As imperfeições da madeira podem ser poesia: o nó que interrompe a fibra, a mancha de tonalidade que escapa ao padrão, o veio que muda de direção sem pedir licença. Foi exactamente isto que o Studio Marina Salles Arquitetura e Interiores colocou no centro do seu primeiro projeto na maior mostra de arquitetura e design da América Latina.
Em trinta e um metros quadrados, Marina Salles não desenhou um escritório no sentido convencional, desenhou o refúgio de uma personagem: um designer-marceneiro que faz do espaço de trabalho um laboratório de pesquisa, um sítio onde a madeira deixa de ser matéria-prima escondida atrás de acabamentos para passar a comandar tudo o que ali acontece. Chama-se Home Office Entre Veios e marca a estreia do atelier na 39.ª edição da CASACOR São Paulo, que ocupa pela segunda vez o Parque da Água Branca, com setenta ambientes assinados por mais de setenta e cinco profissionais.
"Mente e Coração", razão e afeto
A edição deste ano da mostra propõe a todos os participantes o tema "Mente e Coração", um convite a desacelerar e a repensar a relação entre quem habita e o que habita. O coração deste projeto, está no gesto, na operação antiga e profundamente humana de pegar numa árvore e transformá-la em artefacto. A mente está no rigor: nos encaixes que têm de bater certo ao milímetro, no desenho que antecipa o comportamento da fibra, no respeito pelo tempo que a natureza impõe e que nenhuma pressa de obra consegue acelerar. Um leitura quase artesanal do binómio razão e afeto, a madeira só funciona se a cabeça calcular e a mão sentir.
No Home Office Entre Veios, o pavimento original em tacos de peroba foi mantido e restaurado, em vez de coberto. É uma escolha que diz muito sobre a intenção do projeto. A peroba é uma madeira densa, de fibra fechada, que envelhece com uma pátina difícil de imitar, e recuperá-la em vez de a esconder é coerente com toda a tese do ambiente: o tempo que já passou pela matéria vale mais do que qualquer acabamento novo a fingir antiguidade.
A estante e um compêndio de design brasileiro
O painel central do escritório organiza-se em módulos de trinta e cinco centímetros de lado, onde o desenho dos veios é rodado noventa graus a cada quadrante. Tens uma tábua com a fibra na vertical ao lado de outra com a fibra na horizontal, e assim sucessivamente, num xadrez que a luz se encarrega de revelar. A isto soma-se uma segunda camada de jogo: a alternância entre o pinho natural, claro e despretensioso, e a madeira carbonizada e escovada, escura e texturada. Esta dupla alternância, cor e acabamento, serve um propósito que é quase intelectual: subverter a perceção tradicional do material.
O recheio é uma declaração de amor ao design de autor do país. Na zona de trabalho, o protagonismo é da mesa Demoiselle, desenho de Lia Siqueira para a Etel, uma das marcas que melhor representa a tradição de marcenaria fina e madeira maciça no Brasil. Acompanha-a a cadeira Gir, de Juliana Llussá. Já o estar de leitura, mais recolhido, organiza-se à volta do sofá Ginza, de Isabelle de Mari, e da poltrona Vaivém, de Leon Ades.
O ponto alto está numa cadeira que carrega história: a poltrona Benjamin foi a última criação de Sergio Rodrigues, o homem que pôs o design brasileiro no circuito internacional.
Nas paredes, as obras de Heloísa Crocco, Advânio Lessa, Rodrigo Bueno e Vitor Mazon partilham um fio condutor: investigam, cada uma à sua maneira, a morfologia e os ciclos de vida da floresta. São abordagens diferentes de um mesmo assunto, da árvore enquanto organismo à floresta enquanto sistema. A esse conjunto junta-se uma aguarela da autoria da própria arquiteta.







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