Guerra no Irão sem fim à vista? Juros e preço das casas arriscam subir

Subida do custo da energia pode-se alastrar à construção e habitação se conflito no Médio Oriente se prolongar, admitem especialistas.
Impacto da guerra no Irão no preço das casas em Portugal
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A escalada da guerra no Irão no final de fevereiro fez disparar a incerteza mundial para novos patamares. Os preços do petróleo e do gás, rapidamente, atingiram novos máximos dos últimos anos e levaram as instituições internacionais a aumentar o nível de alerta, devido ao "fantasma" de um novo ciclo inflacionista e das suas consequências para a economia global. 

Sobre os riscos há projeções, mas o impacto real vai depender da duração do conflito reacendido por Donald Trump, junto com Israel. Se for curto, os efeitos serão mais limitados ao setor energético. Mas se a guerra no Médio Oriente se prolongar, a elevada pressão sobre o custo dos combustíveis, gás e eletricidade poderá provocar um efeito dominó, aumentando os custos da construção, os juros do crédito habitação e, finalmente, os preços das casas, além do custo de vida em geral, admitem especialistas em economia, construção e imobiliário ouvidos pelo idealista/news.

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Primeiros impactos da guerra tocam os preços da energia

Antes de mais, importa não esquecer que o choque mais imediato da guerra no Médio Oriente acontece no terreno, neste caso no Irão e nos países do Golfo Pérsico que têm vindo a sofrer ataques militares nas últimas semanas. É precisamente isso que começa por destacar a economista Vera Gouveia Barros: “O primeiro impacto da guerra é sempre sentido por quem a sofre, pelas populações inocentes que morrem, ficam feridas, perdem os seus entes queridos, ficam sem casa...”.

Mas, logo depois, as consequências do conflito armado fizeram-se sentir em várias geografias, através da subida dos preços do petróleo e do gás, gerada pela paralisação do Estreito de Ormuz - a rota marítima por onde passa cerca de 20% do fornecimento mundial destas matérias-primas. O preço do Brent, referência do "ouro negro" para a Europa, subiu mais de 38%, superando os 100 dólares pela primeira vez desde 2022 - ou seja, após o início da guerra na Ucrânia, quando a Rússia lançou uma invasão em larga escala. E o gás europeu disparou mais de 60%.

Foi por isto mesmo que quem vive em Portugal começou rapidamente a notar a subida dos preços dos combustíveis e que o Governo da AD decidiu reduzir o Imposto sobre os Produtos Petrolíferos e Energéticos (ISP), tentando mitigar este peso extra inesperado nos bolsos das famílias. Mas as faturas mais caras não vão ficar por aqui. 

“O setor da energia - que inclui, não apenas a gasolina e o gasóleo que pomos nos nossos carros, mas também a eletricidade e o gás - será, certamente, dos primeiros a acusar o conflito. Os transportes estarão também nesse lote de setores mais imediatamente afetados e, por essa via, o turismo”, explica Vera Gouveia Barros. As companhias aéreas, por exemplo, já fizeram saber que antecipam uma subida de até 9% nos preços dos bilhetes de avião, segundo disse o presidente da associação internacional IATA, Willie Walsh.

Preço do petróleo
Créditos: Investing.com

Também Gonçalo Nascimento Rodrigues, especialista em finanças imobiliárias, concorda que o impacto do conflito “tenderá a sentir-se primeiro no transporte e na logística, e depois em cadeias muito dependentes desses custos, como distribuição, indústria, agricultura e materiais”. E a Deco - Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor já veio alertar que, em breve, se pode começar a sentir um agravamento nos preços dos alimentos. 

Para ajudar a reduzir todas estas tensões geradas pelos preços do petróleo, a Agência Internacional de Energia decidiu libertar 400 milhões de barris das reservas estratégicas, o maior esoamento da sua história. A Comissão Europeia reconheceu que a União Europeia enfrenta uma “crise de preços” na energia – e não de abastecimento –, admitindo medidas “direcionadas e de curto prazo” sem alterar o sistema energético europeu. Aliás, Bruxelas instou mesmo os Estados-membros a baixarem impostos ou taxas adicionais da fatura da luz, estando a considerar a imposição de tetos ao preço do gás, perante aumentos de 50% desde o início do conflito. 

Em Portugal, o Governo de Montenegro assegura que está disponível para aplicar novos apoios se os aumentos dos preços da energia perdurarem “mais de quatro ou cinco semanas”, além do desconto do ISP no preço dos combustíveis já em vigor. Em cima da mesa está, por exemplo, acionar mecanismos europeus para proteger os consumidores se o preço do gás subir 70%. Mas também já deixou claro que outras ajudas públicas adicionais só serão tomadas em linha de conta caso a guerra se prolongue.

Preço da luz a subir
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Custos de construção em Portugal em risco de subir 

Mas o lastro da guerra no Irão não se esgota aqui, sendo que, por efeito de contágio, pode provocar uma nova onda inflacionista a nível internacional sobre outros setores, como é o caso da construção, apontam os especialistas ouvidos pelo idealista/news.

“Se o aumento dos preços da energia for temporário, o aumento dos preços dos materiais também o será e, numa primeira fase, não ultrapassará o efeito do aumento dos combustíveis no custo do transporte”, analisa José de Matos, secretário-geral da Associação Portuguesa dos Comerciantes de Materiais de Construção (APCMC). Outro cenário diferente é se o conflito no Médio Oriente se prolongar. Aí, “o custo da energia começará a afetar os custos de produção, que no caso de alguns materiais - como o ferro, o alumínio, o cobre, ou mesmo o cimento e a cerâmica - é mesmo o fator mais importante”, avisa.  

Embora considere que ainda é “prematuro antecipar os impactos concretos e reais nos custos de construção em Portugal”, Manuel Reis Campos, presidente da Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas (AICCOPN), diz que for registada “uma subida significativa e prolongada do preço do petróleo e do gás natural, poderá surgir alguma pressão sobre os custos de produção e transporte dos materiais de construção”. Isto porque “muitos materiais utilizados na construção como o aço, o cimento, o vidro, os materiais cerâmicos ou diversos produtos derivados do plástico, são particularmente sensíveis a esse fator [aumento dos preços da energia]”, esclarece.

Portanto, um dos efeitos esperados no mercado imobiliário em Portugal se houver um prolongamento da guerra no Irão, passa por “um aumento dos custos de construção associado, sobretudo, ao encarecimento de alguns materiais que são produzidos com maior recurso a energia (por exemplo, revestimentos cerâmicos), mas também à inflação, em geral”, resume a economista Vera Gouveia Barros.

E, neste contexto, podem estes incrementos nos custos de construção em Portugal tornarem-se estruturais? Há quem diga que sim e há quem diga que não. Segundo o representante da APCMC, “os custos da construção de casas irão aumentar bastante nessa fase, mas o efeito dos preços dos materiais deverá reverter rapidamente, uma vez ultrapassada a crise, tal como aconteceu antes”, enquanto “os custos da mão de obra deverão continuar a subir e, ainda mais intensamente do que antes, porque serão empurrados pela inflação”.

Já Gonçalo Nascimento Rodrigues assume que os potenciais aumentos dos custos dos materiais de construção poderão permanecer, tal como já aconteceu num passado recente. “É bom relembrar os efeitos da subida de inflação em 2022 e 2023, com impacto direto nos custos de construção. E esse impacto acabou por se traduzir em algo estrutural pois, desde então, não mais os custos de construção caíram. Todos sabemos os efeitos que este aumento dos custos de construção tem provocado na redução da acessibilidade na habitação”, alerta.

Preço da construção de casas a subir
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Preço da casas pode subir mais – e poderá haver travão nos projetos

Os fatores geopolíticos "tendem a ter impacto relativamente, por agora indireto, no mercado habitacional em Portugal”, refere o presidente da AICCOPN. Afinal, o valor dos imóveis pode ser pressionado quer pela subida dos custos da construção, quer por um eventual travão no avanço de novos projetos residenciais num clima de incerteza global e agravamento das condições de financiamento.

Num cenário mais pessimista de “estrangulamento prolongado dos mercados energéticos”, o “aumento dos custos de construção será natural, uma vez que a energia tem um peso significativo no preço dos materiais, o que terá, por sua vez, impacto no preço das casas, mas também em obras de reabilitação ou de pequenos melhoramentos”, resume, por sua vez, Gonçalo Antunes, professor universitário na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa em declarações ao idealista/news.

E, "naturalmente, se os custos de construção aumentarem ou houver maior volatilidade nos materiais e na energia, alguns projetos podem sofrer atrasos ou revisões de investimento. A instabilidade e a incerteza, num país onde já existe escassez de oferta habitacional, qualquer travão no ritmo de novos empreendimentos tende a prolongar a pressão sobre os preços da habitação”, acrescenta Manuel Reis Campos. 

Também José de Matos, da APCMC, declara ser “expectável que a atividade da construção se ressinta e diminua durante o tempo que durar a crise e até durante algum tempo depois (como já aconteceu antes) porque, mesmo com mecanismos de revisão de preços, muitas obras poderão exceder os orçamentos e o financiamento contratado e nem sempre é possível repercutir os novos custos no preço final”.

“Quanto ao preço das casas, o efeito já não é automático”, defende Gonçalo Nascimento Rodrigues. O também coordenador da pós-graduação em investimentos imobiliários do ISCTE explica que “perante uma escassez de oferta, os preços poderão manter-se resilientes, mesmo com um contexto económico mais exigente. Será previsível uma maior estabilidade nos mesmos, além de um maior tempo de absorção dos imóveis no mercado”.

Preço das casas em Portugal
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Subida de juros do BCE à espreita se inflação crescer...

A iminência de um potencial efeito cascata do custo da energia na economia, afetando o custo de vida e o investimento, pode levar o Banco Central Europeu (BCE) a agir, voltando a subir os juros diretores – uma hipótese que já está a ser antecipada pelos mercados financeiros. 

“O risco de subida de inflação existe e não deve ser desvalorizado”, já que poderá criar “entraves em cadeias de distribuição” explica Gonçalo Nascimento Rodrigues, realçando que, para já, lhe parece “mais provável um cenário de pressão inflacionista adicional e abrandamento económico do que uma crise global severa e imediata”.

Também Vera Gouveia Barros considera que há elevado risco de haver uma subida da inflação e, se esta ultrapassar a meta dos 2% que norteia a política monetária no espaço do euro, haverá que dar por certo um novo aumento dos juros do BCE. Mas a economista não antevê que os juros subam tanto como num passado recente, porque não acredita que a inflação aumentará para níveis tão elevados como em 2022 e 2023. Isto porque, nessa altura, houve uma “tempestade perfeita” de fatores que a impulsionaram, como “a guerra da Ucrânia, mas também o resultado de uma política monetária fortemente expansionista nos anos anteriores e ainda alguns problemas das cadeias de abastecimento ainda decorrentes da pandemia”. 

Recorde-se que quando, há quatro anos, a Rússia invadiu a Ucrânia, o BCE demorou mais de quatro meses a iniciar a subida das taxas de juro, reconhecendo depois que tinha sido dada uma resposta tardia à escalada dos preços. Durante meses, o guardião do euro sustentou a narrativa de que a inflação seria apenas um fenómeno transitório ou de natureza conjuntural e o primeiro aumento — de 0,5 pontos percentuais — ocorreu em julho de 2022, assinalando a primeira subida em onze anos e metendo um ponto final na época do "dinheiro barato". “Deveria ter sido mais ousada”, agindo antes, reconheceu mais tarde a própria Christine Lagarde, numa entrevista ao Financial Times.

“Caso existam sinais de inflação, é expectável que o BCE responda através do aumento das taxas de juro de referência, o que se traduzirá num aumento das Euribor”, analisa Gonçalo Antunes, alertando que “Portugal é particularmente sensível a este fenómeno devido à sua grande dependência de crédito habitação com taxas variáveis, sobretudo indexadas à Euribor a 6 e 12 meses. A gravidade do problema dependeria sempre da intensidade da subida dos juros, que poderia fazer regressar uma realidade semelhante à recentemente observada em 2023. Nesse caso, o aumento das taxas de esforço seria inevitável”, avisa.

No entanto, no momento atual, a subida dos juros do BCE não é esperada para já, com os analistas a rejeitarem a hipótese de haver um aumento das taxas na reunião de política monetária agendada para esta quinta-feira, dia 19 de março. “Um aumento das taxas de juro na reunião do BCE desta semana está efetivamente fora de questão”, refere Diego Barnuevo, analista da Ebury ao idealista/news, admitindo que o supervisor europeu “vai continuar em modo de ‘esperar para ver’ num contexto de conflito ainda em curso e altamente volátil no Médio Oriente”.

Também Miguel Cabrita, responsável pelo idealista/créditohabitação em Portugal, acredita que ainda é cedo para falar de aumentos dos juros do BCE. Mas admite que “a forte subida do preço do petróleo e do gás, se continuar ao longo do tempo, poderá levar a um aumento da inflação, e isto poderá traduzir-se num aumento dos juros por parte do BCE, embora também seja possível que a fragilidade da procura europeia contenha parcialmente este risco".

Olhando além de março, “as perspetivas de um aumento das taxas do BCE dependerão quase inteiramente da persistência dos preços elevados da energia e, por extensão, da possibilidade de o Estreito de Ormuz permanecer efetivamente intransitável”, indica ainda o analista da Ebury. Já Gonçalo Nascimento Rodrigues não acredita que “o cenário central seja um novo ciclo forte de subida dos juros, mas sim o de taxas mais altas durante mais tempo ou descidas mais lentas, caso a energia volte a contaminar a inflação”.

Além do BCE, os outros bancos centrais – como a Reserva Federal dos EUA, o Banco de Inglaterra e o Banco do Japão - também estão bem atentos aos possíveis impactos do choque energético na inflação e no crescimento económico, passando a avaliar um possível endurecimento das suas políticas monetárias, nomeadamente através da manutenção dos juros elevados durante mais tempo, do que antes era esperado.

Subida dos juros do BCE
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... e toca aumento da Euribor no crédito habitação

Por seu lado, os mercados financeiros já estão a antecipar um aumento dos juros do BCE, o que se tem traduzido nas subidas das swaps e das taxas Euribor, embora com alta volatilidade. “O recente aumento das taxas reflete uma mudança acentuada nas expectativas do mercado em relação à política do BCE na zona euro”, frisa o especialista da Ebury.

Desde o início da guerra, "os swaps passaram de taxas estáveis para antecipar, pelo menos, um aumento das taxas [do BCE] em 2026, impulsionados por preocupações crescentes com os efeitos inflacionários do aumento dos preços da energia, aos quais a Europa continua particularmente exposta”, aponta Diego Barnuevo, acrescentando que, até que haja “sinais claros de desaceleração, estas expectativas de aumento das taxas deverão permanecer voláteis e poderão consolidar-se ainda mais, mantendo a pressão ascendente sobre a Euribor”.

Para já, as recentes flutuações diárias ascendentes da Euribor refletem aumentos das taxas médias mensais de março, o que vai impactar o custo dos novos créditos habitação a taxa variável contratados em abril e as revisões das prestações da casa nos contratos existentes previstas para o próximo mês.

A “expetativa de subida de juros levará os compradores de habitação que necessitem de recorrer a crédito a serem mais seletivos e racionais e procurarem a melhor escolha de crédito”, indica ainda Gonçalo Nascimento Rodrigues, reconhecendo que “um aumento das taxas de juro provocará um travão na procura”.

Além disso, “as taxas fixas tornar-se-ão cada vez mais atraentes para alguns candidatos a crédito de habitação no curto prazo, dada a considerável incerteza em torno da duração do conflito”, indicam desde a Ebury. O mesmo diz o especialista em finanças imobiliárias: “Um novo aumento de contratos a taxa mista ou mesmo a taxa fixa poderá vir a ser um possível resultado deste movimento de mercado”. Mas as famílias também devem estar preparadas para pagar um prémio extra pela estabilidade dada por estes tipos de juros.

Uma vez mais, a evolução da Euribor e das swaps dependerá da duração do conflito no Médio Oriente. “Atualmente, o mercado parece estar a precificar um conflito que durará semanas, em vez de muitos meses. Caso esse cenário se concretize, as expectativas de aumento das taxas e as taxas Euribor poderão gradualmente reverter para os níveis pré-guerra, restaurando algum apelo aos créditos de habitação de taxa variável”, indica o analista da Ebury.

Já nas ofertas de créditos habitação não são esperadas alterações, pelo menos, no imediato. "O apetite dos bancos por crédito não mudou, pelo que enquanto não virmos indicadores a piorar, como o desemprego, teremos uma oferta de empréstimos habitação ampla e competitiva", considera Miguel Cabrita.

De qualquer forma, no atual contexto de volatilidade, é importante que a banca portuguesa esteja preparada "para para amparar choques e acompanhar a retoma da economia", alertou Francisca Guedes de Oliveira, administradora do Banco de Portugal. Os responsáveis de alguns dos principais bancos no país já vieram a público dizer que o setor está preparado para os choques da guerra no Irão, remetendo para experiências recentes e para a preparação face à instabilidade.

*Com Lusa

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