Juros do BCE ficam inalterados apesar da guerra – subidas só no verão

Inflação na zona euro está a acelerar e a economia europeia a abrandar. Mercados acreditam em choque energético temporário.
Juros do BCE
Christine Lagarde, presidente do BCE Getty images

Os efeitos do conflito no Médio Oriente já se estão a sentir em alta na inflação da zona euro, por via da rápida subida dos preços da energia. Mas ainda é cedo para agir. O Banco Central Europeu (BCE) continua prudente e espera recolher mais dados antes de mudar o rumo da sua política monetária. Foi por isso mesmo que o supervisor europeu liderado por Christine Lagarde decidiu voltar a manter os juros inalterados na sua última reunião, na passada quinta-feira, dia 30 de abril. Já os mercados financeiros antecipam uma subida dos juros do BCE este verão.

Apesar de a guerra no Irão já estar a pressionar a inflação e a provocar um abrandamento económico, o BCE decidiu não ceder à urgência, mantendo uma postura cautelosa e vigilante sobre o futuro. A manutenção dos juros nos atuais níveis decidida pelo guardião do euro de forma unânime é prova disso mesmo, uma decisão que já era amplamente esperada pelos analistas de mercado.

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Esta é a sétima vez que o guardião do euro mantém os juros inalterados num intervalo neutro, depois de interromper o ciclo de cortes de taxas no verão de 2025. Assim ficam os juros do BCE até à próxima reunião agendada para 11 de junho:

  • Taxa aplicada à facilidade permanente de depósitos fica em 2,00%;
  • Taxa de juro das principais operações de refinanciamento continua em 2,15%;
  • Taxa aplicável à facilidade permanente de cedência de liquidez situa-se em 2,40%.

"O Conselho do BCE permanece bem posicionado para navegar a atual incerteza. A área do euro entrou neste período de subida acentuada dos preços dos produtos energéticos com a inflação em torno do objetivo de 2% e a economia revelou resiliência nos últimos trimestres", lê-se no comunicado.

A própria Christine Lagarde, presidente da instituição monetária, indicou que a natureza instável do conflito - entre guerra, cessar-fogo e negociações - dificulta qualquer antecipação sobre a duração do choque e respetivos efeitos na economia. Essa incerteza "advoga a favor da recolha de informações adicionais" antes de rever o rumo da política monetária, sublinhou, admitindo que uma subida dos juros foi posta em cima da mesa na reunião desta quinta-feira.

“Claramente, o BCE não se quer precipitar com um aumento dos juros preventivo que possa servir para conter a inflação já crescente, devido à atual desaceleração económica na Europa que um aumento da taxa só poderia agravar”, analisa Miguel Cabrita, responsável pelo idealista/créditohabitação em Portugal.

Aliás, a postura cautelosa de manutenção dos juros também foi a estratégia adotada por outros bancos centrais, desde a China ao Japão, passando também pela Reserva Federal (Fed) dos EUA. “Os acontecimentos no Médio Oriente estão a contribuir para um elevado grau de incerteza em relação às perspetivas económicas”, referiu a Fed.
 

Choque energético temporário ou de longo prazo? Inflação e economia já sentem efeitos

O conflito no Médio Oriente tem provocado efeitos rápidos na inflação e na economia europeia, devido ao bloqueio de um quinto do petróleo mundial que normalmente transita pelo Estreito de Ormuz. Agora, o que o BCE quer saber é se estamos perante um choque energético temporário ou não. 

Para já, os efeitos estão à vista. "A guerra no Médio Oriente provocou um aumento pronunciado dos preços dos produtos energéticos, fazendo subir a inflação e pesando sobre o sentimento económico", resume o Conselho do BCE. 

A inflação na zona euro deverá aumentar para 3% em abril, depois de já ter crescido 2,6% em março – estando ainda mais longe do objetivo de médio prazo do BCE de 2%. E o que explica esta subida são precisamente os aumentos dos preços da energia, que deverão ter subido 10,9% em abril (+5,1% em março), estima o Eurostat.

Além disso, há também grandes danos no fornecimento de energia. "A perda líquida de petróleo é estimada em cerca de 13 milhões de barris por dia, aproximadamente 13% do consumo global”, afirmou o BCE, descartando, ainda assim, que já se tenha atingido os cenários mais pessimistas.

Todo este panorama tem impacto no crescimento económico na zona euro, que está a desacelerar. “No primeiro trimestre de 2026, o PIB ajustado sazonalmente cresceu 0,1% tanto na zona do euro quanto na UE, em comparação com o trimestre anterior”, prevê o Eurostat. No quarto trimestre de 2025, o PIB havia crescido 0,2% em ambas as áreas. Os indicadores PMI mostram que a atividade económica na zona euro contraiu em abril pela primeira vez em 16 meses devido ao conflito.

Agora resta saber se a guerra no Irão se vai prolongar ou não, para avaliar a duração dos impactos na economia e inflação. Para já, os mercados continuam a apostar num choque energético temporário. “É possível que o BCE esteja a apostar num choque inflacionista temporário, que não persistirá devido à resolução da crise no Médio Oriente e à procura interna fraca que impedirá que a inflação continue em alta”, analisa Miguel Cabrita.

"Se o conflito for resolvido rapidamente, o choque direto nos preços da energia poderá ficar abaixo das expectativas, e o impacto económico será limitado", Christine Lagarde, presidente do BCE

"Se o conflito for resolvido rapidamente, o choque direto nos preços da energia poderá ficar abaixo das expectativas, e o impacto económico será limitado. No entanto, a perspetiva permanece frágil, e os piores cenários ainda são possíveis", afirmou Lagarde, antecipando que o caminho não será fácil para voltar ao ponto em que se estava antes do conflito.

“Enquanto não soubermos melhor quanto tempo esta guerra vai durar, é realmente difícil saber se isto se revelará uma fase temporária ou um choque muito maior para a economia europeia”, comentou Philip Lane, economista-chefe do BCE.

"As implicações da guerra para a inflação a médio prazo e a atividade económica dependerão da intensidade e da duração do choque sobre os preços dos produtos energéticos e da magnitude dos seus efeitos indiretos e de segunda ordem. Quanto mais tempo durar a guerra e os preços dos produtos energéticos se mantiverem elevados, mais forte será o provável impacto na inflação em geral e na economia", antecipa o regulador europeu.

Além disso, quanto mais se prolongar o conflito que opõe os EUA e Israel ao Irão, maiores são os riscos de agravamento dos desequilíbrios entre oferta e procura de energia, com efeitos em cascata noutros setores-chave, como semicondutores, fertilizantes, química, plásticos, explicou a presidente do BCE. De qualquer forma, aumentar as taxas pesaria sobre a atividade da zona euro, já pouco dinâmica, especialmente sobre o setor manufatureiro abatido pelo choque energético.

PIB na zona euro
Eurostat

Subida dos juros do BCE "sem pressa" - terá sido adiada para o verão

Nas últimas semanas, os responsáveis do BCE mostraram-se prudentes quanto ao aumento dos juros diretores, defendendo que é melhor esperar mais uns meses do que ceder à pressão imediata da guerra. Os analistas de mercado antecipam um aumento dos juros no verão.

Dada “a incerteza e as grandes esperanças de que esta guerra possa terminar em breve”, Yannis Stournaras, governador do Banco Central da Grécia, assume que “devemos esperar”, cita a Bloomberg. E a opinião foi partilhada pelo homólogo lituano, Gediminas Simkus, embora não exclua aumentos das taxas diretoras este ano.

"Não estamos com pressa", declarou na semana passada Martins Kazaks, governador do Banco da Letónia e membro do Conselho de Governadores do BCE, ao Financial Times, acrescentando que “temos ainda o luxo de poder recolher dados e fazer a nossa análise", uma vez que os juros do BCE estão numa boa posição.

Na mesma linha, Luis de Guindos, vice-presidente do BCE, defendeu que a política monetária “tem de ser prudente” e manter-se atenta à duração dos conflitos da Ucrânia e no Médio Oriente. O responsável espanhol reconheceu que nenhuma decisão de política monetária pode travar “um primeiro impacto da inflação”, sublinhando que o aumento dos preços da energia “não é algo que possa ser controlado através das decisões dos bancos centrais”.

"Devemos estar prontos para agir quando tivermos as informações necessárias. O nosso compromisso e nossos parâmetros são claros. Estamos comprometidos com nosso mandato de estabilidade de preços. Garantiremos que a inflação retorne a 2% no médio prazo e agiremos conforme a situação exigir”, assegurou Christine Lagarde.

Após a reunião desta quinta-feira, o regulador europeu avançou em comunicado apenas que "acompanhará de perto a situação e seguirá uma abordagem dependente dos dados e reunião a reunião na definição da orientação apropriada da política monetária". E não se comprometeu previamente com uma trajetória de taxas específica. Mas, na conferência de imprensa após a reunião, Lagarde admitiu que junho será o "momento certo" para reavaliar os dados económicos à luz do conflito, abrindo a porta à possibilidade de haver um agravamento das taxas nesse mês.

Juros do BCE a subir
Getty images

Subida dos juros em junho com 80% de probabilidade... 

Ainda que o tom prudente marque o discurso dos membros do Conselho de Governadores do BCE, os analistas de mercado continuam a prever, pelo menos, dois aumentos de 25 pontos base na taxa de depósitos em 2026, elevando-a para 2,5%. O primeiro aumento está previsto para junho.

“Os mercados avaliam em 80% a probabilidade de um aumento das taxas em junho”, uma “hipótese que consideramos bastante provável”, indicam os analistas da Ebury. Aliás, acrescentam que "um aumento das taxas em junho continua a estar quase totalmente precificado. O facto de os decisores políticos já terem debatido o aumento das taxas – aliado à ênfase de Lagarde na disponibilização de informação adicional nas próximas semanas – sugere que uma medida em junho é altamente realista, na ausência de uma queda acentuada dos preços do petróleo".

“Nos próximos meses, é quase certo que a inflação vai aumentar ainda mais — ou permanecerá nos altos níveis atuais — o que deve levar o BCE a agir e aumentar as taxas em junho, mesmo que apenas em 0,25%”, antecipa Miguel Cabrita.

“Os mercados estão atualmente a precificar cerca de dois aumentos da taxas de juro do BCE durante 2026”, revela Niall Scanlon, gestor de carteiras de renda fixa da Mediolanum. Mas há quem preveja mais aumentos. O CEO da CaixaBank, Gonzalo Gortázar, acredita que o BCE aumentará as taxas de juros até três vezes durante 2026, para 2,75%, com o objetivo de mitigar o aumento dos preços resultante do conflito.

O mercado "tem sido demasiado agressivo", prevendo três a quatro subidas das taxas de juro, analisa Lucía Gutiérrez-Mellado, diretora de estratégia para Espanha e Portugal da JP Morgan Asset Management. Na sua opinião, o único cenário provável neste momento é um aumento das taxas se a guerra no Irão terminar em breve, o que constitui o seu cenário base atual. 

Também os analistas da Ebury afirmam que "os mercados podem estar a precipitar-se ao precificar até três aumentos das taxas este ano". A verdade é que "as perspetivas a médio prazo estão mergulhadas na incerteza e dependem fortemente da evolução do conflito", sustentam.

As próximas reuniões do BCE

O Conselho do BCE reúne-se aproximadamente de seis em seis semanas. Este é o calendário das próximas reuniões de política monetária do guardião do euro, nas quais vai anunciar as suas decisões sobre as taxas de juro diretoras:

  • 11 de junho de 2026
  • 23 de julho de 2026
  • 10 de setembro de 2026
  • 29 de outubro de 2026
  • 17 de dezembro de 2026

*Com Lusa

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