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Unidades hoteleiras e alojamentos locais querem ser também escritórios (e muito mais) no futuro

Associação da Hotelaria de Portugal propôs ao Governo que unidades de alojamento dos hotéis possam ser usadas para vários fins. A ALEP defende o mesmo para o AL.

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O impacto da pandemia da Covid-19 vai deixando marcas (bem vincadas) na sociedade e na economia. O mundo laboral é uma das frentes mais visíveis das mudanças que se vivem, com o teletrabalho a ganhar mais força do que nunca. E se, agora mesmo, é tempo de estar recolhido em casa, passada esta nova fase de confinamento, quando for hora de voltar à "normalidade", mas ainda com cuidados, tanto trabalhadores, como empresas, podem precisar de soluções alternativas ao espaço doméstico ou aos tradicionais escritórios. Os alojamentos turísticos, a braços com uma forte crise, querem posicionar-se nesta oferta.

Com a permissa de que, no futuro, haverá cada vez mais e diferentes locais para “pôr mãos à obra”, que é como quem diz trabalhar, porque não considerar que seja a partir de um quarto de hotel ou de uma unidade de Alojamento Local (AL)? A utilização destes espaços será também uma forma de lhes dar uma “segunda vida”, já que muitos estão vazios. A “bola” está do lado do Governo, revela a Associação da Hotelaria de Portugal (AHP), que propôs ao Executivo a possibilidade das unidades de alojamento dos hotéis serem utilizadas para vários fins. 

“Seguindo exemplos internacionais e fazendo frente à ausência de turismo, a AHP considera fundamental que parte, ou a totalidade, das unidades de alojamento dos hotéis, presentemente desocupadas e que já servem para alojamento a estudantes, no âmbito de protocolos com as universidades ou semi-residência de profissionais de saúde, possam ainda ter outras utilizações comerciais, de curta ou longa duração: serviços de escritório; espaços de cowork; realização de reuniões; exposições e outros eventos culturais; showrooms; ensino e formação; eventualmente centros de dia ou residências assistidas”, refere a associação, em comunicado, adiantando que “aguarda, agora, o enquadramento legal para estas utilizações”. 

Segundo Raul Martins, presidente da AHP, a “alteração temporária de uso das unidades de alojamento pode ser uma boa alternativa para muitos empreendimentos turísticos”. “Hóspedes, que garantam a sustentabilidade do negócio, não sabemos quando voltaremos a ter”, avisa.

"A alteração temporária de uso das unidades de alojamento pode ser uma boa alternativa para muitos empreendimentos turísticos"
Raul Martins, presidente da AHP

O responsável refere, citado no documento, que “há muito” que a AHP defende “o ‘mix use’ dos estabelecimentos hoteleiros, que possam servir de alojamento temporário a turistas mas simultaneamente de habitação, espaços de escritório, hostels, etc.”. 

Persnickety Prints on Unsplash
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Raul Martins considera, no entanto, que “há várias razões que impelem esta evolução legislativa”. “Por um lado, as funções não são estanques e há uma procura muito dinâmica e ‘nómada’ de soluções não rígidas, por outro a rentabilidade das empresas hoteleiras depende de aproveitarem melhor os espaços, caros, muitas vezes com pouca utilização”, explica. 

O presidente da AHP revela, de resto, que o Turismo de Portugal e a secretária de Estado do Turismo, Rita Marques, mostraram abertura para as soluções apresentadas pela entidade.

De referir que as mais recentes projeções da AHP apontam para que haja até final do ano um encerramento superior a 70% na hotelaria, com uma perda importante de receitas e dormidas. Um cenário que tende a manter-se ou piorar, devido à segunda vaga da pandemia.

Uma oportunidade também para o AL?

Também a Associação do Alojamento Local em Portugal (ALEP) considera que a implementação de uma solução deste género – adaptar espaços de AL a escritórios – pode ajudar a minimizar os efeitos negativos da pandemia no setor. 

“A iniciativa de flexibilização por parte do Governo é positiva, abre portas. A intenção da alteração extraordinária à lei não é só autorizar os cowork ou ‘work away’ em espaços de alojamento turístico, é mais ampla e podem até surgir outras fórmulas ou modelos. Um outro exemplo de flexibilização foi a autorização para apartamentos e vivendas aceitarem alojar estudantes com contratos por quarto ou cama e não apenas a casa inteira como a lei dispunha. Ninguém tem a ilusão que isto vai resolver o problema do impacto da pandemia no alojamento turístico, mas são portas que se abrem que podem permitir a certos segmentos sobreviverem ou até encontrarem novos nichos. Neste aspeto, acho que Portugal até tem sido dos países mais inovadores”, diz Eduardo Miranda, presidente da ALEP, ao idealista/news.

Quando questionado sobre se o serviço de ‘work away’ poderá virar moda no futuro, nomeadamente em espaços de AL – o Lisbon Marriott Hotel, por exemplo, já avançou com este sistema, de adaptar e/ou transformar quartos em escritórios –, o responsável diz ter dúvidas: “Não me parece. O conceito de cowork, centros de escritórios, já está bastante desenvolvido e foi pensado de raiz para isso. Não é novidade. No máximo, o que pode acontecer é que algumas unidades turísticas não muito grandes, que por coincidência tenham um espaço bem adaptado para isso e que no turismo não estivessem bem posicionadas no mercado, e se a crise do turismo continuar, podem optar por converter-se em definitivo para esta atividade, mas vejo isto como algo muito raro e pontual. O objetivo é encontrar um uso alternativo numa situação onde estas estruturas estão em grande parte vazias”.

Eduardo Miranda adianta, de resto, ter conhecimento de, na primeira fase da pandemia, ter havido “executivos que procuravam um espaço fora de casa para conseguir trabalhar com tranquilidade”. “Mas nestes casos reservaram a casa inteira para eles como hóspedes normais de maior duração, normalmente T0 ou T1”, conta, salientando que se “as regras de confinamento forem agravadas” poderá “voltar a haver alguma procura por profissionais para pequenos apartamentos”. 

Photo by Daria Mamont on Unsplash
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