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Viver em Sines: não há oferta para tanta procura e preços dos imóveis continuam a subir

Preços de venda aumentaram na pandemia, e já se sentem os efeitos dos novos projetos de investimento anunciados para a região. Oferta disponível é insuficiente.

Preços dos imóveis sobem em Sines
Câmara Municipal de Sines
Autor: Leonor Santos

Muita procura para pouca oferta. Este é o retrato do mercado imobiliário de Sines, que tem visto os preços subir, (também) à boleia dos novos investimentos anunciados para a região nas áreas da tecnologia e energia. O produto que existe esgota-se em pouco tempo, e os projetos imobiliários em andamento, ou em vias de chegar ao terreno, são poucos e insuficientes, segundo as imobiliárias da zona ouvidas pelo idealista/news. As casas de campo, herdades e os montes alentejanos dão sinais de ser o novo foco da procura, alimentada também pela mudança de estilo de vida impulsionada pela pandemia.

Este concelho do Alentejo Litoral tem estado nas “bocas do mundo”, quer como destino turístico, quer como centro de atração de investimento, dadas as suas potencialidades económicas e localização geoestratégica. Além de albergar um dos maiores portos da União Europeia e um forte polo petroquímico, irá também ser a “casa” de um megacentro de dados, num investimento que irá rondar os 3,5 mil milhões de euros, entre muitos outros projetos que estão na mira. Nos próximos anos, o emprego deverá crescer, assim como o número de pessoas a viver naquela região.

Mas para dar resposta às novas necessidades, é preciso criar mais habitação – sobretudo acessível  –, tal como explica o presidente da autarquia, Nuno Mascarenhas, em entrevista ao idealista/news. Uma opinião partilhada por Ana Paula, da imobiliária Imonusi, e por Humberto Pereira, da Stop and Buy, dois profissionais no terreno que avaliaram o impacto deste novo ciclo de investimentos no mercado imobiliário local.

Preços sobem à boleia (também) dos novos projetos

Os responsáveis das imobiliárias, em declarações ao idealista/news, são unânimes na altura de traçar um retrato do mercado atualmente: não há oferta para tanta procura, num "mercado parado em termos de novas construções e com preços muito elevados”, refere Humberto Pereira. Ana Paula, da Imonusi, conta mesmo que desde que os projetos foram divulgados na imprensa já este ano, “os preços subiram mais 10.000 ou 20.000 euros” e que a procura “triplicou”, algo que está a tornar o “mercado especulativo”.

Falta de oferta de imóveis em Sines
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O problema, consideram, está na falta de oferta – quer para comprar, quer para arrendar. Para o responsável da imobiliária Stop and Buy, os projetos em andamento (ou em vias de chegar ao terreno) são poucos e “manifestamente” insuficientes, caso se concretizem todos os projetos industriais anunciados. “Provavelmente a procura vai crescer ainda mais, pelo que os preços serão ainda mais elevados. Deverão surgir novos construtores neste mercado que farão novos empreendimentos o que levará, ainda assim, a uma agitação do mercado dos usados”, salienta Humberto Pereira.

Na cidade "já estão a surgir algumas soluções de apartamentos e moradias, mas quando surgem é tudo rapidamente vendido”, acrescenta Ana Paula. A consultora imobiliária considera que o mercado está a estagnar e que, se nada for feito, “vai chegar uma altura em que não há nada para vender”.

Evolução dos preços de venda e arrendamento em Sines em 2020

No mercado residencial de venda no concelho de Sines, os preços estiveram em crescimento até ao final do ano de 2020, com uma pequena quebra nos valores no 3º trimestre, tal como mostram os dados do idealista/data.

No primeiro trimestre de 2020, o preço unitário estava nos 1.488,80 euros por metro quadrado (euros/m2), passando para os 2.049,90 euros/m2 no quarto trimestre de 2020. A variação foi de 38%.

Relativamente à variação de leads, no último trimestre de 2020, observa-se uma pequena queda de 12%, face ao início do ano. O stock, sua vez, sofreu, um incremento de 3%, no mesmo período.

“No mercado residencial de venda, percebe-se um aumento significativo dos preços unitários, sobretudo no último trimestre de 2020, embora a procura tenha diminuído ligeiramente. O número de imóveis manteve-se estável”, comenta Inês Campaniço, responsável do idealista/data em Portugal.

No que diz respeito ao arrendamento, observa-se uma queda dos preços médios na ordem 5% no quarto trimestre de 2020, relativamente ao primeiro trimestre de 2020. No arranque do ano, atingiu-se o valor mais elevado, ou seja 950 euros/mês.

Relativamente à variação de leads, os dados do idealista/data mostram que no último trimestre de 2020 verificou-se uma quebra de 47% relativamente ao início do ano. O stock sofreu no mesmo período uma variação de -23%.

“No mercado residencial de arrendamento, os preços diminuíram logo a seguir ao primeiro confinamento, tendo recuperado no fim de 2020. O grande impacto foi sentido na procura e no stock, observando-se uma grande descida, tendo entretanto a procura recuperado nos primeiros meses de 2021 para valores de pré-covid”, acrescenta a responsável do idealista/data.

Procura de herdades e montes alentejanos dispara

O idealista/news quis ainda saber junto das imobiliárias a operar na zona quais as tendências de mercado ao nível das tipologias de imóveis. Além dos típicos apartamentos (entre T2 e T3), o mercado das moradias também tem tido muita procura, especialmente no contexto de pandemia, com mais pessoas a quererem ter espaços exteriores – neste caso, maioritariamente portugueses, e na maior parte dos casos para habitação própria.

Quem também registou um aumento da procura foi o segmento dos rústicos. De acordo com a Imonusi e a Stop and Buy, há cada vez mais portugueses, e sobretudo estrangeiros, que querem herdades e montes alentejanos. Muitos destes clientes para segunda habitação (férias e fins de semana), por exemplo, mas também para investimento.

Procura de herdades e montes alentejanos dispara em Sines
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“Para nós e porque trabalhamos muito o mercado rústico, o nosso saldo é muito positivo. O aumento da procura por casas de campo a funcionarem como segunda habitação, mas também como habitação principal, onde as pessoas podem ter um custo reduzido face às grandes cidades e uma qualidade de vida bastante superior, com a possibilidade do teletrabalho cada vez mais como uma certeza para durar, as vendas aumentaram tanto para clientes portugueses como para estrangeiros”, comenta Humberto Pereira. “Com o desconfinamento aumentou o número de visitas e o interesse pela mudança de estilo de vida está a notar-se cada vez mais”, aponta ainda.

Ana Paula relata um cenário idêntico. Dedica-se, também, a este tipo de propriedades, como herdades e montes alentejanos, e o balanço que faz é muito positivo, dizendo mesmo que não consegue dar resposta a tantos pedidos por falta de oferta. Refere, aliás, que dentro das restrições e limitações, a atividade “excedeu” as suas expectativas e que o “mercado está a reagir bem”. “Quando começou o desconfinamento, sentimos um grande otimismo das pessoas para investir", conclui.