Custos da energia pressionam combustível de aviação em Portugal

Portugal está entre os países mais vulneráveis a constrangimentos no ‘jet fuel’, podendo levar à redução e cancelamentos de voos.
Avião no aeroporto de Lisboa
Foto de Hugo Silva no Unsplash

A atual instabilidade no Estreito de Ormuz, devido ao conflito no Médio Oriente, deverá causar um novo choque energético na Europa, afetando a inflação, consumo, cadeias de abastecimento e setores mais dependentes da mobilidade internacional. Este contexto de incerteza, marcado pela subida dos preços da energia e por possíveis perturbações no abastecimento de matérias-primas, poderá causar constrangimentos no abastecimento de combustível para aviação, com o nosso país a ser um dos mais afetados.

Estes são alertas da KPMG, através do relatório European Economic Outlook, que, apesar de considerar improvável uma generalizada recessão na maioria das economias europeias, adverte para a intensificação das pressões inflacionistas se a crise energética se prolongar.

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Embora o relatório aponte para um crescimento da economia portuguesa em 2,0% em 2026 e de 1,7% em 2027, acima da Zona Euro (0,9% e 1,2%, respetivamente), o mesmo coloca o nosso país entre os mais vulneráveis a eventuais reduções no número de voos, cancelamentos ou quebras nas reservas turísticas, num cenário de constrangimentos no abastecimento de ‘jet fuel’. Economias onde o turismo internacional tem um peso expressivo em exportações de serviços estão particularmente expostas a este risco, uma vez que as receitas destas exportações podem ser penalizadas com uma perturbação sustentada na mobilidade aérea.

Em comunicado, Miguel Afonso, Partner e Head of Clients & Markets da KPMG Portugal, destaca o setor do turismo como “um dos pilares da resiliência económica portuguesa nos últimos anos”, continuando a ser “uma vantagem competitiva relevante para o país”, alertando, contudo, para o facto de essa força também criar “uma exposição acrescida a choques externos que afetem a mobilidade internacional, os custos da energia ou a confiança dos consumidores”.

“A eventual pressão sobre o combustível para aviação deve, por isso, ser acompanhada com atenção, não apenas pelo impacto direto no setor turístico, mas também pelos efeitos indiretos que poderá ter no consumo, no emprego, nas receitas externas e na confiança empresarial”, acrescenta o responsável.

Crise pode afetar conjunto mais alargado de máterias-primas

Petróleo
Foto de Matt Brown no Unsplash

De acordo com o European Economic Outlook da KPMG, este atual choque energético é relativamente diferente da crise de 2022 com a guerra na Ucrânia, marcada pela dependência da Europa do gás russo. Neste conflito, um conjunto mais alargado de matérias-primas poderá ser afetado, com vários setores da economia, inclusive as cadeias de abastecimento, a sofrerem potenciais efeitos.

Apesar de a exposição direta da Europa ao gás associado ao Estreito de Ormuz ser mais limitada, reduzindo o risco de escassez física como aconteceu há quatro anos, o impacto nos preços globais da energia e em matérias-primas críticas poderá ser mais alargado, com especial destaque para o petróleo, o gás natural liquefeito, o alumínio, o hélio, o amoníaco e fertilizantes. 

A pressão sobre o alumínio poderá aumentar os custos na indústria automóvel. Quanto às possíveis restrições no hélio, que utilizado na produção de semicondutores, estas poderão criar riscos adicionais para centros avançados de produção na Europa.

Componente energética impulsiona inflação 

Infraestruturas elétricas
Magnific

O relatório da KPMG prevê um acelerar da inflação na Zona Euro este ano, para uma taxa média de 3,1%, devido, especialmente, à componente energética. Indiretamente, os preços de outros bens e serviços poderão também ser afetados pelo aumento nos custos de transporte e da energia.

Com a subida da inflação, o rendimento real das famílias deverá sair penalizado, assim como o consumo privado, que nos próximos meses deve moderar. Apesar destas previsões, a KPMG aponta para que o consumo continue a ser o principal motor de crescimento económico europeu, devido à resiliência do mercado de trabalho. A empresa alerta ainda para a resposta dos bancos centrais, que será condicionada pela duração e intensidade do choque energético. Caso a perturbação no Estreito de Ormuz se prolongue muito mais, poderá haver uma orientação mais restritiva.

Atualmente, e segundo a KPMG, os governos europeus têm uma margem orçamental menor em comparações com anteriores crises, com os apoios atualmente previstos mais limitados face aos da crise energética de 2022, além de serem também temporários e mais direcionados.

“Para Portugal, a mensagem central é clara: a economia mantém fundamentos positivos e uma previsão de crescimento superior à média europeia, mas não está imune a riscos externos. Num país onde o turismo, os serviços e a confiança internacional têm um peso determinante, a capacidade de antecipar cenários, reforçar a resiliência das empresas e diversificar fontes de crescimento será decisiva. Este é um momento em que empresas e decisores devem olhar para a gestão de risco, para a eficiência operacional e para a robustez das cadeias de abastecimento como prioridades estratégicas”, explica ainda Miguel Afonso.

Crescimento na Zona Euro deve desacelerar 

Euro
Magnific

Ainda de acordo com o European Economic Outlook da KPMG, o crescimento da Zona Euro deve passar de 1,4% em 2025 para 0,9% este ano. No entanto, espera-se uma recuperação parcial em 2027, para 1,2%. Em 2026 a inflação deverá subir 1,0%, passando de 2,1% em 2025 para 3,1%, embora no próximo ano deva voltar a recuar para 2,3%. Quanto ao desemprego, deverá manter-se estável nos 6,3%.

Portugal está entre as economias com um melhor desempenho relativamente à média da Zona Euro, prevendo-se um crescimento de 2,0% este ano. No entanto, se a crise energética se prolongar, poderá afetar a mobilidade aérea, o turismo e, consequentemente, a confiança dos consumidores.

A KPMG refere ainda que, o recente anúncio de um acordo entre Estados Unidos e Irão, com a possível reabertura do Estreito de Ormuz, pode amenizar alguns riscos identificados na análise.

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