Qualidade de vida no Porto? "É preciso equilibrar a construção nova"

Autarca diz que 'boom imobiliário' terá de “abrandar”, para que cidade seja competitiva. Prefere apostar na reabilitação urbana.
Construção nova no Porto
Pedro Duarte, presidente da Câmara do Porto Getty images

O Porto sentiu um ‘boom’ de investimento imobiliário nos últimos anos, tanto de reabilitação de edifícios como de nova construção (muita para habitação). “Isso é muito bom, porque tem dinamizado a cidade”, considera Pedro Duarte, presidente da Câmara Municipal da Invicta. Mas o autarca ressalva o outro lado da moeda, alertando que a cidade está a “chegar a um ponto limite”, tendo dificuldade em “comportar a densidade habitacional e do edificado tão intensa”. Defende, por isso, que é preciso encontrar “um ponto razoável de equilíbrio” na construção nova no Porto, para que a qualidade de vida e a competitividade da segunda maior cidade do país não sejam comprometidas.

“No Porto, a nossa principal prioridade é apostar na qualidade de vida”, frisou Pedro Duarte, no almoço de empresários organizado pela Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola esta quarta-feira (dia 6 de maio), no qual o idealista/news esteve presente. E o autarca explica porquê: “Acreditamos que as cidades são mais competitivas se derem condições para as pessoas quererem viver, trabalhar e permanecer”.

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Atualmente, “o talento escolhe as cidades em função do seu projeto de vida, que passa por ter oportunidades de carreira, ter segurança, tranquilidade, acesso à mobilidade, acesso à habitação (minimamente acessível), por ter cultura, por ter boas escolas, equipamentos de saúde acessíveis e confiáveis, por ter espaços públicos qualificados e por ter tempo para viver”, argumentou ainda.

“O próprio imobiliário um dia vai começar a desvalorizar se, de facto, a qualidade de vida também decrescer”

Acontece que o Porto, localizado na região norte de Portugal, tem 40 quilómetros quadrados (40 km2) e sofreu nos últimos anos “uma pressão imobiliária muito intensa” de investidores nacionais e estrangeiros, admitiu, reconhendo mesmo que "a cidade está a ter dificuldades em comportar uma densidade habitacional e, principalmente, do edificado tão intensa".

Investidores imobiliários vão continuar a ser bem-vindos no Porto? "Há muitas casas devolutas para reabilitar"

Na visão do atual presidente da autarquia da Invicta (PSD), que assumiu o mandato há seis meses, os cidadãos "precisam de ter qualidade de vida, precisam de espaços verdes, serviços públicos, espaços de convívio comunitários… e se colocarmos prédios atrás de prédios, é muito difícil haver espaço para o resto." Neste contexto, o sucessor de Rui Moreira à frente da autarquia antecipa que "será natural que o Porto, nos próximos anos, tenha de sentir um pequeno atenuar daquilo que tem sido o boom dos últimos anos”, sendo consciente que este posicionamento poderá ser “pouco expectável” para um edil, já que desenvolvimento imobiliário alimenta as receitas do município.

“Vai haver espaço para fazer muita coisa no Porto”, adianta, referindo-se à reabilitação urbana, uma vez que há “muitas casas devolutas que precisam de ser reabilitadas”. “Quem queira investir e promover, com certeza vai continuar a ser muito bem-vindo no Porto. Mas, em conjunto, vamos ter de encontrar um ponto razoável de equilíbrio a esse respeito, porque o próprio imobiliário um dia vai começar a desvalorizar se, de facto, a qualidade de vida também decrescer”, sustenta Pedro Duarte, questionado pelo idealista/news sobre o futuro do investimento imobiliário na cidade. 

Aqui, a principal questão que se deve equilibrar diz respeito à construção de novos edifícios. “Temos de ter algum cuidado em construir novo mais e mais, sob pena de não nos conseguimos mexer dentro da cidade. Não é isso que queremos. Queremos, sim, preservar aquilo que é uma qualidade de vida, um modo de vida que seja, ele próprio, convidativo para vivermos na cidade e não para ficarmos fechados dentro de condomínios de outra natureza”, justifica o presidente da câmara da Invicta, convidando os investidores a olhar para o Porto como o Grande Porto, “como uma cidade que também se vai espalhar do ponto de vista geográfico”.

Casas no Porto
Getty images

“Não quero o Porto dividido entre casas de luxo e bairros sociais”, assume autarca da cidade

Este elevado boom imobiliário e a atratividade do Porto para viver e investir tem consequências ao nível da habitação. “Os preços das casas na cidade estão muito elevados e a construção que temos vindo a assistir é em muitos casos premium, portanto de grande qualidade e preços elevados, naturalmente”, reconhece o autarca. 

Os dados mais recentes do idealista revelam que os preços das casas à venda na Invicta subiram 8,1% no último ano, colocando o preço mediano em 4.044 euros por metro quadrado no final de abril de 2026, um dos maiores valores de sempre.

“O meu compromisso foi construirmos 1.600 casas para este efeito [arrendamento acessível]. E hoje já posso dizer que vamos ultrapassar esse limite”

Este cenário da habitação é, para o autarca, uma questão que há que olhar com seriedade. “Não quero que a cidade do Porto seja, daqui a uns anos, uma cidade dividida entre condomínios de luxo e 13% da população a viver em bairros sociais (…) Precisamos ter classe média na cidade, precisamos ter jovens que estão a começar a sua vida ativa e que têm de ter condições para viver na cidade”, atira na ocasião.

Para atrair a classe média – e, em particular, os jovens – para a cidade Invicta, o município está a implementar um plano de política pública de habitação, vocacionado para arrendamento acessível. “Nestes quatro anos, o meu compromisso foi construirmos 1.600 casas para este efeito [arrendamento acessível]. E hoje já posso dizer que vamos ultrapassar esse limite, vamos fazer bem mais do que isso”, avança ainda Pedro Duarte, acreditando que esta é uma aposta que vai evitar que a classe média seja expulsa do Porto no curto prazo perante os altos preços das casas.

Habitação no Porto
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Mais segurança e mobilidade entre prioridades de Pedro Duarte para o Porto

A visão de futuro do autarca do Porto está bem definida, passando por “uma cidade mais segura, mais flexível, ágil, adaptada, mais sustentável, mais verde, mais limpa, mais acessível, mais amiga das famílias, das crianças, dos jovens, das empresas, amiga de quem nos visita e nos procura”. 

É esse sentido que Pedro Duarte coloca outras duas grandes prioridades para o seu mandato enquanto presidente de câmara nos próximos quatro anos: 

  • Mais segurança: “Embora o Porto seja uma cidade segura, tem um problema de pequena criminalidade que impacta a qualidade de vida das pessoas”, reconhece. Por isso, o executivo municipal está a reforçar o número de efetivos policiais e a vídeo vigilância, entre outras medidas;
  • Mais mobilidade: “Temos cada vez mais carros na cidade dada a atual dinâmica económica”, pelo que “temos de criar condições para que haja uma mobilidade diferente dentro da cidade”, acredita. Além de estar a expandir a rede de metro, outra medida que Pedro Duarte quer colocar em vigor já este ano passa por ter transportes públicos gratuitos para todos os portuenses. E está a desafiar os municípios limítrofes a fazê-lo, embora haja preocupações ao nível da sustentabilidade financeira em cada concelho. Na sua visão, deveria haver uma política de mobilidade metropolitana, mas a Área Metropolitana do Porto não tem competências para tal.

A diversificação das fontes de dinamização económica da Invicta também é outro ponto em que o autarca está a trabalhar. “Hoje, Porto tem uma economia assente essencialmente em turismo e em imobiliário. Isso é bom, mas temos de acrescentar outras variáveis, porque não pode depender exclusivamente do turismo e do imobiliário. Portanto, é muito importante que tenhamos uma economia também com outros setores e áreas de intervenção – é algo que estamos a começar a trabalhar, sendo uma matéria que vai dar resultados, mas não no imediato”, comenta ainda, sem especificar que setores são esses.

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