O Instituto Nacional de Estatística (INE) voltou, esta sexta-feira (26 de junho de 2026), a divulgar as estatísticas das rendas da habitação a nível local. Uma publicação, recorde-se, que estava suspensa desde outubro do ano passado, estando “condicionada à disponibilidade de informação de base da Autoridade Tributária e Aduaneira (AT)”, conforme adiantou, na altura, o instituto. Agora volta a apresentar os referidos dados e com novidades, adiantando que a série nova das Estatísticas de Rendas da Habitação ao nível local decorre da disponibilização ao INE, pela AT, de informação nova e de informação revista relativa ao Imposto do Selo – comunicação de contratos de arrendamento (Modelo 2).
“Essa informação passou a incluir todos os contratos de arrendamento com alterações efetuadas no mês de referência, independentemente da existência de recibo de renda eletrónico emitido nesse mês, bem como variáveis novas relativas ao número de contrato e à identificação dos locadores do tipo ‘sociedade’”, explica o INE.
Nos primeiros três meses do ano, segundo indicou o INE, a renda mediana dos novos contratos fixou-se em 9,46 euros por metro quadrado (m2), um aumento de 9,1% face ao mesmo período de 2025. Trata-se de uma aceleração em relação ao trimestre anterior, quando a subida tinha sido de 7,9%, O número de novos contratos também cresceu , embora de forma ligeira: mais 0,7% que no primeiro trimestre de 2025, para 39.395.
O que muda na divulgação dos dados do INE sobre as rendas?
De acordo com o gabinete nacional de estatísticas, foram incorporadas nesta análise as seguintes alterações nos procedimentos de tratamento estatístico:
- As comunicações de contratos de arrendamento com motivo “submissão” e “substituição de contrato” são corrigidas por “alterações”, “anulações” e “cessações” de contrato, desde que ocorram no mês da data de início do contrato. Na série anterior, estas alterações, anulações e cessações eram excluídas;
- Excluem-se os contratos de arrendamento cujos artigos gerados apresentem, nos últimos 12 meses, qualquer preenchimento da variável “Parte arrendada”. Na série anterior não existiam restrições baseadas nesta variável;
- São considerados os contratos de “arrendamento” e “subarrendamento”. Caso tenham início no mesmo mês, considera-se o contrato de “subarrendamento”. Na série anterior eram excluídos os contratos de “subarrendamento”;
- Excluem-se os contratos de arrendamento que abrangem múltiplos artigos gerados;
- São considerados os contratos de arrendamento com valor de renda entre 100 euros e 6.000 euros. Na série anterior eram considerados contratos de arrendamento com valor de renda entre 100 euros e 4.000 euros.
O INE esclarece ainda que com esta nova edição das Estatísticas de Rendas da Habitação ao nível local inicia-se também a divulgação do número e do valor mediano da renda por metro quadrado (m2) segundo novas variáveis de segmentação, que incluem o setor institucional do locatário e do locador e a tipologia dos alojamentos, estruturadas até ao nível das NUTS III e para os municípios com mais de 100 mil habitantes.
Destaque ainda para o facto de ter sido possível alterar a periodicidade de disponibilização de informação, de semestral para trimestral, para os resultados com período de referência de 12 meses.
O INE acrescenta, também, que a utilização da informação agora disponibilizada pela AT, relativa ao universo de todos os contratos de arrendamento com alterações efetuadas no mês de referência, permitiu aumentar significativamente o universo de referência das Estatísticas de Rendas da Habitação ao nível local, em cerca de 50% ao nível nacional, para a generalidade dos trimestres do período em comum entre as duas séries (ver gráfico em baixo).
Ainda assim, apesar do aumento expressivo no número de contratos de arrendamento considerados na série nova, o valor mediano da renda por m2 não apresenta alterações significativas, esclarece o instituto. Ou seja, a linha “série nova” apresenta o mesmo comportamento da linha “série antiga” para o país (ver gráfico em baixo) e para a generalidade das regiões T II, sendo a magnitude das diferenças entre as duas séries pouco relevante no período em comum.
“Apagão” estatístico durava desde outubro de 2025
Foi em outubro de 2025, tal como escrevemos neste artigo, que começou a haver um “apagão” estatístico relacionado com o mercado de arrendamento, tendo o INE suspendido a divulgação das Estatísticas das Rendas da Habitação até março de 2026, deixando Portugal sem dados oficiais sobre o setor.
Uma suspensão, escreveu na altura o Diário de Notícias, que resulta da integração de novos fluxos de informação da AT, depois de alterações legislativas permitirem que inquilinos comuniquem contratos quando os senhorios não o fazem atempadamente.
A verdade é que chegados a março, e estando prevista a divulgação dos dados para dia 27, o INE voltou a anunciar que continuava com a “divulgação suspensa” dos mesmos, estando "condicionada à disponibilidade de informação de base da AT”.
Contactado pelo idealista/news, o INE disse não ter mais informação a prestar, escusando-se a revelar uma nova data para a divulgação destas estatísticas sobre as rendas das casas. Aconteceu agora, dia 26 de junho de 2026.
Qual a importância destas estatísticas para o mercado imobiliário?
As estatísticas sobre os contratos de arrendamento e rendas das casas a nível local é informação útil para avaliar a evolução deste mercado, além de ajudar também a desenhar políticas públicas de habitação para responder à crise habitacional que se vive no país.
“A ausência de dados sobre as rendas durante mais de quatro trimestres consecutivos constitui uma carência significativa para quem se dedica à análise de mercado e, em particular, do mercado imobiliário, que é um dos que apresenta menores níveis de transparência”, dizia, em abril, Martín Díaz Castro, analista de dados no idealista/data Portugal.
De acordo com o responsável, estão em causa “vazios informativos” que “dificultam o desenvolvimento de análises rigorosas, deslocando o debate do domínio da evidência para o terreno de opiniões não sustentadas”.
“Embora as mudanças metodológicas sejam inerentes à produção estatística e, em muitos casos, contribuam para melhorar a qualidade e robustez das séries, não deveriam justificar uma interrupção prolongada de indicadores-chave”, argumentava.
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