Teresa Ribeiro: "Os espaços têm que prevenir a doença física, psíquica, emocional e social"

Pioneira no estudo e divulgação da neuroarquitetura, tem como objetivo integrar estes conhecimentos na arquitetura portuguesa.

Teresa Ribeiro é considerada pioneira no estudo e investigação em neuroarquitetura em Portugal. Apaixonada por esta disciplina que cruza arquitetura e neurociência para compreender de que forma os espaços influenciam o comportamento, as emoções e o bem-estar humano, tem um objetivo claro: integrar a neuroarquitetura na formação e prática da arquitetura portuguesa.

Com mais de 20 anos de experiência, esta arquiteta construiu o seu percurso entre o rigor técnico e a sensibilidade ao impacto humano do espaço. Colaborou com a equipa de Arquitetos sem Fronteiras, consolidando uma visão da arquitetura como ferramenta de transformação social. A sua experiência internacional estendeu-se a Moçambique, onde desenvolveu projetos habitacionais em Maputo e colaborou com ONG’s e iniciativas de apoio à comunidade local. Estas experiências reforçaram a sua convicção de que o espaço construído não é neutro: influencia comportamentos, dinâmicas sociais e qualidade de vida.

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Atualmente, Teresa Ribeiro está em Lisboa, onde dirige e coordena o departamento de projeto e controlo de qualidade da promotora imobiliária familiar Irmãos Mota. Entre gestão, investigação e projeto, posiciona-se na interseção entre ciência e arquitetura, defendendo que o futuro da construção passa não apenas por edifícios mais eficientes, mas por espaços verdadeiramente desenhados para o ser humano.

Afinal, o que é neuroarquitetura?

A neuroarquitetura é uma disciplina que estuda o impacto do meio construído no cérebro humano. A interpretação do que é o impacto no cérebro humano significa que todos os estímulos exteriores que nós recebemos, e recebemos pelos nossos sentidos, que são vários, não são só cinco, são processados pelo cérebro. Com esta base, tentamos perceber cientificamente quais são as pistas que levam determinados espaços a comportarem-se da forma como nós os idealizamos enquanto arquitetos, construtores, urbanistas e, eventualmente, atores da saúde. 

Há mais de cinco sentido?

Para além dos sentidos que tradicionalmente estudamos, há outros, como a proprioceção, que é a perceção do espaço mais próximo que temos e que nos permite sentir as coisas fora do nosso corpo, dentro de um espaço próximo. Todos esses sentidos são como recetores que capturam estímulos. Nós estamos aqui e estamos a receber estímulos. Recebemos estímulos longínquos, lá de fora, há ruído, há iluminação, há cheiros. Todos esses estímulos são processados no nosso cérebro e o output são os nossos comportamentos.

É isto que estudamos: como é que o espaço, composto por todos estes estímulos, provoca as nossas emoções e as respostas do nosso corpo e do nosso cérebro.

Estamos sempre num espaço, ocupamos sempre um espaço. E a questão é perceber de que forma ele impacta na nossa qualidade de vida.

Em que se traduz concretamente o trabalho da Academia Portuguesa de Neuroarquitetura?

A ideia de criar a Academia Portuguesa de Neuroarquitetura surgiu de várias tentativas de abordagem a algumas instituições em Portugal e, como o outcome não foi muito positivo, já existia um grupo de pessoas interessadas e a estudar em Portugal. Eu iniciei fora e temos um grupo internacional muito robusto há alguns anos, que continua a desenvolver trabalho a nível internacional.

II Encontro de Neuroarquitetura
Teresa Ribeiro II Encontro de Neuroarquitetura

Em Portugal começámos a ter algum quórum e achámos que seria interessante criar uma base de conhecimento. Essa base traduz-se, na maioria dos casos, em trazer para Portugal o que já está a ser estudado, falado e publicado noutros países, de forma transversal, com três pilares. O primeiro pilar é a informação: traduzir a informação existente para que esteja acessível a qualquer pessoa interessada. O segundo pilar é a formação: arquitetos, não arquitetos, qualquer pessoa relacionada com a área que tenha interesse pode ter acesso à formação, traduzindo também o conhecimento. O terceiro pilar é a prática, que se divide em duas grandes ideias. A primeira é a prestação de serviços de consultoria e projetos na área da neuroarquitetura. A segunda é a investigação, para que todos estes projetos e práticas funcionem como prova de conceito e tragam novas evidências.

É um campo bastante recente e que está a evoluir diariamente, alimentado por investigações que decorrem a todo o momento em vários polos a nível global. Existem pólos na China, na Ásia, na Europa, muito forte nos Estados Unidos, no Brasil e no México. A ideia é que todos estes projetos sejam também uma base para a criação de novas evidências. A criação da Academia teve como objetivo abrir portas a este conhecimento em Portugal e permitir que estejamos mais integrados no que se faz no resto do mundo.

Existem casos práticos, cá ou lá fora, em que já tenha sido desenhado um espaço com base nestes princípios?

Sim, existem vários exemplos. Podemos falar dos Maggie Centers, centros de recuperação de pessoas com cancro. Um muito conhecido é em Londres, na Inglaterra, que tem uma filosofia e um conceito de conceção totalmente baseados na recuperação, no "healing", na cura. Falamos dos materiais, da forma como a luz entra, da forma como a pessoa navega no espaço, das opções que o espaço dá. Dá opções de convivência, mas também de recolhimento.

Maggie’s Leeds Centre / Heatherwick Studio
Maggie’s Leeds Centre Heatherwick Studio

Todos estes conceitos estão baseados no objetivo daquele espaço: acolher as pessoas em primeiro lugar. É o Human Centric Design, o projeto centrado no humano. O que é que vai acontecer à pessoa quando entra e utiliza aquele espaço Existem já hospitais pensados com esta filosofia. Há também escolas nos Estados Unidos com edifícios baseados não só na ideia de cura, mas na prevenção da doença, que é uma das bases da neuroproteção: o design salutogénico. Partimos de uma base científica sobre o impacto de determinadas estratégias de design. A ideia é que os espaços não só contribuam para o bem-estar, mas também para prevenir doença física, psíquica, emocional e social.

Maggie’s Leeds Centre / Heatherwick Studio
Maggie’s Leeds Centre Heatherwick Studio

Existem erros flagrantes nas nossas casas e escritórios que nos estejam a pôr doentes?

Existem erros que empiricamente percebemos que são erros, mas vamos-nos habituando a viver com eles. Um deles, que está cientificamente provado como importantíssimo e que muitas vezes negligenciamos, é o acesso à luz natural. O acesso à luz natural está ligado ao ciclo circadiano. Quando o sol nasce, quando o sol se põe, a intensidade e a cor da luz influenciam-nos. Somos seres biológicos e vivemos com o som do sol. Quando não temos contacto com luz natural, os ciclos circadianos desregulam-se, surgem perturbações do sono e, a longo prazo, essas perturbações têm um impacto muito significativo no sistema imunitário e na saúde mental. O início de burnouts pode culminar em depressões profundas e até em suicídio. 

Negligenciar o acesso à luz natural pode ter este nível de gravidade. Podemos também falar da vitamina D, da serotonina e da falta de empatia e de relacionamentos. Os relatórios anuais da felicidade referem que a pandemia mundial atual é a solidão, e a solidão está a matar pessoas. Como é que os espaços ajudam as pessoas a encontrarem-se mais, a estarem mais presentes, a relacionarem-se, a criar comunidade e sentido de pertença? Tudo isso tem impacto direto na saúde. Como criadores de espaços, temos responsabilidade. Atuamos na vida das pessoas para a melhorar. É nesse sentido que falamos em saúde salutogénica: prevenir que este tipo de situações aconteça.

Os centros comerciais, por exemplo, são problemáticos?

A esmagadora maioria dos centros comerciais são problemáticos, sobretudo para quem trabalha lá. Existem estratégias como as luzes circadianas, que tentam mimetizar a luz do sol. Durante a pandemia tentaram aplicá-las em hospitais para médicos e enfermeiros que passavam muito tempo sem luz natural. Houve um estudo interessante na Universidade de Sevilha sobre uma lâmpada que, além de simular o ciclo circadiano, tinha uma radiação dentro do espectro que matava algumas bactérias, sendo estudada como esterilizador por UV. Existem muitas opções, mas continuamos a ver soluções menos salutogénicas, talvez mais económicas ou mais conhecidas. Por isso este conhecimento é importante: quem desenha, constrói e produz deve perceber o papel que tem na vida das pessoas.

Odivelas Hills
Odivelas Hills Teresa Ribeiro

Nas casas, há mudanças simples que as pessoas possam fazer?

Há situações práticas que podem ter impacto significativo no bem-estar. Mas é preciso perceber que atividades se fazem em casa: há teletrabalho? Há crianças?

A casa deve ser o nosso refúgio. Deve permitir recuperação e restabelecimento. A privacidade e o controlo são fundamentais. O ruído é uma questão essencial. Mesmo que não o sintamos conscientemente, causa danos a longo prazo. Para além da luz natural, é importante que existam espaços delineados para diferentes tarefas. O espaço onde se convive é o espaço onde se convive; onde se dorme, é onde se dorme; onde se trabalha, é onde se trabalha. Pode haver um espaço comum, mas deve haver divisão. O cérebro interpreta essas referências. Quando não estamos orientados, o cérebro gasta energia a procurar segurança.

 O cérebro tem duas funções principais: poupar energia e prever. Está sempre a prever. Se o espaço não oferece uma ideia clara de como chegar onde queremos, essa perda de orientação pode significar insegurança e ativar o sistema de alerta, o fight or flight. Esse sistema tem várias consequências e ataca principalmente o sistema imunitário. Pequenas situações repetidas aumentam níveis de insegurança e stress. Se mitigarmos isto numa casa, num ambiente de trabalho, numa cidade, numa escola ou hospital, contribuímos para o bem-estar e qualidade de vida. No ambiente da casa, o cérebro perceber onde faz cada coisa aumenta o conforto e permite maior relaxamento.

Se o espaço não oferece uma ideia clara de como chegar onde queremos, essa perda de orientação pode significar insegurança e ativar o sistema de alerta, o fight or flight.

Os materiais também impactam?

Impactam muito. A textura, a cor, a forma como absorvem ondas sonoras, como se comportam com a humidade e a luz, tudo isso influencia o bem-estar. Na neuroarquitetura temos uma máxima: nenhum espaço é neutro. Quando pensamos num espaço neutro, imaginamos uma sala branca com luz branca. Mas aquilo que consideramos neutro pode ser o mais nocivo. O cérebro precisa de referências. Evoluímos biologicamente de forma mais lenta do que o meio evoluiu. Durante muitos anos vivemos em contacto com a natureza e o cérebro ainda associa madeira, água e verde a descanso e recuperação.

Quando vamos para a natureza, relaxamos e recarregamos energias. Materiais que nos remetem para esse contacto são sinais de bem-estar. Está provado por vários estudos. Não é uma moda nem um conceito abstrato para vender mais. Materiais derivados de combustíveis fósseis, como plásticos e compósitos, libertam partículas que não são saudáveis. Ao fim de um dia num espaço assim, a pessoa sente maior cansaço e esforço. O contacto com natureza, plantas, elementos de água ou até sons naturais melhora significativamente a experiência. Isto está ligado ao conceito de biofilia: a necessidade de contacto com a natureza.

Odivelas Hills
Odivelas Hills Teresa Ribeiro

A neuroarquitetura deveria ter enquadramento legal?

Sim. Um dos nossos objetivos é que o meio construído seja considerado saúde pública. Que todos os projetos sejam analisados também pelo seu impacto na saúde humana e no impacto social. Já existe alguma legislação europeia nesta área, como a taxonomia e revisões recentes ligadas aos ESG (Environmental, Social and Governance), onde se fala de sustentabilidade social, mas ainda é tímida. Há uma ligação muito forte entre sustentabilidade ambiental e sustentabilidade social. Trabalhámos durante 20 anos a comunicar sustentabilidade ambiental. Desde o covid 19, percebeu-se que, independentemente de termos um planeta saudável, se as pessoas não estiverem bem, não existe verdadeira proteção nem evolução humana. Hoje discute-se a “brain era”, a era do capital do cérebro. Um edifício ou cidade pode ser ambientalmente sustentável, mas também tem de ser socialmente sustentável. A sustentabilidade social deve tornar-se uma política.

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