Eduardo Souto de Moura foi distinguido com a Medalha de Ouro da União Internacional dos Arquitectos (UIA) de 2026, a mais alta honra mundial atribuída pela organização a um arquiteto em vida. O anúncio foi feito esta terça-feira, 28 de abril de 2026, pela instituição portuguesa, responsável pela apresentação da candidatura, e marca o segundo reconhecimento de um português com a distinção, depois de Álvaro Siza Vieira, em 2011.
A medalha é atribuída de três em três anos, desde 1984, e é classificada pela própria UIA como a mais prestigiada distinção dada a um arquiteto pelos seus pares, escolhida a partir de nomeações submetidas por instituições profissionais de todo o mundo. Para a Ordem dos Arquitectos, trata-se de “um marco histórico para a obra de Eduardo Souto Moura, para Portugal e para a Arquitetura Portuguesa”.
Uma distinção atribuída a poucos
Souto de Moura passa a integrar uma lista restrita de premiados, na qual figuram nomes como o egípcio Hassan Fathy (1985), o indiano Charles Correa (1990), o espanhol Rafael Moneo (1996), o italiano Renzo Piano (2002), o português Álvaro Siza Vieira (2011) e o brasileiro Paulo Mendes da Rocha (2021). O júri da edição de 2026 foi presidido por Regina Gonthier, presidente da UIA, e integrou ainda o arquiteto anglo-ganês David Adjaye e a arquiteta chinesa Lu Wenyu.
Na justificação publicada, o júri reconhece em Souto de Moura uma obra “caracterizada pela inteligência, moderação e um profundo sentido de responsabilidade para com a sociedade”, destacando em particular a doação do arquivo do arquiteto como gesto comprometido com o avanço colectivo do conhecimento arquitectónico e com a arquitetura enquanto prática cultural partilhada e em evolução.
Avelino Oliveira, presidente do Conselho Directivo da Ordem dos Arquitectos, sublinha a dimensão simbólica do prémio:
Souto Moura é autor de uma obra maior, disruptiva e intemporal. Esta distinção é o culminar de um percurso pessoal e profissional de ampla produção arquitetónica e que faz de Portugal um dos lugares incontornáveis da arquitetura contemporânea.
Para a Ordem, o galardão representa um momento de projeção internacional que reforça a imagem de Portugal como referência mundial na arquitetura contemporânea e confirma a solidez de uma escola “reconhecida e admirada globalmente”. A instituição aproveita ainda o anúncio para apelar à sociedade portuguesa que use este reconhecimento como motivo para reflectir sobre as condições de exercício da profissão, tema recorrentemente abordado pelo próprio arquiteto.
Uma carreira de mais de quatro décadas
Nascido no Porto em 1952, Souto de Moura formou-se na Escola Superior de Belas Artes do Porto e iniciou a actividade autónoma em 1981, depois de um período de colaboração com Álvaro Siza Vieira, com quem mantém, até hoje, parcerias pontuais e uma das duplas mais reconhecidas da arquitetura mundial. A sua obra inscreve-se no que internacionalmente se convencionou chamar Escola do Porto, marcada pela atenção ao território, pelo rigor construtivo e pela contenção formal.
Entre os projetos mais conhecidos do arquiteto contam-se a Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais, o Estádio Municipal de Braga, a Torre Burgo, no Porto, o Centro de Arte Contemporânea Graça Morais, em Bragança, a remodelação do Museu Nacional Grão Vasco, em Viseu, e os interiores dos Armazéns do Chiado, em Lisboa. Em 2005, assinou em parceria com Álvaro Siza o pavilhão temporário da Serpentine Gallery, no Hyde Park londrino.
A relação entre obra e território é, aliás, uma das marcas mais identificáveis do trabalho do arquiteto. Em projetos como as casas em Moledo ou no Gerês, a escolha dos materiais (granito, betão, ferro, madeira) e a adaptação à topografia preexistente sobrepõem-se à afirmação formal, num registo que tem influenciado várias gerações de arquitetos portugueses.
O Estádio Municipal de Braga, concluído em 2003 para o Campeonato Europeu de Futebol de 2004, é provavelmente a obra mais reconhecida do arquiteto a nível internacional, em larga medida pela operação de inscrição da estrutura numa pedreira desativada do Monte Castro. A solução, que dispensa duas das bancadas convencionais e expõe a parede rochosa nos topos do recinto, foi unanimemente saudada pela crítica e tornou-se referência recorrente em compêndios de arquitetura desportiva.
A Casa das Histórias Paula Rego, inaugurada em Cascais em 2009, é outro dos projetos que costuma surgir nas listas de obras emblemáticas do arquiteto. As duas torres piramidais em betão pigmentado de vermelho, inspiradas no património rural português, transformaram-se em imagem de marca da vila e demonstram a forma como Souto de Moura trabalha a relação entre a memória local e a expressão contemporânea.
No domínio da habitação coletiva, a Torre Burgo, no Porto, concluída em 2007, representou uma das primeiras incursões do arquiteto na escala vertical. No património, a remodelação do Museu Nacional Grão Vasco, em Viseu, e a intervenção no Mosteiro de Santa Maria de Bouro, reconvertido em pousada, são frequentemente citadas como exemplos de uma abordagem cuidadosa à reabilitação de edifícios históricos, que privilegia o diálogo entre as camadas existentes e as novas.
Pritzker, Leão de Ouro e agora UIA
A Medalha de Ouro da UIA junta-se a uma lista alargada de distinções acumuladas ao longo da carreira. Souto de Moura recebeu o Prémio Pritzker em 2011, comummente designado como o “Nobel da arquitetura”, atribuído pelo conjunto da obra. Em 2018, foi-lhe atribuído o Leão de Ouro da Bienal de Veneza.
A esta lista somam-se ainda o Prémio da X Bienal Ibero-americana de Arquitectura e Urbanismo (2016), o Prémio Wolf de Artes, atribuído em Israel (2013), o Prémio Pessoa (1998) e o Prémio da Associação Internacional de Críticos de Arte, Portugal (1996). Nos Estados Unidos, foi reconhecido pela Academia Americana de Artes e Letras com o Prémio Arnold W. Brunner, em 2019.
O reconhecimento agora atribuído pela UIA tem, no entanto, um significado próprio: ao contrário do Pritzker, atribuído por um júri privado, com sede nos Estados Unidos, a Medalha de Ouro da UIA é decidida no contexto da principal organização internacional de arquitetos, com base em nomeações submetidas pelas ordens profissionais de cada país. É, neste sentido, um reconhecimento entre pares, e o mais alto que esta estrutura confere.
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