A Avenida da Liberdade tem cerca de 90 metros de largura e mais de 1.000 de cumprimento, tendo sido inaugurada em 1886. É uma das principais artérias da cidade de Lisboa e atrai todos os anos milhares de turistas, que ou apenas admiram as montras ou então fazem rolar a economia, comprando peças de roupa e/ou outros acessórios de moda de luxo. Isto não esquecendo os vários hotéis e restaurantes premium que ali abrem portas. E por falar em luxo, importa mencionar as casas, claro, que só estão ao alcance de algumas carteiras. E há ainda as empresas, muitas, que ali assentam arraiais. Mas que segredos esconde, afinal, a Avenida da Liberdade?
Segundo Eric van Leuven, presidente da Associação Avenida – foi fundada em 2011 e reúne mais de 150 associados –, a Avenida da Liberdade “mantém uma identidade muito portuguesa”, sendo “um eixo com forte presença de marcas de luxo”. “Mas é também um espaço urbano vivido e utilizado diariamente por residentes, trabalhadores e visitantes”, conta ao idealista/news.
“A calçada portuguesa, o desenho urbano, os jardins e o enquadramento arquitetónico criam uma identidade única. É também um espaço onde elementos muito lisboetas continuam presentes no quotidiano, como a tradicional venda de castanhas”, acrescenta Eric van Leuven, que nasceu na Holanda e vive em Portugal desde 1982 – além de ser presidente da Associação Avenida é Executive Partner na Cushman & Wakefield (C&W).
Fale-nos um pouco sobre a Associação Avenida.
A Associação Avenida foi fundada em 2011 com o objetivo de reforçar a notoriedade da Avenida da Liberdade e dar uma voz comum aos seus utilizadores. Hoje reúne mais de 150 associados dos setores do retalho, hotelaria, restauração, cultura e serviços, funcionando como uma plataforma de articulação entre operadores privados, entidades públicas e outros ‘stakeholders’ da cidade.
A sua missão passa por valorizar a Avenida, aumentar a sua atratividade e contribuir para a melhoria contínua do espaço público, através de uma atuação nas áreas social, cultural, económica e urbana.
Além da sua intervenção institucional, e a título de exemplo, a Associação organiza eventos que já se tornaram tradição, como a feira quinzenal de artesanato e produtos portugueses, ou certames anuais como Avenida Open Week (em que o público tem a oportunidade de “espreitar” os bastidores de edifícios ou lojas emblemáticos), Tasting in Avenida (com ementas especiais de restaurantes nossos associados) e Jazz in Avenida (um sábado em dezembro com 10 concertos jazz, em varandas e outros espaços na Avenida).
Porque aceitou o desafio de presidir à associação?
Vivo em Portugal desde 1982 e trabalho na Avenida da Liberdade há mais de 35 anos, o que me dá uma visão muito clara da sua evolução. Sou vice-presidente da associação desde 2018 e tenho acompanhado de perto a sua evolução, especialmente nos últimos anos, em que se verificou uma dinâmica muito forte de crescimento e estruturação.
"Vivo em Portugal desde 1982 e trabalho na Avenida da Liberdade há mais de 35 anos, o que me dá uma visão muito clara da sua evolução. Sou vice-presidente da associação desde 2018 e tenho acompanhado de perto a sua evolução, especialmente nos últimos anos, em que se verificou uma dinâmica muito forte de crescimento e estruturação"
Aceitei este desafio porque acredito que a associação está hoje num momento de maturidade que exige continuidade e apoio à execução, para reforçar a Avenida como referência internacional e consolidar o seu posicionamento em Lisboa e no mundo.
Quais são os objetivos a que se propõe?
Os objetivos passam por representar os interesses dos associados junto das entidades públicas, nomeadamente a Câmara Municipal de Lisboa, a Junta de Freguesia de Santo António, associações do turismo e forças de segurança.
Pretendemos também potenciar o fluxo de visitantes e consumidores nacionais e internacionais, reforçar a visibilidade da Avenida e contribuir para a valorização e qualificação do espaço público.
Tudo isto assenta numa visão integrada, em diálogo permanente com associados e entidades públicas, com foco na criação de valor coletivo para a Avenida e para a cidade.
Mantém-se como Executive Partner na C&W. A experiência adquirida ao longo dos anos na consultora poderá, de certa forma, ajudá-lo nesta nova aventura?
Sem dúvida. A experiência adquirida ao longo de décadas no setor imobiliário, em consultoria, permite uma leitura muito clara das dinâmicas dos mercados de investimento e de ocupação, bem como do posicionamento urbano. Permite também uma abordagem estruturada à negociação e à gestão das expetativas de múltiplos ‘stakeholders’, o que é fundamental num projeto com esta natureza.
A C&W é, de resto, uma das empresas associadas. Quais são os critérios para uma empresa se tornar associada e o que têm a ganhar as empresas com a integração na associação?
A Associação Avenida é um projeto aberto a todos os que queiram contribuir para uma Avenida mais dinâmica, atrativa e qualificada, sendo o principal critério a integração na área de atuação da associação e alinhamento com a sua missão. Os associados beneficiam de integração num ecossistema único de ‘networking’, participação em iniciativas conjuntas, acesso a projetos com elevada visibilidade e envolvimento na discussão estratégica sobre o futuro da Avenida.
São já mais de 150 associados dos mais variados segmentos: retalho, hotelaria, restauração, cultura e serviços. Como tem sido a evolução ao longo dos anos?
Desde 2023, triplicámos o número de associados, com a entrada de novas marcas e operadores que reforçam a diversidade e sofisticação da oferta da Avenida. Este crescimento reflete a maior atratividade do eixo e o reconhecimento crescente da importância da ação coletiva da Associação Avenida, que tem vindo a ganhar maior estruturação e capacidade de intervenção.
Entre os novos membros recentes incluem-se, por exemplo, Refood Santo António, Eleventy Lisboa (‘luxury italian fashion & coffee bar no antigo Diário de Notícias’), ÓG Esthetics and Health, Roselyn Silva, Michael Kors e o Altis Avenida Hotel com o restaurante Rossio Gastrobar.
Há noutras cidades mundiais associações deste género?
Sim. Existem modelos semelhantes em várias cidades internacionais, sobretudo em eixos comerciais de luxo e zonas urbanas centrais. Cidades como Barcelona, Madrid, Paris, Londres ou Milão têm estruturas equivalentes que trabalham na gestão coletiva do espaço urbano, promoção e articulação entre setor público e privado. Por exemplo a Associacó Del Passeig de Gràcia (Barcelona), com quem partilhamos ideias e experiências, foi criada em 1952.
É correto afirmar que o “trabalho” da Associação Avenida passa por manter a Avenida da Liberdade atrativa, sendo reconhecida como a principal artéria de luxo em Lisboa?
Sim, mas o trabalho da associação vai além dessa dimensão. A Avenida é um eixo com forte presença de marcas de luxo, mas é também um espaço urbano vivido e utilizado diariamente por residentes, trabalhadores e visitantes.
O trabalho da associação, em estreita colaboração com a Câmara Municipal de Lisboa e Junta de Freguesia de Santo António, tem sido essencial na melhoria contínua do espaço público. Esse trabalho conjunto traduz-se em intervenções mais regulares pela Câmara Municipal de Lisboa na limpeza urbana, manutenção dos jardins e canteiros, requalificação de pavimentos e melhoria do conforto urbano. Destaco aqui a recente inauguração do Lago Tejo, que foi recuperado depois de décadas de abandono.
"A Avenida é um eixo com forte presença de marcas de luxo, mas é também um espaço urbano vivido e utilizado diariamente por residentes, trabalhadores e visitantes"
Destaco ainda o policiamento comunitário no âmbito do Grupo de Prevenção e Segurança da Avenida da Liberdade, iniciado pela Polícia Municipal em novembro de 2024, e que, em articulação com a Associação Avenida e mais de 15 entidades, tem reforçado a proximidade, prevenção e segurança no espaço público.
Há algo que distinga a Avenida da Liberdade de outras artérias de luxo?
A Avenida distingue-se pela sua história e por vários fatores estruturais. Desde logo, pelo seu corredor verde, pela sua escala e pela integração urbana única no centro de Lisboa. Depois, pela calçada portuguesa, que lhe confere uma identidade muito própria. E ainda pela forte componente cultural envolvente, com instituições como o Teatro Tivoli BBVA, o Coliseu dos Recreios, o Teatro Politeama, o Cinema São Jorge, o Parque Mayer e outros equipamentos que criam uma dinâmica cultural permanente.
Além disso, a Avenida tem uma forte identidade comercial com presença relevante de operadores portugueses, desde marcas 100% nacionais – como Rosa & Teixeira, Maria João Bahia, Valverde Hotel, Tony Miranda ou Luís Onofre – até empresários portugueses que representam e gerem marcas internacionais – como André Opticas, Torres Joalheiros, Machado Joalheiros, David Rosas, Boutique dos Relógios ou Stivali, entre outros.
Qual o perfil dos clientes da Avenida da Liberdade (nacionalidades, segmentos, etc.)? Houve alguma mudança nos últimos anos?
O perfil dos clientes é altamente diversificado, com forte presença internacional. Nos últimos anos, temos registado maior expressão de mercados como Brasil, EUA e países europeus como França e Espanha, além de uma base sólida de clientes nacionais.
Existe também uma crescente importância do turismo urbano de lazer e compras. A este propósito, anunciaremos em breve parcerias com um operador de telecomunicações e um emissor de cartões de crédito que nos irão fornecer informação relevante e permanente sobre fluxos de visitantes e respetivos padrões de consumo.
Como têm evoluído os preços por metro quadrado e a rentabilidade para os investidores?
A Avenida da Liberdade mantém-se como a localização prime de Lisboa, com forte procura por parte das marcas de luxo e premium e níveis de ocupação muito elevados.
"A Avenida da Liberdade mantém-se como a localização prime de Lisboa, com forte procura por parte das marcas de luxo e premium e níveis de ocupação muito elevados"
De acordo com os últimos dados publicados pela C&W, a renda para uma loja de 150 metros quadrados (m2) na melhor localização da Avenida ronda 120 euros por m2 por mês, e a taxa de capitalização (a taxa de rentabilidade requerida por um investidor) os 4,15%, o que leva o valor de cada m2 a cerca de 35.000 euros. A título de comparação, em Madrid e Barcelona este valor é 83.000 euros e em Paris 400.000 euros.
Que análise faz da oferta e procura de espaços? Tende a expandir-se para artérias envolventes à Avenida?
A Avenida apresenta uma oferta naturalmente limitada devido à sua dimensão reduzida (cerca de um quilómetro), o que gera uma pressão estrutural constante da procura. Esse fator tem levado, de forma gradual, a algum interesse em artérias envolventes.
Há ainda na Avenida da Liberdade algo que seja muito típico português, a arquitetura, quiçá?
Sim. A Avenida mantém uma identidade muito portuguesa. A calçada portuguesa, o desenho urbano, os jardins e o enquadramento arquitetónico criam uma identidade única. É também um espaço onde elementos muito lisboetas continuam presentes no quotidiano, como a tradicional venda de castanhas.
Alguma mensagem final que queira deixar?
Gostaria de reforçar que o sucesso e a evolução da Avenida resultam de um trabalho contínuo e estruturado em parceria com a Câmara Municipal de Lisboa, a Junta de Freguesia de Santo António e as forças policiais, nomeadamente a Polícia Municipal e a PSP. Esta cooperação tem sido determinante na melhoria progressiva do espaço público, através da limpeza urbana, manutenção dos jardins, requalificação de infraestruturas e reforço da segurança e qualidade da experiência urbana. A Avenida é hoje um espaço mais cuidado, mais funcional e mais atrativo, resultado direto deste trabalho conjunto entre entidades públicas e privadas.
"A Avenida mantém uma identidade muito portuguesa. A calçada portuguesa, o desenho urbano, os jardins e o enquadramento arquitetónico criam uma identidade única. É também um espaço onde elementos muito lisboetas continuam presentes no quotidiano, como a tradicional venda de castanhas"
A Associação Avenida tem também vindo a reforçar o seu papel enquanto plataforma de ligação à cidade, promovendo uma programação regular de eventos gratuitos e abertos ao público, contribuindo para uma Avenida mais inclusiva, dinâmica e vivida por todos.
A Associação Avenida tem também uma forte presença digital, através do site avliberdade.com, onde é possível acompanhar iniciativas e parceiros, e das redes sociais oficiais: Instagram (@avenida.liberdade), Facebook (Avenida.Liberdade) e LinkedIn (Associação Avenida da Liberdade), que funcionam como canais ativos de comunicação com o público nacional e internacional.
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