"Ir ao escritório é querer estar com colegas, é colaborar, é aprender"

Raquel de Lemos Arnaut, cofundadora da WSS.TECH integrou a Colliers e quer levar design de espaços de trabalho a setores como a hotelaria, retalho e restauração.

Encontrámo-nos com Raquel de Lemos Arnaut nas instalações da Andersen, em Lisboa, um dos escritórios desenhados pela sua equipa. "Uma espécie de cartão de visita, desenhado para servir quem lá trabalha e para impressionar quem o visita."

A arquiteta é cofundadora e Head of Workspace da WSS.TECH, uma consultora especializada na análise e otimização de espaços de trabalho, com soluções de design e tecnologia adaptadas às necessidades das empresas. De forma mais simples, desenha locais de trabalho pensados na saúde e bem-estar das pessoas, seja nos momentos de maior produtividade ou nas pausas descontraídas. "Um lugar onde as pessoas queiram estar", ou "voltar", não tivesse esta empresa nascido em tempos de confinamento.

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Em fevereiro de 2026, a Colliers anunciou a integração da WSS.TECH nas suas operações em Portugal, reforçando a área de Arquitetura e Workplace Strategy. Agora é tempo de viver as cenas dos próximos capítulos, desta vez num desejado contexto cada vez mais internacional. Além disso, levar o novo conceito de design de interiores dos escritórios focado na experiência de quem vive os espaços para setores como os da hoteleria, retalho e restauração faz parte das ambições sonhadas por esta arquiteta apaixonada pelas artes, tal como revela em entrevista ao idealista/news.

Vortal
Vortal WSS.TECH

Qual é a primeira memória que tem de que a arquitetura podia ser a sua profissão?

Talvez mais um acontecimento do que uma memória. Eu fui boa aluna, mas era uma aluna de artes. Sempre adorei a arte e queria ir para a pintura. Cheguei a fazer o exame pré-requisito para Belas-Artes. E foram os meus professores, no 12.º ano, que disseram: “Olha, acho que devias ir para arquitetura, porque tens mais saídas profissionais do que terás em pintura.” Não foi fácil de aceitar. Os meus pais foram super neutros em relação às minhas escolhas. Resolvi entrar no primeiro ano e ver o que acontecia. E foi esse primeiro ano da arquitetura, um ano de abrir muito os olhos, de ver muita coisa, de estudar, de ir visitar, de ir perceber, que me fez perceber que queria ser arquiteta. Até lá, achava que ia voltar para Belas-Artes e tirar pintura.

E essa Raquel apaixonada pela pintura, onde é que a consegue trazer agora?

Eu acho que esta minha paixão pelas artes ainda se reflete muito, não só no trabalho que nós produzimos, mas também no facto de estarmos numa área, dentro da arquitetura, que é muito de interiores. Dos nossos projetos, temos muita obra dura envolvida, técnica, mas no final queremos entregar um trabalho bonito. O escritório é uma peça, um cartão de visita para quem visita os nossos clientes, e eles têm muito orgulho nesse espaço que estão a investir para mostrar a sua cultura, o investimento que fazem, o cuidado e atenção que têm com os seus clientes através do espaço que lhes apresentam. É um trabalho muito de interiores e de detalhe. Eu acho que é aí que essa minha veia de artes acaba por se refletir, porque existem tantos outros arquitetos que não estão nada interessados em interiores, estão mais interessados na volumetria, na geometria, na obra de grande escala.

Andersen
Andersen WSS.TECH

Como é que se chega a esta área tão concreta de desenhar espaços de trabalho?

Tem muito a ver com a necessidade. Por um lado, a empresa tem de ter o tal cartão de visita para os seus clientes, mas há tantas outras empresas que nem sequer recebem clientes nos escritórios. E aí passa por darem aos seus colaboradores o melhor espaço possível. Já havia esta preocupação, desde sempre que há escritórios muito bonitos. 

Hoje em dia existem outras preocupações, pós-Covid, que têm muito a ver com as pessoas quererem voltar para o escritório. Nós temos muitos clientes neste momento a investir e casos de muito sucesso: empresas que não conseguiam que as pessoas quisessem voltar ao escritório, porque ficaram com muito medo de voltar, de estar muito próximas umas das outras. E que conseguiram, com algumas mudanças no próprio espaço ou ao criar um espaço novo, trazer de volta as pessoas. Esse é um fator que tem muita importância, inclusivamente na retenção de talento.

Hoje em dia, as camadas mais jovens querem um espaço de copa, porque não vão almoçar fora. Já não é como a geração do meu pai, que ia todos os dias almoçar fora. O paradigma do espaço de escritório passou a ter muito mais zonas sociais, zonas colaborativas. Aquilo que me traz ao escritório é querer estar com os meus colegas, é colaborar, é aprender. O trabalho de foco posso fazer em casa. E essa mudança da necessidade é que alterou aquilo que pretendemos que o nosso escritório seja.

Eu acho que é aí que essa minha veia de artes acaba por se refletir, porque existem tantos outros arquitetos que não estão nada interessados em interiores, estão mais interessados na volumetria, na geometria, na obra de grande escala.

Qual é a sensação de avançar com um projeto completamente virado para escritórios e, de repente, em pleno Covid, irmos todos para casa?

A nossa história está muito ligada ao Covid. Eu e o Rodrigo trabalhávamos numa consultora internacional, eu a dirigir o departamento de arquitetura, ele o de escritórios. Trabalhávamos muito em conjunto e começámos a falar sobre a adição da tecnologia aos espaços de trabalho. Já havia clientes com problemas na gestão de conceitos como clean desk ou hot desk: sem lugares marcados, sem gabinetes. Se não tenho um espaço assignado, chego e posso acabar sentada ao pé do financeiro. Adoro estar com ele na hora de almoço, mas a trabalhar gostava de partilhar conhecimento com a minha equipa. Faltava tecnologia.

E faltavam dados. Quando recebemos um briefing - "tenho 300 colaboradores, preciso de 10 salas de reunião", isso é muito por sensação. Eu como arquiteta enviava dois colegas com um lápis e uma prancheta a medir o tráfego das pessoas. E as pessoas mudavam o comportamento, porque achavam que estávamos a medir produtividade. Entregávamos sensações, não dados reais. Toda a gente diz que não há salas de reunião. Nós íamos medir e estavam 70% do tempo vazias. Porquê? Porque toda a gente marca reuniões às 11 da manhã de uma quarta-feira. O problema é a utilização, não a quantidade.

Começámos à procura de ferramentas. E houve uma altura, em pleno Covid, todos em casa, em que o Rodrigo me disse: "Esta ferramenta tem de existir. Podíamos trazê-la para Portugal e montar uma empresa." Eu estava num ponto de viragem da minha vida e disse-lhe, com um bocadinho de brincadeira: "Se quiseres adicionar arquitetura, tens aqui uma sócia." "Estás a falar a sério?" "Estou." Montámos a WSS em pleno Covid, a pensar: se correr bem agora, vai correr muito melhor depois. E aqui estamos, seis anos depois.

WSS.TECH
WSS.TECH

Passados seis anos desse “se quiseres uma arquiteta, conta comigo”, recebem a proposta de integração na Colliers, um nome internacional tão forte. Qual é a sensação?

É ótima. É sem dúvida um reconhecimento de que o caminho que queríamos traçar e que percorremos devagarinho se concretizou. Chegámos a um ponto onde queríamos estar. Este passo é estrategicamente muito importante, mas é sobretudo um reconhecimento de que fizemos um bom trabalho. Aquilo que nos diferencia é o facto de termos sido sempre independentes do mercado. Não éramos casados com ninguém. Conseguíamos trabalhar com qualquer empresa porque não estávamos ligados a nenhuma consultora. Com a desvantagem de não chegarmos a muitos sítios, a muitos clientes. Este momento representa o segundo passo que queríamos dar: fazermos parte de uma plataforma que nos traz muito mais oportunidades.

O paradigma do espaço de escritório passou a ter muito mais zonas sociais, zonas colaborativas. Aquilo que me traz ao escritório é querer estar com os meus colegas, é colaborar, é aprender. O trabalho de foco posso fazer em casa. E essa mudança da necessidade é que alterou aquilo que pretendemos que o nosso escritório seja.

Com a Colliers, já conhecíamos parte da equipa. A integração foi super fácil, com toda a parte da direção ibérica. Foi um match praticamente instantâneo. Conseguímos casar muito bem os nossos interesses: a Colliers ficar com uma equipa de arquitetura que já tem trabalho, track record, os seus clientes. E para essa equipa, ganharmos outra projeção e mais oportunidades. Sentíamos que já estávamos limitados. Nunca fizemos praticamente nada em termos de comunicação, era passa-a-palavra dos nossos clientes, recomendações que nos traziam sempre trabalho. Mas aqui estamos a entrar noutro nível.

Acho pessoalmente muito interessantes os clientes corporativos. Tens os guidelines, os brand books, todas aquelas premissas para seguir, mas ao mesmo tempo adoram quando nós damos a volta aos projetos e fazemos as coisas de forma diferente, respeitando tudo isso mas criando um espaço com identidade local.

Ao longo destes anos, que projetos foram mais marcantes ou desafiantes?

Todos eles me são muito queridos, porque fomos duas pessoas a montar uma empresa nova e o voto de confiança que nos deram foi brutal. Estamos para sempre agradecidos, não só aos nossos clientes como aos nossos fornecedores, que nos apoiaram como se fôssemos uma grande empresa. Nós queríamos dedicar-nos ao Workplace Strategy, o trabalho que antecede o projeto de arquitetura no espaço de escritório, onde pensamos exatamente o que vamos fazer, com o apoio da tecnologia. É aquele exercício de “onde estávamos, onde estamos e para onde vamos”. Mas desde o primeiro cliente, veio também a obra. “É para vocês fazerem a obra, claro.” E a partir daí fazemos aquilo que se chama Design Build, desde o design do espaço até à execução e entrega.

Tivemos uma obra muito cedo, a Vortal, uma plataforma de contratação pública que mudou para um espaço com 2.700 metros quadrados (m2) , totalmente em bruto. Chão, paredes e tetos, tudo em pladur. Não havia nada. Não era um fit-out, é a expressão que usamos quando vamos adaptar um escritório a outra empresa. Foi uma obra de raiz, sem um fio elétrico. Fizémos tudo aquilo em menos de quatro meses. Foi uma loucura. É muito giro dizer agora, com uma câmara em frente. Foi horrível na altura. Muitas noites sem dormir, sair de lá muito tarde, uma pressão gigante em toda a gente. Os nossos fornecedores disseram: “Vamos juntos e vamos conseguir.” Ficaram daí equipas para a vida, porque quando se passa por estas coisas e se passa bem, fica-se para sempre.

A Anderson, este espaço onde estamos hoje, é nosso cliente, já fizémos dois escritórios para eles. Vão crescendo e nós fomos crescendo com eles. Temos aqui ao lado a Active Trades, uma corretora online que nos pediu um projeto super diferente e para a qual fizémos um trabalho muito interessante.

Nós queríamos dedicar-nos ao Workplace Strategy, o trabalho que antecede o projeto de arquitetura no espaço de escritório, onde pensamos exatamente o que vamos fazer, com o apoio da tecnologia. Mas desde o primeiro cliente, veio também a obra. E a partir daí fazemos aquilo que se chama Design Build, desde o design do espaço até à execução e entrega.

Na parte da tecnologia, que é a área do Rodrigo, fomos muito mais cedo a grandes contas. O nosso produto é muito diferenciado. Selámos, logo no dia zero, um acordo com a SpaceT, que é a nossa ferramenta, temos a distribuição exclusiva em Portugal e em Espanha, e todos os clientes destes dois países podem ir connosco para o resto do mundo. Um dos primeiros projetos que fizémos em Espanha foi a Warner Music, em Madrid. Neste momento, temos um acordo com 90 cidades. Temos a Galp, o Novo Banco, o SIBS. Foi mais fácil porque é um produto diferenciador. Na arquitetura, se nos derem uma oportunidade, daremos o nosso melhor, e muitas vezes conseguimos ganhar projetos menos prováveis.

Tenho de gostar de estar lá. Volto porque gostei tanto da copa, porque tenho reuniões com qualidade, porque tenho uma sala espetacular, porque posso trabalhar de pé parte do dia, porque tenho uma bola de pilates para melhorar a postura. A nossa equipa gosta muito de pensar nessas coisas diferentes, se calhar uma máquina de imperial, se calhar um baloiço.

Andresen
Andresen WSS.TECH

O que gostava mesmo muito de fazer?

Está definitivamente ligado a esta integração com a Colliers. Eu gostava que tivéssemos mais áreas. Há um voto de confiança tão grande em nós, porque a pessoa que está do outro lado também trabalha numa empresa e não pode decidir tudo. Ele próprio não sabe exatamente o que quer. O pacto é: tu fazes, fazes bonito, fazes bem, fazes rápido, faz barato. Mas o pacto é para tu tomares essas decisões por mim. Isso dá-nos uma dinâmica de projetos por ano que não tem nada a ver com o residencial, onde se passa um mês a trabalhar e um mês a executar. É outra dinâmica.

Mas eu adorava ter outras áreas. Adorava que começássemos a ter projetos de hotelaria. Acho que traz aquilo que somos mais fortes: a parte de interiores e de pensar na experiência, na user experience. No escritório, o que me traz cá? Tenho de gostar de estar lá. Volto porque gostei tanto da copa, porque tenho reuniões com qualidade, porque tenho uma sala espetacular, porque posso trabalhar de pé parte do dia, porque tenho uma bola de pilates para melhorar a postura. A nossa equipa gosta muito de pensar nessas coisas diferentes, se calhar uma máquina de imperial, se calhar um baloiço.

Na hotelaria, está cada vez mais virada para a experiência. Eu não vou só dormir, vou ter uma experiência num hotel. E era uma área que adorava que tivéssemos. Retalho é outra área que também gostamos muito, nunca nos especializámos, mas dentro do retalho de serviços, talvez a restauração. Pelos mesmos motivos: porque hoje em dia também já vamos pela experiência. E eu, que sou uma foodie, que adoro tudo o que é restaurantes, estou sempre a ver coisas e a pensar “isto ficava incrível”. É uma área que gostava muito de explorar mais no futuro.

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