BCE sobe juros para travar inflação provocada pela guerra no Irão

Regulador europeu aumentou taxas diretoras em 25 pontos base pela primeira vez em três anos. Inflação está acima de 3%.
Juros do BCE a subir
Christine Lagarde, presidente do BCE Getty images

A inflação na zona euro está a crescer para acima de 3% impulsionada pela rápida subida dos preços da energia devido ao conflito no Médio Oriente. E a economia europeia também se ressentiu, ficando praticamente estagnada no arranque do ano. Perante estes indicadores, o Banco Central Europeu (BCE) decidiu agir e aumentar as taxas de juro diretoras em 25 pontos base na reunião de política monetária desta quinta-feira, dia 11 de junho. A sua principal missão é travar a subida generalizada dos preços, mesmo que isso implique uma queda no consumo e investimento.

Depois de manter o preço do dinheiro em 2% na última reunião de 30 de abril, pela sétima vez consecutiva, o guardião do euro avançou com um agravamento da sua política monetária em 25 pontos base para travar os efeitos inflacionistas gerados pelo conflito no Médio Oriente. A decisão foi tomada no encontro realizado esta quinta-feira (dia 11 de junho), em Frankfurt, na Alemanha. 

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Esta é a primeira vez que o regulador europeu sobe as taxas diretoras em quase três anos, marcando uma inversão da sua política monetária. Assim ficam os juros do BCE até, pelo menos, dia 23 de julho, data da próxima reunião de política monetária:

  • Taxa aplicada à facilidade permanente de depósitos passa para 2,25%;
  • Taxa de juro das principais operações de refinanciamento sobe para 2,4%;
  • Taxa aplicável à facilidade permanente de cedência de liquidez cresce para 2,65%.

Adiantando que a decisão de aumentar as taxas de juro diretoras visa "assegurar que a inflação estabiliza no objetivo de 2% a médio prazo", o BCE considera que a "guerra no Médio Oriente está a gerar pressões inflacionistas".

"As perspetivas mantêm-se incertas, com riscos em sentido ascendente para a inflação e em sentido descendente para o crescimento económico. As plenas implicações da guerra para a inflação e o crescimento a médio prazo dependerão da intensidade e da duração do choque sobre os preços dos produtos energéticos, assim como da magnitude dos seus efeitos indiretos e de segunda ordem", lê-se no comunicado.

A entidade liderada por Christine Lagarde acrescenta, na nota, que o Conselho do BCE permanece, com a decisão agora tomada, "bem posicionado para lidar com a incerteza provocada pela guerra", antecipando que acompanhará de perto a situação, tal como tem vindo a fazer: "(...) As decisões do Conselho do BCE sobre as taxas de juro basear-se-ão na avaliação das perspetivas de inflação e dos riscos em torno das mesmas – à luz dos dados económicos e financeiros que forem sendo disponibilizados –, bem como da dinâmica da inflação subjacente e da força da transmissão da política monetária". 

Um cenário de incerteza partilhado por Miguel Cabrita, responsável pelo idealista/créditohabitação em Portugal, que justifica a opção (esperada) do BCE com o aumento inflacionista que se está a observar e que o mercado já tinha antecipado. "A grande questão agora é como reagirá o supervisor se a inflação subir mais que o esperado e, sobretudo, se ultrapassar um pico temporário devido ao impacto da Guerra do Golfo. Não seria surpreendente ver novos aumentos após o verão", antevê.

Esta decisão já era, de resto, amplamente esperada pelos analistas de mercado e já havia sido indicada pelos membros do BCE, com a própria Christine Lagarde a deixar a porta aberta ao agravamento da política monetária na última reunião. Recentemente, Isabel Schnabel, representante alemã no Conselho do BCE, disse acreditar que seria “necessário aumentar os juros em junho”, uma vez que a crise já se está a espalhar pela economia afastando ainda mais a inflação da meta de 2%.

Também o governador do banco central da Eslováquia, Peter Kazimir, avisou em meados de maio que o endurecimento da política monetária em junho era “praticamente inevitável”. E Álvaro Santos Pereira, governador do Banco de Portugal, manifestou-se a favor da subida dos juros do BCE em junho, argumentando que “é importantíssimo atuarmos rapidamente quando existem indícios de que os preços vão subir, do que estarmos à espera que as coisas vão melhorar e que não haja, por milagre, quaisquer efeitos de segunda ordem”, disse em entrevista à Antena 1 e Jornal de Negócios.

A autoridade monetária europeia tomou esta decisão de agravamento do juros, numa altura de mudança na sua comissão executiva, com o croata Boris Vujcic a substituir Luis de Guindos na vice-presidência do banco central, sendo visto como um "falcão" e, portanto, defensor de uma política monetária mais rígida.

Vice-presidente do BCE
Boris Vujcic, novo vice-presidente do BCE Getty images

Porque é que o BCE subiu os juros em junho? 

Os efeitos do conflito no Médio Oriente – que se agravou a 28 de fevereiro, depois dos EUA e Israel terem atacado o Irão – fizeram-se sentir rapidamente em solo europeu, devido ao bloqueio do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca um quinto do petróleo e gás do mundo. 

O Conselho do BCE reconheceu na reunião de 30 abril que esta guerra “provocou um aumento pronunciado dos preços dos produtos energéticos, fazendo subir a inflação e pesando sobre o sentimento económico”. Embora a hipótese de subir os juros tenha sido colocada em cima da mesa nesse encontro, o BCE não se quis antecipar, preferindo ser cauteloso e aguardar por mais dados até junho.

A inflação na zona euro – que antes do conflito estava abaixo de 2% - rapidamente subiu em março para 2,6% e em abril para 3%. As estimativas rápidas do Eurostat apontam para que subida generalizada dos preços seja ainda maior em maio, de 3,2%. Por detrás deste aumento está o crescimento expressivo dos preços dos produtos energéticos que passaram de terreno negativo para aumentar a dois dígitos (deverão ter crescido 10,9% em maio). E também já há sinais de que a aceleração de preços se está a espalhar para outros bens e serviços. A inflação subjacente - que exclui preços mais voláteis como da energia e dos alimentos - cresceu para 2,5% em maio (estava em 2,2% em abril e em 2,3% em março).

No comunicado divulgado esta quinta-feira pelo BCE são também reveladas as projeções mais recentes relativas à inflação, antecipando-se que se situará, em média, em 3,0% em 2026, 2,3% em 2027 e 2,0% em 2028

"No que respeita à inflação excluindo preços dos produtos energéticos e dos produtos alimentares, as projeções de referência apontam para uma média de 2,5% em 2026 e 2027 e de 2,2% em 2028. Em comparação com as projeções de março, os especialistas do Eurosistema reviram em alta as projeções de referência para a inflação em 2026 e 2027, devido à trajetória mais elevada dos preços dos produtos energéticos, a qual deverá, em certa medida, repercutir-se na inflação dos preços dos produtos alimentares, dos bens e dos serviços", é mencionado no documento.

Por outro lado, o conflito acabou por abrandar ainda mais o crescimento da economia europeia. “No primeiro trimestre de 2026, o PIB ajustado sazonalmente cresceu 0,1% tanto na zona euro quanto na União Europeia (UE), em comparação com o trimestre anterior”, prevê o Eurostat. Trata-se de uma desaceleração uma vez que, no fim de 2025, o PIB havia crescido 0,2% tanto na área euro como na UE. Ainda assim, o BCE tem defendido que a economia europeia tem-se mostrado "resiliente" perante os atuais desafios geopolíticos.

Um cenário de abrandamento visível também nas mais recentes projeções do BCE, que indicam um crescimento económico de, em média, 0,8% em 2026, 1,2% em 2027 e 1,5% em 2028. "Estes valores representam uma revisão em baixa para 2026 e 2027, refletindo um impacto mais pronunciado da guerra nos mercados de matérias-primas, nos rendimentos reais e na confiança", sustenta o supervisor europeu.

Foi tento em conta estes indicadores que o BCE decidiu aumentar as taxas de juro diretoras em 25 pontos em junho, na tentativa de travar a subida da inflação na zona euro, que está a reduzir o poder de compra e a ter impacto no investimento. O seu objetivo é trazer a inflação de volta ao seu objetivo de médio prazo de 2%.

Inflação na zona euro
Getty images

Que decisões pode tomar o BCE até ao final do ano?

Uma vez mais, o regulador europeu não se compromete com uma trajetória das taxas específica daqui para a frente. O Conselho do BCE voltou a frisar apenas que "acompanhará de perto a situação e seguirá uma abordagem dependente dos dados e reunião a reunião na definição da orientação apropriada da política monetária". 

Daqui em diante, o BCE continuará atento ao desenrolar da guerra no Médio Oriente, bem como aos seus impactos em solo europeu. Se houver acordo entre os EUA e o Irão em breve, colocando um ponto final no conflito, os preços da energia poderão deixar de pressionar a inflação. Mas se negociações se arrastarem durante mais tempo, os impactos poderão ser ainda maiores, podendo levar o guardião do euro a apertar ainda mais a sua política monetária.

"As implicações da guerra para a inflação a médio prazo e a atividade económica dependerão da intensidade e da duração do choque sobre os preços dos produtos energéticos e da magnitude dos seus efeitos indiretos e de segunda ordem. Quanto mais tempo durar a guerra e os preços dos produtos energéticos se mantiverem elevados, mais forte será o provável impacto na inflação em geral e na economia", referiu o BCE na reunião de abril.

Como a resolução do conflito continua numa maré de incerteza, perante vários avanços e recuos, os analistas de mercado continuam a antecipar, pelo menos, mais um aumento dos juros do BCE em 2026 (de 25 pontos base), o que elevaria a taxa dos depósitos para 2,5%. Não é de descartar, no entanto, que haja uma segunda subida (também de 25 pontos base) até final do ano. O Bank of America, que já esperava a subida dos juros em junho, antecipa outro aumento ainda este ano. Já o CaixaBank fala em mais uma ou duas subidas nas quatro reuniões que faltam até dezembro. 

O departamento de estudos económicos do BPI refere que, hoje, os mercados consideram que há 90% de probabilidade de o supervisor europeu avançar com outro aumento das taxas diretoras em setembro (em 25 pontos base). Além disso, já "prossegue o debate sobre a possibilidade de uma terceira subida no final do ano (taxa de depósitos a 2,75%, com uma probabilidade de 40%)", indica a equipa do BPI citada pelo Diário de Notícias.

Subida dos juros é "um sinal e é necessário"

Na conferência de imprensa que decorreu em Frankfurt após o anúncio da subida das taxas de juro diretoras, Christine Lagarde disse tratar-se de "um sinal e é necessário", assegurando que a decisão foi unânime e que outras alternativas não foram debatidas.

´"É claramente um sinal e é necessário dado a situação económica que se vive, a incerteza que se está a navegar e a previsão de inflação" que a equipa do BCE fez, assegurou Lagarde, adiantando tratar-se de uma decisão "unânime, sem reservas". "Temos feito o nosso trabalho e vamos continuar a fazê-lo", assegurou, citada pela Lusa.

Já o ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, considerou que a subida dos juros em 25 pontos base “não era absolutamente necessária”, enfrentando-se atualmente uma “crise diferente da de 2022”.

“Naturalmente há uma preocupação do BCE. O BCE, que teve uma ação muito importante em 2022 [na anterior crise energética], entendeu dar este primeiro sinal ao mercado, mas veremos nos próximos meses. Eu mantenho a minha opinião de que podia não ter dado este sinal e não era absolutamente necessário, mas respeito naturalmente o mandato e a independência do BCE", frisou o governante.

Tocando na mesma "ferida", os analistas da Ebury comentam que ao contrário do anterior choque energético decorrente da invasão da Ucrânia pela Rússia, o BCE "agiu mais rapidamente desta vez". "Quis claramente transmitir uma mensagem tranquilizadora, sinalizando que está 'bem posicionado' para lidar com a incerteza decorrente da guerra no Irão", acrescentam.

E será que haverá novas subidas de juros até final do ano? "Os mercados estão a descontar totalmente mais um aumento após o verão e, embora concordemos que é possível um maior aperto da política monetária por parte do BCE, contestamos que seja uma conclusão inevitável – e o banco, embora certamente vigilante, não parece estar com pressa", sustentam desde a Ebury.

BCE sobe juros
Getty images

As próximas reuniões do BCE

O Conselho do BCE reúne-se aproximadamente de seis em seis semanas. Este é o calendário das próximas reuniões de política monetária do guardião do euro, nas quais vai anunciar as suas decisões sobre as taxas de juro diretoras:

  • 23 de julho de 2026
  • 10 de setembro de 2026
  • 29 de outubro de 2026
  • 17 de dezembro de 2026

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