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Rendas congeladas em Berlim? "É uma 'jogada' perigosa" e não vai aumentar oferta de casas novas

Christian Ammann, CEO da Century 21 Alemanha, mostra-se cauteloso com a decisão e lamenta que a cidade seja uma "cobaia" na Europa.

Christian Ammann, CEO da Century 21 Alemanha / Century 21
Christian Ammann, CEO da Century 21 Alemanha / Century 21

Oito em cada 10 pessoas que vivem em Berlim, na Alemanha, são inquilinos, ou seja, há na capital alemã 80% de arrendatários e 20% de proprietários, diz ao idealista/news Christian Ammann, CEO da Century 21 Alemanha. Um cenário muito diferente – praticamente inverso –, portanto, daquele que se vive em Lisboa. Sobre a recente decisão de se avançar com o congelamento das rendas durante cinco anos em Berlim, Ammann mostra-se cauteloso e diz que é preciso “esperar para ver” os resultados, mas considera que a nova lei não contribuirá para o aumento de oferta de apartamentos novos - o grande problema da cidade.

“As novas leis [ver em baixo] aplicam-se apenas em Berlim e é tudo ainda um pouco imprevisível. O mercado de arrendamento ‘explodiu’ na última década, porque em Berlim os preços subiram muito nos últimos cinco anos, com aumentos de cerca de 25% nas rendas médias. Ainda há zonas na área metropolitana que são muito baratas, cerca de 4,5 euros por metro quadrado (m2), mas noutras áreas o valor por m2 chega a 13, 14 euros”, comenta.

De acordo com o CEO da mediadora na Alemanha, com esta nova lei os preços mais altos tenderão a baixar. “Estou curioso para ver o que vai acontecer, até porque antes de mais Berlim tem um problema de falta de habitação. Há falta de casas. Não há oferta de casas novas suficiente para cobrir as necessidades”. 

Essa é, de resto, a maior preocupação de Christian Ammann, que considera que "a nova lei não vai construir nenhum apartamento novo". “Será o oposto e, na minha opinião, os investidores internacionais que têm investido em Berlim nos útimos 10 anos vão deixar de fazê-lo”, avisa. 

Salientando que a escassez de oferta de construção nova na Alemanha também se deve ao facto dos custos de construção estarem mais caros – à semelhança do que acontece em Portugal –, o que acaba por fazer disparar o valor das rendas, Christian Ammann diz que Berlim acabará por servir de "cobaia". “Somos um protótipo, o que é uma má notícia”, afirma, entre sorrisos. “Acredito que a lei vai fazer com que muitos investidores se afastem e creio que é uma ‘jogada’ perigosa do parlamento estadual de Berlim, mas veremos o que acontece”, acrescenta.

“Limitar as rendas não é a solução”

Para Ricardo Sousa, CEO da Century 21 Portugal, os problemas que se vivem em Berlim no mercado de arrendamento são, de certa forma, comparáveis aos de Lisboa, com a exceção do rácio de proprietários, face a inquilinos. “Lisboa está agora na liga principal [do setor imobiliário], a competir com Barcelona, Madrid, Berlim. E temos os mesmos problemas. Em Lisboa, é preciso um mercado de arrendamento maior, e o Governo está a tentar fazê-lo através de programas que visam aumentar a oferta de casas a rendas acessíveis. É uma boa oportunidade”, conta.

“Precisamos de incentivos que façam aumentar a procura e a oferta, qualquer controlo/congelamento de rendas, e vimos isso no passado, fará com que os prejuízos sejam ainda maiores que os benefícios. A resposta fácil de dar é limitar as rendas, mas isso não é a solução, é sim uma solução de meio termo”, acrescenta.

Ana Pinho e a situação em Portugal

Em entrevista ao idealista/news, Ana Pinho, secretária de Estado da Habitação, referiu que, em Portugal, a solução para a crise habitacional não passa por limitar os preços do arrendamento por via administrativa – como acontece em Berlim e como se quer fazer em Espanha – sob o risco de se "perderem ainda mais casas".

Não acreditamos que a melhor via para Portugal seja uma limitação administrativa do preço das rendas. Mesmo, em 2012, com a liberalização sem precedentes do mercado de arrendamento não se fomentou mais oferta, pelo contrário, continuaram-se a perder casas (...). Se a resposta for limitar administrativamente os preços, o nosso receio é que esta perda que estamos a ter de oferta acelere ainda mais. O que queremos é ter mais casas e, por isso, a aposta que estamos a fazer é a oferta pública de incentivos”, disse a governante.

O que vai acontecer em Berlim?

O ‘Mietendeckel’, o novo regime de congelamento de rendas, assenta numa tabela administrativa em que o governo da cidade definiu o preço por m2 que pode ter cada edifício, segundo escreve o Público. A tabela tem em atenção a localização do edifício, assim como características do imóvel, nomeadamente o ano de construção e as valências como aquecimento central e casa de banho.

Segundo a publicação, essa tabela pode começar nos 6,45 euros de renda por m2 num edifício centenário, que tenha aquecimento central e casa de banho, e passar para 9,80 euros de renda por m2 a cobrar nos edifícios construídos entre 2003 e 2013, com as mesmas características de aquecimento central e casa de banho.