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Investidores estrangeiros mantêm imobiliário nacional “debaixo de olho” em tempos de pandemia

A garantia é dada por altas vozes do setor, que participaram no webcast “Desafios e Oportunidades COVID19", organizado pela consultora Worx.

Photo by Austin Distel on Unsplash
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Autor: Leonor Santos

Portugal parece estar a ser um “bom aluno” no que toca à gestão da pandemia do novo coronavírus. Pelo menos é esta a “impressão” de muitos especialistas em imobiliário que, apesar dos tempos de incerteza que se vivem, acreditam que o setor terá capacidade, e está melhor preparado, para recuperar da crise –, ainda que com a ressalva de que tudo depende do tempo que se prolongue e contornos que esta emergência sanitária ganhar. O comportamento positivo está, de resto, a ser benéfico para a manutenção das atenções dos investidores internacionais, que continuam a manter o imobiliário nacional debaixo do radar, tal como garantem vários players do setor.

Esta foi uma das ideias que foi transmitida no webcast “Desafios e Oportunidades COVID19", organizado pela consultora Worx, e que contou com a participação de Pedro Rutkowski, CEO da Worx, Nuno Rogeiro, analista político, Ricardo Veludo, vereador do Planeamento e Urbanismo da Câmara Municipal de Lisboa, Hugo Santos Ferreira, vice-presidente da APPII, Pedro Vicente, administrador da Habitat Invest, João Crisitina, diretor geral da Merlin em Portugal, Paulo Barradas, diretor geral da Norfin, Jorge Gonçalves, advogado e sócio da Garrigues e Manuel Puerta da Costa, membro da direção da APIPF Associação Portuguesa de Fundos de Investimento, Pensões e Patrimónios (APFIPP).

Pedro Rutkowski, que deu o “pontapé de saída” à sessão, acredita ser importante, apesar de tudo, encarar esta situação inédita de uma “forma positiva” e “olhar para o futuro como um desafio para sair desta situação o mais rápido possível”.

Por sua vez, Nuno Rogeiro, analista político, mostra-se mais cauteloso e apreensivo quanto ao futuro. “O que me preocupa é: vamos regressar à economia ou vamos manter as atuais medidas de saúde pública? Sem saúde a economia vai sofrer, haverá menos trabalhadores, mais risco, mais dificuldades (...) Uma má saúde produz má economia e vice-versa. Como reentrar numa ecnomia normalizada com todas as garantias de saúde? Esta é a grande questão”, refere, considerando ser fundamental definir em que condições as empresas podem voltar a funcionar. O segundo problema, diz, prende-se com as mais recentes perspetivas de crescimento do FMI para a economia global, que “são alarmantes”.

“Aquilo que se prevê, hoje, é uma queda global da economia de 3% em 2020. Na crise de 2008 nós registámos uma queda global de 0,1%.... a diferença é abismal”. Ainda assim, frisa a “perspetiva animadora” que aponta para um crescimento de 5,8% da economia em 2021, referindo que, ainda assim, “há muitos ses”. Apesar disso, Nuno Rogeiro enfatiza os “passos exemplares” que o país deu até agora, e que poderão ser decisivos no futuro.

Hugo Santos Ferreira, da APPII, está convencido de que o imobiliário dará “naturalmente” sinais de abrandamento num curto prazo, como de resto já se verifica noutros setores, voltando a frisar, contudo, a “tranquilidade cautelosa” dos investidores, que continuam interessador em investir em Portugal, pese embora a conjuntura. Não tem dúvidas de que as empresas estarão mais bem preparadas para “aguentar” estes meses de suspensão, mas tudo depende dos contornos futuros da crise sanitária. Manuel Puerta da Costa, da APFIPP, partilha da opinião, frisando os efeitos negativos a curto prazo. “No curto prazo é difícil termos outra visão que não seja a de um negativismo moderado”, diz.

Centros comerciais terão grande desafio pela frente

João Cristina, por seu turno, falou de um “choque sistémico que vai afetar toda a gente”. “No curto prazo teremos um choque grande. A procura vai retrair-se e a dimensão dessa contração é completamente desconhecida, porque não sabemos como será a reabertura das economias depois do confinamento”. Para o diretor geral da Merlin para Portugal, há um segmento que terá de enfrentar, em particular, grandes desafios. Trata-se dos centros comerciais. “Não sabemos até que ponto esta pandemia vai afetar hábitos de consumo e tudo depende dos contornos deste vírus. Teremos, por outro lado, o crescimento do online, que será cada vez mais uma alternativa O setor dos centros comerciais terá desafios pela frente, e terá de ser rápido a responder”, afirma. Por outro lado, defende, os escritórios e logística serão beneficiados: no primeiro caso porque os as empresas vão continuar a vir para Portugal, e no segundo por que se coloca em evidência a necessidade da expansão do espaço industrial e logístico.

A opinião de Jorge Gonçalves, advogado e sócio da Garrigues, não diverge das restantes. Ainda assim, e apesar da maior lentidão na tomada de decisões, garante não existir um efeito generalizado de cancelamento de tomadas de decisão de investimento já em curso, “antes pelo contrário”. Para o advogado o fator tempo é igualmente fundamental.

“Não sabemos qual vai ser a natureza das medidas de saúde pública que teremos de continuar a tomar depois do estado de emergência e isso será determinante”, refere, considerando que esta crise afeta desde já, no imediato, e que no longo prazo afetará, mas de uma forma diferente casa segmento. Ainda assim, frisa o lado positivo daquilo a que tem vindo a assistir. “Tenho percecionado uma reação positiva dos investidores à forma como as coisas estão a ser feitas em Portugal. Uma impressão forte de que como isto está a ser tratado está a gerar confiança também lá fora”, partilha o jurista.

Vistos gold podem ajudar à recuperação

Uma visão partilhada por Pedro Vicente, administrador da Habitat Invest. “Portugal tem sido exemplar na reação ao Covid-19”, diz, adiantando que, no caso da Habitat, está-se a dar continuidade aos investimentos, ao trabalho e recrutamento, e que “muita coisa está a ser feita”. Não deixa de dizer uma palavra sobre os vistos gold, sublinhando a importância de um instrumento que “nos levantou dos escombros” e que poderá ser fundamental para “aliviar o tombo que inevitavelmente vamos sentir, desde que lhe seja devolvida a estabilidade”. “Limitar os golden visa é um erro. Não se pense que se faz coesão territorial desta forma”, frisa ainda, deixando a nota que “um país não se pode gerir com esta aleatoriedade”.

Para Paulo Barradas, da Norfin, “Portugal vai continuar a comparar bem com os outros mercados. Os investidores estão à espera para saber melhor onde apostar e eu acho que com algum otimismo e sorte pode ser tudo mais rápido do que o que podemos estar à espera”. “Preparar-nos para o pior e esperar pelo melhor”, é este o seu conselho.