeiros foi em parceria com a Promiris, o Conde de Lima, no centro de Lisboa, e o Gaia Hills, em Vila Nova de Gaia. Depois adquirimos um mais pequenino, o Docks Matosinhos, que está precisamente em frente às docas de Matosinhos. São 31 apartamentos, estão comercializados e a obra está em curso. Mas a dada altura percebemos que aquilo que estava a fazer falta a Portugal era habitação para a classe média, sendo esse o ‘core business’ da T&P lá fora, porque 95% dos 1.500 fogos que fazemos anualmente são dirigidos à classe média e, portanto, sendo esse o nosso 'core business', sendo aquilo que Portugal estava a precisar, decidimos investir no Clarissas. E sim, são cerca de 700 fogos dirigidos à classe média. Agora é preciso saber onde é que se vai situar a classe média daqui a um ano, quando iniciarmos as vendas e a comercialização.

"(...) A dada altura percebemos que aquilo que estava a fazer falta a Portugal era habitação para a classe média, sendo esse o ‘core business’ da T&P lá fora, porque 95% dos 1.500 fogos que fazemos anualmente são dirigidos à classe média, (...) e decidimos investir no Clarissas"

Disse que as obras do projeto em si podem arrancar ainda este ano. Mas este é um projeto a longo prazo…

Desde a aquisição até ao final da construção total são entre 11 a 12 anos, é o que está no nosso ‘business plan’, é o que temos em cima da mesa hoje: iniciar obras de construção de loteamento e edifícios em 2026, iniciar a comercialização em 2026 e depois, nos oito anos seguintes, levar ao término a construção dos quase 94.000 m2. Agora, isto tudo vai depender do ritmo de vendas. Se o ritmo de vendas permitir acelerar o ritmo de construção e de finalização, se calhar, em vez de oito anos demoramos seis. Para nós seria ótimo. Quanto mais depressa acabarmos este, mais depressa nos concentramos noutros projetos.

Clarissas em Sacavem
Assim será o Clarissas, em Sacavém Créditos: Thomas & Piron

Relativamente aos outros três projetos da empresa, o Conde de Lima, o Gaia Hills e o Docks Matosinhos, qual é o ponto da situação?

O primeiro foi o Conde Lima. Foi dirigido à classe média-alta no centro de Lisboa, são 41 apartamentos e estão vendidos, está entregue. Estamos neste momento em fase de serviço pós-venda.

Sobre o Gaia Hills, vamos começar a segunda fase de construção entre julho e setembro. Temos cerca de 84% vendido da primeira fase e quase 50% vendido da segunda. Está em construção, prevê-se que a primeira fase fique finalizada no primeiro trimestre de 2027 e a segunda no primeiro trimestre de 2028. O Gaia Hills é um bom exemplo daquilo que poderá acontecer no Clarissas, porque aquilo que sempre pensámos foi que é um projeto que quando estivesse acabada a primeira fase começávamos a segunda, ou seja, aquilo que estava pensado era começarmos a construir a segunda fase em 2027, mas já arrancou, tal foi o sucesso de vendas da primeira fase. Isto é o que pode vir a acontecer no Clarissas, esperemos que assim seja.

O Docks Matosinhos está em construção. São 31 apartamentos, é mais pequeno e está previsto estar concluído no final do próximo ano.

São, até à data, cerca de 450 milhões de euros de investimento nestes quatro projetos…

Sim, se bem que há aqui uma parte que é dividida a meias, entre nós e a Promiris, mas a parte da T&P são cerca de 350, 360 milhões de euros.

Voltando ao Clarissas. Considera que é um dos grandes projetos imobiliários residenciais a nascer em Lisboa?

O Clarissas é um grande projeto residencial. Aliás, neste momento, não correndo grandes riscos de o dizer, é o maior projeto residencial da T&P ao nível do grupo. São cerca de 94.000 m2 de construção. Dentro da Área Metropolitana de Lisboa é um grande projeto, não é o único, mas sobretudo é um projeto que procura requalificar uma área que estava vedada à população há cerca de sete, oito anos. Era um quartel militar, e como qualquer quartel militar está vedado fisicamente à população. Vamos devolver à população aquilo que eram dez hectares que estavam vedados. Não somos nem melhores nem piores que os outros [promotores imobiliários], este foi o território que escolhemos, outros terão escolhido outros.

Construção nova em Sacavém
Clarissas é o quarto projeto da Thomas & Piron em Portugal Créditos: Thomas & Piron

E sobre o futuro, o que pode desvendar de outros projetos que possam estar na calha, de novos investimentos?

A T&P está em Portugal para ficar, não viemos só fazer um ‘one shot’ e ir embora. A prova disso é este projeto que temos para 12 anos de desenvolvimento. Neste momento, estamos concentrados naquilo que é o Clarissas e em pô-lo a andar em velocidade de cruzeiro. Estamos recetivos e a olhar para outros projetos, não vou dizer onde, mas é essencialmente nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto. Lisboa fugindo da cidade central, mais os concelhos limítrofes, e Porto, Gaia e Matosinhos são áreas que continuam a ser do nosso interesse. Dizer se vamos concretizar algum negócio este ano… não sei!

Há muitos terrenos e quiçá antigos quarteis (como no caso do Clarissas) em Lisboa que podem ser transformados em grandes empreendimentos residenciais?

Espaços como o Clarissas na Área Metropolitana de Lisboa diria que existem. Só aqui no concelho de Loures conhecemos mais dois que poderiam ser interessantes. O concelho de Oeiras tem também dois ou três. Agora, é preciso calma, ter os pés bem assentes no chão. Neste momento, é cimentar o projeto Clarissas, pôr o projeto a andar em velocidade de cruzeiro e provar que aquilo que pusemos no papel, numa folha de Excel, bate certo. Fazendo isso, é depois convencer a administração a continuar a apostar em Portugal, que está perfeitamente convencida e ciente de que é um mercado para continuar a apostar.

"Neste momento, [o objetivo da T&P] é cimentar o projeto Clarissas, pôr o projeto a andar em velocidade de cruzeiro e provar que aquilo que pusemos no papel, numa folha de Excel, bate certo. Fazendo isso, é depois convencer a administração a continuar a apostar em Portugal, que está perfeitamente convencida e ciente de que é um mercado para continuar a apostar"

A T&P está presente em seis países: Bélgica, Luxemburgo, França, Suíça, Portugal e Marrocos. O país continua a ser visto como um destino atrativo para investir no setor imobiliário, sendo que é cuicial aumentar a oferta de casas?

Tal como dizia o engenheiro Fernando Santo [antigo Bastonário da Ordem dos Engenheiros], estamos a construir o mesmo número de habitações que construímos por altura do pós-25 de Abril, são cerca de 25.000, 30.000 fogos por ano. No início dos anos 2000 construímos 125.000 fogos e depois, durante dez anos, não se construiu nada. Portanto, há muita falta de habitação em Portugal. Há espaço para mais. Agora é preciso, se calhar, começar a agilizar alguns processos para que as coisas se desenvolvam e fluam melhor.

Sobre o Simplex Urbanístico [voltará a ter mudanças], qual é a sua visão?

Sou um pouco crítico em relação ao Simplex. Trouxe algumas coisas boas, mas foram menos que as positivas. É importante simplificar, mas o Simplex quis simplificar demasiado, quis ir longe demais. Sobretudo, é preciso criar regras que sejam claras de norte a sul do país: termos 308 municípios em que cada um tem as suas regras, os seus regulamentos, não facilita as coisas. É essa simplificação que precisávamos. Querer tirar responsabilidade às câmaras municipais por via do Simplex e entregá-la toda aos promotores e projetistas não é a solução.

Casas novas às portas de Lisboa
Um dos edifícios do empreendimento Clarissas, em Sacavém Créditos: Thomas & Piron

Qual seria, então, a solução?

Não há uma solução ótima, mas há várias que são um exemplo lá fora e que podem ser postas em prática. Uma das coisas que diria é: cada território tem a sua particularidade e deve ser tratado tendo em conta as suas especificidades, mas se por norma a base for idêntica em todos os concelhos, começa por ser um princípio.

Depois, mudar um pouco as regras daquilo que é o financiamento das operações, não só do lado do promotor, mas do lado do comprador final. Se adotarmos, por exemplo, um sistema como tem a Bélgica, o Luxemburgo e mesmo a França… quem compra em planta tem uma melhor segurança que a que há em Portugal, sendo o financiamento feito através da banca. Ou seja, pegando no que está a acontecer nos nossos projetos, em que colocámos um à venda há um mês e está 50% vendido. Se esses 50% de compradores forem os adquirentes finais e se a banca financiar esses adquirentes para nos irem pagando à medida que a construção vai avançando, ficaria mais barato para toda a gente, para nós e para o adquirente final, porque se constrói mais rapidamente. E se nós poupamos dinheiro, o adquirente final também. Agora é preciso mudar o paradigma de hoje, em que a banca diz: vocês [promotores], para serem financiados, para abrirmos crédito a construção, têm de ter 30% de pré-vendas. Para nós termos essas pré-vendas temos de ir buscar investidores, porque a classe média comprar em planta está complicado. Esse paradigma tem de ser mudado.

Considera que a redução do IVA na construção para 6% ajudaria a aumentar a oferta de casas no mercado, como defendem alguns players do setor?

Era importante baixar o IVA, como é óbvio. Quem está no setor sabe disto, mas não sei se a maioria dos portugueses sabe: entre 35% a 40% do custo de uma habitação vai para o Estado. E a grande fatia é o IVA, 23%. Em tudo aquilo que se gasta para construir uma habitação o IVA é aplicado, tirando as taxas camarárias. Mas em tudo o resto o IVA é aplicado à taxa de 23%, tirando quando estamos em zonas de reabilitação urbana, como é o caso do Clarissas, em que a taxa do IVA na construção é de 6%. Portanto, se o IVA  baixar de 23% para 6% é uma ajuda, como é óbvio. Agora, será que isso por si só vai fazer com que o preço da habitação baixe? Diria que não vai baixar na mesma proporção. Se baixar o IVA 17%, o preço final não vai baixar 17%, é capaz de baixar 10%, 12%.

Há outro tema importante: não temos capacidade instalada para construir tudo aquilo que o país precisa. Estou a falar de obras públicas, de habitação etc. Mas, se calhar, baixar o IVA da construção para 6% vai fazer com que, por via do custo da construção, os preços consigam estabilizar. Não vão forçosamente baixar, mas pode ser que deixem de subir.

Gaia Hills
Empreendimento Gaia Hills Créditos: Thomas & Piron

A T&P está atenta ao mercado de Build to Rent (BtR) ou o foco está sobretudo no Buil to Sell (BtS)?

O Clarissas é claramente um projeto BtS, é construir para vender. Poderá aparecer um ou outro investidor a querer comprar apartamentos para os colocar no mercado de arrendamento, e é óbvio que não vamos fechar a porta a esse tipo de investidores e de mercado, mas na essência o projeto está pensado para BtS. A T&P lá fora [nos outros cinco países onde opera] é promotor, construtor, vendedor… estamos nas vertentes todas do negócio. Em Portugal, somos essencialmente promotores imobiliários, e o BtR não é o nosso ‘core business’.

Há mais portugueses ou estrangeiros a comprar as casas e/ou projetos que a T&P promove e desenvolve?

O Conde de Lima foi 80% vendido a estrangeiros, o Gaia Hills está com uma fatia de cerca de 60%/65% de portugueses e o Docks Matosinhos, dos 31 apartamentos, 90% são portugueses. Sobre a perspetiva de que se está a construir muito para estrangeiros… nos nossos projetos não tem sido esse o caso, tirando o Conde de Lima, que era para a classe média-alta, com outro preço.

Como será possível aumentar a oferta de casas no país e que papel tem o Governo?

O mercado da habitação em Portugal precisava de ter uma terapia de choque. Uma terapia de choque, faço-me entender, que juntasse à mesa todos os setores que estão envolvidos no desenvolvimento, na promoção imobiliária, na construção, nos materiais de construção, as associações do setor. Sentar toda a gente à volta de uma mesa e que toda a gente viesse limpa de espírito, portanto, com ideologias à parte, a dizer vamos trabalhar em conjunto para resolver o problema. Só assim conseguiremos. Medidas avulso, à esquerda e à direita, funcionam, mas durante muito pouco tempo.

"O mercado da habitação em Portugal precisava de ter uma terapia de choque. Uma terapia de choque, faço-me entender, que juntasse à mesa todos os setores que estão envolvidos no desenvolvimento, na promoção imobiliária, na construção, nos materiais de construção, as associações do setor"

Quando digo terapia de choque dá a entender que é quebrar com tudo o que está para trás e arrancar de novo. O ideal seria isso. Não sendo possível, as coisas devem ser escalonadas atempadamente, deve discutir-se, falar-se, abrir o diálogo franco à sociedade, perguntar à sociedade o que acha, aos promotores o que acham, como se deve fazer, ir buscar as boas soluções que se fazem lá fora. Só assim conseguiremos ir a algum lado.

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