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Co-living e residências seniores na moda: falta de legislação pode afastar investimento

Photo by Toa Heftiba on Unsplash
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Autor: Leonor Santos

Partilhar em vez de possuir. Viver mais e ter menos. Ser flexível em troca de mais tempo. É assim que as novas gerações encaram o trabalho e a vida. Serão os únicos? Nem por isso. Os mais velhos estão a “surfar” a mesma onda, desafiando a tradição e a regra. E foi assim que os termos no “mundo novo” do imobiliário ganharam força um pouco por todo o mundo. Student housing, co-living, senior housing ou co-working dizem-te alguma coisa? São a nova tendência internacional que está a virar moda em Portugal. Os privados querem investir, mas ainda há muito para fazer em termos normativos e legais.

O emprego “para a vida” já não é uma realidade. Ter carro ou casa própria pode continuar a ser um desejo, mas não se assume como prioridade. A mobilidade e tecnologia transformaram o mundo e deram impulso à mudança, colocando em cima da mesa novos conceitos aos quais o setor imobiliário não pode ficar alheio.

Estas e outras ideias ganharam força na conferência “Are you brave? The Brave New World of Alternatives”, organizada pela APPII - Associação Portuguesa dos Promotores e Investidores Imobiliários esta terça-feira (18 de junho de 2019), em Lisboa - e que teve o idealista/news como media partner.

O que em Portugal se começa a assumir como tendência – ao nível do co-living, co-working ou residências séniores e universitárias– “lá fora” já é uma realidade, segundo o vice-presidente da APPII, Hugo Santos Ferreira. E foi esse o propósito da conferência, que reuniu vários líderes de empresas que estão a impulsionar o futuro destes setores para um debate sobre “aquilo que é preciso fazer”.

Setores alternativos cobiçados por investidores

Philip Hillman, Chairman of Living Capital Markets da JLL – lidera o mercado do Reino Unido, onde muitas destas tendências já estão consolidadas –, garante que os investidores “estão à procura de coisas diferentes”. Não tem dúvidas do potencial do mercado português, por duas razões: são precisas mais camas para estudantes, casas para viver e soluções para uma população cada vez mais envelhecida.

Para o especialista da JLL “as pessoas hoje em dia usam as coisas, não as querem comprar”, dando como exemplo o crescimento e expansão de plataformas de transporte como a Uber, que surgiram para “resolver um problema” e dar “resposta a uma nova necessidade”. “A forma como as pessoas vivem está a mudar”, referiu várias vezes, sublinhando a importância de Portugal apanhar esta “carruagem” enquanto ainda há tempo.

Mas porque é que o co-living, as residências de estudantes e as residências séniores podem ganhar terreno? Para o diretor de expansão ibérica do Medici Living Group (especializado em coliving), Nicolas James Dugerdil, Portugal tem potencial de mercado uma vez que há muitos jovens profissionais à procura deste tipo de alternativas e acredita que “no final do dia as pessoas querem estar umas com as outras, uma vez que estão ligas à tecnologia 24 horas por dia”.

A vida em comunidade e a partilha de espaços comuns que caracterizam o co-living atraem cada vez mais jovens, que querem viver sob o lema da partilha de experiências. O mesmo acontece no segmento das residências séniores. “Estamos a viver melhor e mais tempo”, diz Jorge Fonseca, Founding Partner da Memmo Ville, para justificar a expansão deste tipo de segmento de negócio.

“As pessoas estão ocupadas e tem cada vez menos tempo para cuidar de outras pessoas” e “os mais velhos não querem ser um fardo para os filhos”, nas palavras de Jorge Fonseca. O especialista defende a força desta alternativa de investimento, uma vez que se trata de um tipo de negócio “muito sustentável” e atrativo.

A falta de legislação continua a ser um problema

A lei portuguesa não está, porém, ainda preparada para este tipo de segmentos alternativos. O problema foi salientado por todos os especialistas presentes, sem exceção, e apontado como um dos principais entraves à captação de investimento.

Philip Hillman, da JLL, diz que “o capital não pode esperar que as leis estejam prontas” e que Portugal precisa de fazer alguma coisa para combater estes obstáculos que condicionam a aprovação de projetos, sob pena de ser ultrapassado por outros países na Europa. E o CEO da B-Hive Living, Williams Johnson Mota – está há sete meses no país –, enfatiza estas mesmas questões, argumentando que os serviços portugueses nunca são claros quanto à possibilidade ou não de “fazer isto ou aquilo”. “Em Portugal dizem-me sempre que ‘tudo depende’ e nunca há uma resposta concreta”, asseverou.

Pedro Vicente, da Habitat Invest, partilha da mesma opinião, considerando que as constantes barreiras que são colocadas aos privados podem condicionar o futuro deste tipo de alternativas e do setor em geral. “Devíamos estar a discutir as possibilidades de reter este capital e não de entraves”, corrobora Philip Hillman.